Comunidade cobra continuidade do ensino fundamental nos Cesecs
Educação de jovens e adultos na modalidade semipresencial viabiliza retomada dos estudos e alimenta sonhos de um futuro melhor.
A auxiliar de serviços gerais Eliana Márcia Alves dos Reis nunca teve oportunidade de estudar. Agora, aos 64 anos, ela acaba de concluir seus estudos no Cesec Maria Vieira Barbosa, que fica em Venda Nova, em Belo Horizonte.
Sua história é apenas uma, entre tantas outras, que mostram a transformação nas vidas das pessoas que tiveram uma segunda chance, ao retomarem seus estudos por meio da educação de jovens e adultos (EJA).
A ameaça de fechamento das turmas de EJA do ensino fundamental levou a Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) ao Cesec Maria Vieira Barbosa nesta segunda-feira (16/3/26).
A presidenta da comissão, deputada Beatriz Cerqueira (PT), fez questão de ouvir a comunidade escolar sobre a possibilidade de encerramento da EJA no ensino fundamental nos Cesecs, conforme decisão da Secretaria de Estado de Educação (SEE).
Os centros estaduais de educação continuada (Cesecs) são escolas da rede pública voltadas para jovens e adultos que não concluíram os estudos na idade regular. Eles oferecem uma modalidade de ensino semipresencial e flexível, permitindo que o aluno estude no seu próprio ritmo, com aulas online, para obter a certificação dos ensinos fundamental e médio.
É com essa modalidade de ensino supletivo, que permite o estudo autônomo, com o apoio de professores para esclarecer dúvidas, que muitas pessoas ganham uma nova oportunidade de concluir sua formação básica. Muitos desses estudantes são trabalhadores ou idosos já aposentados.
“O Cesec não pode acabar. Ele mudou a minha vida e a de muita gente”, disse Eliana Márcia Alves dos Reis, que conseguiu uma posição melhor na empresa onde trabalha graças à qualificação obtida no Cesec.
Assim como ela, muitos alunos deram seus testemunhos sobre o poder transformador da educação em suas vidas. São histórias de esforço pessoal, de superação e de esperança em um futuro melhor.
A cuidadora de idosos Sônia Maria Braz Marques retomou os estudos aos 54 anos. Hoje, aos 60 anos, ela está no curso técnico em enfermagem. “Se não fosse pelo Cesec, eu não estaria fazendo esse curso”, contou ela, que sonha em entrar na faculdade.
Quem realizou o sonho de entrar na faculdade foi Raquel Cruz dos Santos, que estuda Serviço Social. Ela chegou ao Cesec depois de passar por vários cursos, nos quais se matriculou para superar a dor pela perda do marido. Aos 58 anos, ela conta, empolgada, que, daqui quatro anos, estará formada e aposentada. “Nós, que somos mais maduros, também somos capazes de estudar”, afirmou.
O estoquista Gilcimar Mário de Souza Cesário largou a escola aos 14 anos de idade. Depois de 25 anos sem estudar, matriculou-se no Cesec e agora está concluindo o ensino médio. “Eu achava que não conseguiria chegar lá. Mas o Cesec está aí para nos ajudar”, disse.
Aos 74 anos, Sebastião Otoni também está concluindo o ensino médio. Para ele, o Cesec é uma porta aberta para um futuro melhor. “O Cesec só tem um problema: manda muita gente para a faculdade”, brincou.
Secretaria de Educação proíbe novas matrículas
A continuidade da oferta do ensino fundamental nos Cesecs está ameaçada pela Resolução 5.229, publicada no dia 22 de dezembro de 2025 pela SEE. A norma proíbe novas matrículas no ensino fundamental à distância na modalidade EJA.
Os estudantes já matriculados terão o prazo de 90 dias, que se encerra nesta sexta-feira (20), para concluir os componentes curriculares em curso. Após essa data, aqueles que não tiverem concluído seus estudos serão encaminhados para as bancas de avaliação, responsáveis pela aplicação dos exames que certificam a conclusão do ensino fundamental.
A deputada Beatriz Cerqueira discorda dessa decisão e já cobrou providências da SEE e da Advocacia-Geral do Estado (AGE). A parlamentar acionou a Defensoria Pública, que negocia uma solução consensual com a SEE para evitar a extinção do EJA fundamental nos Cesecs. De acordo com ela, a Defensoria já recomendou a manutenção das matrículas após o prazo final estipulado pela SEE.