Escolas de samba e blocos cobram mais recursos para o carnaval de BH
Financiamento para vias sonorizadas é criticado por entidade que reúne 70 agremiações carnavalescas.
Representantes de blocos de carnaval e escolas de samba de Belo Horizonte cobram mais recursos e estrutura para valorizar a festa popular que toma conta das ruas da cidade todos os anos. Em reunião da Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa realizada na terça-feira (10/3/26), a comunidade carnavalesca apresentou suas reivindicações a autoridades estaduais e municipais.
Uma das principais preocupações das lideranças responsáveis pelo carnaval é a destinação de recursos públicos para os cortejos. Os blocos criticam as vias sonorizadas, patrocinadas com cerca de R$ 10 milhões da Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge). A iniciativa garante melhor de qualidade de som para os desfiles, mas os critérios de escolha dos beneficiados são controversos.
Segundo a Bruta, liga que reúne 70 blocos de carnaval, as vias sonorizadas (Avenidas Brasil, Andradas e Amazonas) receberam 23 cortejos neste ano. Na avaliação da presidente da entidade, Marcela Linhares, do bloco Então Brilha!, trata-se de uma grande concentração de recursos em benefício de poucos blocos.
Ela defende repensar o patrocínio da Codemge seja repassado diretamente para os blocos, que enfrentam dificuldades para financiar os desfiles. O aluguel de um trio elétrico custa cerca de R$ 70 mil, e muitos não conseguem arrecadar o montante. “Não existe valorização do carnaval sem dinheiro na mão dos blocos”, desabafou.
A Bruta também reivindica critérios mais claros e transparentes para escolher os blocos beneficiados pelas vias sonorizadas. De acordo com Marcela Linhares, neste ano, o Alcova Libertina, uma das agremiações mais tradicionais de Belo Horizonte, não pôde sair na Avenida dos Andradas, onde sempre desfilou.
Para viabilizar mais recursos para o carnaval, os blocos também pedem a ampliação do teto de patrocínio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura (Leic). Segundo Leandro César da Silva, diretor do bloco Então Brilha!, os financiamentos do carnaval e de outros projetos culturais se esgotam rapidamente.
No carnaval de passarela, uma tradição com mais de meio século de história, a escassez de recursos é um problema todos os anos. Para a presidente da Liga das Escolas de Samba de Minas Gerais (Aliga), Maria Elisa Abreu da Cruz, as agremiações precisam de investimentos e atenção das políticas públicas.
Ela lembrou o papel das escolas de samba não só como espetáculo de carnaval, mas também como espaços de formação de trabalhadores da cultura, de empoderamento feminino e de resgate de jovens expostos à violência.
Nos blocos caricatos, manifestação cultural que nasceu praticamente junto com a construção de Belo Horizonte, no século XIX, a situação não é muito melhor.
O presidente do bloco Pérola Negra, Marco Antônio de Campos Pereira, contou que cada agremiação recebe um patrocínio oficial de R$ 100 mil, mas os recursos não são suficientes. Por não ter uma sede própria, o bloco faz ensaios em uma praça e monta carro alegórico na rua. “É um sofrimento para todos nós”, comentou.
Secretária rebate críticas a vias sonorizadas
A secretária de Estado de Cultura e Turismo, Bárbara Botega, rebateu as críticas feitas à sonorização de vias. Ela disse que a estratégia é aprovada por foliões e agremiações carnavalescas e explicou que foi feito um chamamento público para escolher os blocos que desfilam nas vias sonorizadas. A palavra final, segundo a secretária, é da Belotur, responsável pela organização do carnaval de Belo Horizonte.
Bárbara Botega ainda argumentou que, se os recursos gastos com a sonorização fossem divididos entre os mais de 600 blocos de rua da Capital, a parcela seria muito pequena para cada um deles.
Por outro lado, ela reconheceu que os recursos públicos para o carnaval são escassos e que o teto de financiamento da Leic poderia ser aumentado. Botega defendeu que os blocos podem captar recursos diretamente com patrocinadores privados ou receber recursos por meio de emendas parlamentares.
O vice-presidente da Belotur, Bruno Eduardo Silva Cassimiro, ressaltou o compromisso da administração municipal com o carnaval e disse estar aberto ao diálogo com blocos de rua e escolas de samba. “Sabemos que temos muita coisa para melhorar. Mas estamos de portas abertas para construir um carnaval melhor”, afirmou.
Deputada condena concentração de recursos
A deputada Bella Gonçalves (Psol), que solicitou a audiência, criticou a postura da secretária de Estado de Cultura e Turismo e reiterou questionamentos à decisão de patrocinar a sonorização de vias.
Na avaliação da parlamentar, trata-se de uma “hiperconcentração” de recursos para uma ação específica, que não beneficia diretamente os blocos de carnaval. “Queremos saber quem está lucrando com esse carnaval, já que os blocos não recebem recursos para fazer seus cortejos”, afirmou.
A parlamentar ainda disse que o teto de recursos da Leic não aumenta porque o Governo do Estado não permite. “Precisamos que o governo compreenda a importância da cultura”, defendeu.
A deputada Lohanna (PV) afirmou que os cidadãos precisam acompanhar a atuação da Secretaria de Estado de Cultura. “Que tipo de carnaval a gente quer: privado, com blocos selecionados sem transparência, ou descentralizado, que pertença ao povo mineiro?”, questionou.
Já o deputado Rodrigo Lopes (União Brasil) manifestou apoio ao carnaval de Belo Horizonte e defendeu um planejamento estratégico para a festa, de modo que as escolas de samba tenham mais estrutura para organizar os desfiles.