Mineração de lítio transforma vida de ribeirinhos de Itinga em pesadelo
Em visita de fiscalização à região pela Comissão de Meio Ambiente da ALMG, moradores de comunidade relatam cotidiano de insegurança e abusos com atuação da Sigma Lithium.
Sob escolta policial após sofrer uma emboscada na tentativa de intimidar a fiscalização em sua última visita técnica na região, a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) voltou a Itinga e Araçuaí (Jequitinhonha/Mucuri), na sexta-feira (20/3/26), para vistoriar o complexo de mineração de lítio do projeto Grota do Cirilo, empreendimento da multinacional canadense Sigma Lithium.
E o que foi constatado, na avaliação da deputada Beatriz Cerqueira (PT), foram crimes ambientais, abusos e intimidações contra a população da região e um novo esforço para impedir a atuação do Poder Legislativo em sua função constitucional de fiscalizar.
O objetivo da atividade era verificar as condições de segurança, para o ambiental e para a população, dentro e no entorno do complexo.
Três pilhas gigantescas de rejeito e estéril do complexo, às margens do Rio Piauí e bem próximas da comunidade Piauí Poço Dantas, onde vivem cerca de 75 famílias, seguem interditadas após fiscalização realizada em dezembro último pela Superintendência Regional do Trabalho em Minas Gerais.
Em comunicado, o órgão cita 17 medidas urgentes a serem tomadas pela empresa. Funcionários da Sigma tentaram impedir que fossem registradas imagens do complexo durante a visita da Comissão de Meio Ambiente, sob as justificativas de “espionagem industrial” e “normas do Conselho de Administração”. Desde a chegada da comitiva à portaria da empresa, foram cerca de 2h30 de negociação com uma executiva da empresa, sem sucesso.
Apesar da proibição, ao longo de todo o dia a parlamentar percorreu todo o entorno do complexo, conversou com moradores, ouviu denúncias e registrou o que ela considera serem provas de um novo crime ambiental ainda desconhecido pelos órgãos de fiscalização.
Conforme relato de moradores registrados pela parlamentar, parte da parede externa inferior de uma pilha de rejeitos desabou com as últimas chuvas e o material caiu direto no leito do Rio Piauí, afluente do Rio Jequitinhonha.
Trilhas supostamente deixadas pelo deslocamento dos rejeitos são bem visíveis de diversos pontos da comunidade, inclusive das dependências da Escola Municipal Nuno Murta, situada aos pés da montanha de restos da mineração. “Nós estamos registrando um crime gravíssimo. Como deixaram essa pilha de rejeitos chegar na porta da casa das pessoas?”, criticou Beatriz Cerqueira.
A dimensão das pilhas impressionam e, na mesma medida, intimidam quem vive no entorno do complexo minerário da Sigma Lithium. Da comunidade, é possível vislumbrar três delas, além de outras menores, de materiais diversos e composição ainda misteriosa, ao percorrer o perímetro do terreno.
Na maior delas já são seis níveis de rejeitos que fizeram “crescer” uma montanha onde antes era apenas cerrado às margens do Rio Piauí, mesmo local onde foi possível registrar marcas do suposto extravasamento provocado pelas chuvas.
As detonações de explosivos são frequentes, de acordo com os moradores. Na sexta (20), conforme placa na entrada do complexo, mais uma estava agendada para as 14 horas. Durante a visita à casa de Maura Ribeiro dos Santos, 59 anos, foi possível ouvir ao menos três sirenes intermitentes, nos minutos que antecederam o horário marcado para o fato. Felizmente, por fim, isso aparentemente não se concretizou.
“Isso é porque vocês estão aqui. Senão eles explodiam era tudo. E nós só queremos viver em paz. Deus nos abençoe por uma solução”, desabafou Maura, que assim como a irmã Maria de Fátima Ribeiro dos Santos, 62, moradora de uma casa vizinha, só quer superar o pesadelo que começou em 2023 com a chegada da mineração do lítio.
“Não tem um lugar na minha casa que não esteja rachando”, lamentou a última, ao lembrar das detonações.
As duas foram “nascidas e criadas” na comunidade Piauí Poço Dantas, assim como Frontino Modesto, 80 anos, que vive desde os 12 na mesma casa. Antes da mineração, ao levantar os olhos à porta, o que ele via era o horizonte e o serpenteio do leito do Rio Piauí.
Agora, o que ele vê é uma pilha de rejeitos e o rio com aspecto leitoso, da cor de cimento, um indício de que a água não deve ser mais própria para consumo dele ou dos animais, nem para regar as plantações.
Segundo ele, o “pessoal” da Sigma Lithium entrega todo mês mil litros de água que são depositados em caixas d’água com a identificação da empresa, visíveis também em dezenas de outras casas da comunidade. “Eles mandaram não beber mais água do rio, o que a gente sempre fez”, estranhou.
Não bastasse o temor de desabamento das pilhas, explosões e o aparente comprometimento do Rio Piauí, a poluição do ar também é uma companheira constante. Foram vários relatos feitos durante a visita da Comissão de Meio Ambiente da presença de um pó escuro que gruda em tudo e da piora de sintomas respiratórios.
Na outra ponta, na visita da deputada Beatriz Cerqueira à Escola Municipal Nuno Murta, três equipamentos instalados pela empresa nos fundos do prédio para o monitoramento da qualidade do ar estavam desligados. “É um absurdo que a própria empresa monitore a poluição que ela própria produz. É isso o que acontece”, emendou a parlamentar.
Aprisionados pela mineração, sem direito de ir e vir
Imagine viver a vida toda em sua pequena propriedade rural, às margens do Rio Piauí, e de uma hora para outra se ver cercado por todos os lados pela mineração de lítio, tendo que pedir permissão para sair e entrar em casa ou receber visitas, sob o barulho de explosões e máquinas indo e vindo sem parar?
E no trajeto para casa, de dia ou de noite, ter que passar bem ao lado numa curva de um despenhadeiro com centenas de metros de profundidade, na cava sul do complexo da Sigma Lithium? Isso em estrada de terra e sem sinalização de trânsito, sem iluminação, onde também, todos os dias, trafega um ônibus escolar que leva o seu filho e dezenas de outras crianças para estudar.
Pois essa é a realidade diária de Paloma Pessoa Souza, 30 anos, que se recusou a vender sua casa pelo preço oferecido pela mineradora, R$ 70 mil segundo revelou seu pai, Antônio Luís Santos Souza, de 59, cuja casa teria sido avaliada em R$ 200 mil. Na propriedade de 31 hectares há ainda uma terceira casa, onde vive a mãe dele.
A corrida pelo lítio fez inflacionar o mercado imobiliário em Araçuaí e região. “Eu não vou de uma roça para outra porque aqui tudo é mineração. O jeito é ir para a cidade, mas o que nos ofereceram não dá para comprar nem uma casa, o que dirá três. A oferta pela minha casa não compra nem meio lote. Agora nos cercaram de vez e dizem que isso vai aumentar nossa segurança, mas vivemos mesmo é numa prisão”, relatou Paloma.
“Mas eu não vou aceitar a proposta delas para sair daqui e ficar na rua. Se eles fizerem uma proposta decente, eu vou embora e não quero nunca mais ouvir falar deles de tanto transtorno e ódio que já passei. Mas enquanto isso não acontece, eu estou aqui. Aqui é meu lugar”, contou, emocionada.
Paloma relatou à deputada Beatriz Cerqueira que precisa se deslocar até a guarita da empresa para autorizar a entrada de qualquer visita. E a liberação muitas vezes é burocrática e tensa.
Na chegada da comitiva da Comissão de Meio Ambiente à casa de Paloma, um funcionário da Sigma Lithium determinou que o vigilante liberasse imediatamente a entrada da parlamentar. Mas, conforme Paloma, no dia a dia a regra é outra, muito mais rígida.
No trajeto até a casa, esse mesmo funcionário tentou impedir que fossem registradas imagens da cava sul.
No retorno da equipe no mesmo trecho, o momento de maior tensão foi quando um caminhão-pipa bloqueou um dos acessos e seguranças filmaram ostensivamente toda a movimentação da deputada e de sua assessoria. Apenas uma amostra da rotina diária de Paloma ao tentar exercer seu direito constitucional de ir a vir.
