DEPUTADO HELY TARQÜÍNIO (PSDB)
Discurso
Coordena e presta esclarecimentos sobre a realização dos debates.
Reunião
80ª reunião ESPECIAL
Legislatura 14ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 29/06/2000
Página 37, Coluna 1
Evento Ciclo de Debates: Minas Gerais e os Transgênicos.
Assunto AGROPECUÁRIA. SAÚDE PÚBLICA.
Legislatura 14ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 29/06/2000
Página 37, Coluna 1
Evento Ciclo de Debates: Minas Gerais e os Transgênicos.
Assunto AGROPECUÁRIA. SAÚDE PÚBLICA.
80ª REUNIÃO ESPECIAL DA 2ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 14ª
LEGISLATURA, EM 30/5/2000
Palavras do Deputado Hely Tarqüínio
O Sr. Presidente - Vamos dar início à fase de debates. A
Presidência informa ao Plenário que os participantes poderão
formular perguntas aos expositores. As perguntas poderão ser
encaminhadas à Mesa por escrito ou feitas oralmente. Cada
participante disporá de até 3 minutos para a sua intervenção.
Solicitamos àqueles que desejarem fazer uso da palavra que sejam
objetivos e sucintos, estando dispensadas as formalidades das
saudações pessoais.
Debates
O Sr. Presidente - Vou ler a pergunta dirigida ao Dr. Luiz
Eduardo Carvalho, feita por Luiz Antônio, da Escola Estadual Prof.
Antônio Azeredo: “Temos, na página 131 dos anais do Seminário
sobre Biodiversidade, alguns estudos sobre organismos
geneticamente modificados e seus impactos. O item V diz que a soja
modificada geneticamente com o gene da castanha-do-pará resulta em
alergia em algumas pessoas. No item VI, a bactéria geneticamente
modificada causou a morte de 37 pessoas, e 1.500 tiveram seqüelas.
Esses são estudos publicados na Noruega, em 1999, entre outros. Já
na página 198, menciona-se que a Associação Médica Britânica
divulgou um documento mostrando o impacto do uso da engenharia
genética na agricultura, na alimentação e na saúde. Nesse
documento, os médicos pedem a moratória, até que haja consenso
sobre o potencial de efeitos ambientais. A pergunta é: estes
fatores não são suficientes para se restringir a produção de
alimentos transgênicos a lavouras experimentais segregadas?”.
O Sr. Luiz Eduardo Carvalho - Acho que deveria responder a essa
pergunta quem está na CTNBbio, representando o Ministério da
Saúde.
Vemos que o Ministro da Agricultura vem e diz: “Somos a favor de
liberar os transgênicos porque a CTNBio votou a favor”. Sim, mas
os representantes do Ministério da Agricultura na CTNBio votaram a
favor por quê? O Ministro da Saúde diria: “Vamos ser favoráveis
aos transgênicos porque a CTNBbio foi favorável”. Mas o
representante da Saúde lá dentro já foi favorável antes. Eu se
estivesse lá dentro votaria como você está propondo - como cidadão
e como consumidor seria contra os experimentos. Não sou
geneticista nem definidor de política científica e tecnológica do
País. Quem deve pensar sobre esse tema são os dirigentes dos
outros setores, e não apenas a saúde individual.
Como já foi dito, há uma grande contradição porque o Brasil
proíbe o plantio, mas permite o consumo. Estamos comendo vários
alimentos transgênicos. Então, vamos proibir os experimentos? Só
alerto que o Brasil proíbe o plantio, mas permite o consumo livre
daquilo que chamamos de alimentos transgênicos, como o queijo, a
batatinha binge, as coisas de soja, óleos e margarinas que vêm da
Argentina. Como podemos resolver isso? Há muitas perguntas a serem
associadas à sua. Acho que você tem razão.
O Sr. Presidente - A segunda pergunta escrita é também de Luiz
Antônio, da Escola Estadual Prof. Azevedo. É dirigida à
representante da CTNBio: “A Dra. Maria Helena Nazarino do IDEC
menciona, em sua conferência nos anais do Senado sobre
Transgênicos, que o CTNBio não levou em consideração estudos sobre
o impacto ambiental de culturas transgênicas que deveriam ser
conduzidas pelo Ministério do Meio Ambiente. Também não levou em
consideração estudos sobre a avaliação da segurança dos alimentos
transgênicos que seriam da alçada do Ministério da Saúde. O fato
de desprezarem esses estudos e de apoiarem a idéia da não-
rotulagem, que fere o Código de Defesa do Consumidor brasileiro,
além da liberação de autorizações fora de sua alçada, como a
autorização para demonstrações, comercialização e liberação de
áreas de plantio para transgênicos acabou por levar à justiça a
discussão dos organismos geneticamente modificados. Em que
situação se encontra esse processo? Quais suas perspectivas sobre
o assunto? “Diante dessas acusações houve instauração de um
inquérito sobre o porquê dessas decisões desconsideraram posições
externas?”.
A Sra. Ednilza Pereira de Farias Dias - Quero dizer que a
discussão é muito rica e às vezes penso que três dias só falando
sobre a CTNBio seria insuficiente. Lamentei muito que tivesse um
espaço tão pequeno para mostrar a posição da CTNBio e como tem
conduzido o seu trabalho. Inicialmente, há um engano, a CTNBio não
tem mandato para decidir rotulagem. O máximo que ocorre é ser
ouvida em dado momento. Como foi dito pelo Dr. Hocck é uma decisão
composta pelos Ministérios da Justiça, da Agricultura, da Saúde e
da Ciência e Tecnologia.
Gostaria de dizer que, no máximo, a CTNBio pode ser ouvida sobre
a questão da rotulagem. Em nenhum momento se expôs a posição
contrária à rotulagem. Mesmo porque também foi dito que a CTNBio
não teve assento na defesa do consumidor. Gostaria de dizer que o
Instituto de Defesa do Consumidor e os demais órgãos são ouvidos
pela CTNBio. Em nenhum momento pensamos em ferir esse direito que
é avançadíssimo. Pelo contrário, esta semana estaremos em Genebra
num “workshopping” discutindo essa questão. Juntamente com os
Ministérios apresentaremos a questão brasileira que é a de
rotulagem. Um ponto que ainda se discute é se a rotulagem pode ser
negativa no caso de ser constatado que não há nenhum resíduo do
organismo geneticamente modificado no produto final, como no óleo
de soja, que não contém proteínas.
Quanto à questão do impacto ambiental, gostaria de dizer que a
CTNBio também tem assento no Ministério do Meio Ambiente e
cientistas na área que avaliam a questão do impacto ambiental.
Quando há necessidade, encaminhamos o estudo para o EIA. Causa-me
espécie ouvir que hoje estamos consumindo produtos transgênicos
liberados pelo Governo. Ora, se estamos consumindo produtos
transgênicos, com certeza não são liberados pelo Governo. A única
liberação foi para o plantio da soja. Na verdade, consumimos
transgênicos nos medicamentos. Na medicina, essa preocupação não
tem sido evidenciada. Ninguém se preocupa com o que está havendo.
Estamos lavando nossas roupas com sabões transgênicos. Geralmente,
em algum processamento houve uma manipulação genética. Tomamos
medicamentos e estamos utilizando insumos industriais decorrentes
da manipulação genética. No entanto, ninguém está preocupado com
isso. No passado, quando o homem se confinou e disse que iria
plantar ali, isso já foi uma questão a ser discutida. Assim, a
agricultura é evidenciada porque é a área que mais nos afeta
diretamente. Quero dizer que dependemos muito de uma agricultura
saudável.
Em nenhum momento, como foi mencionado, a CTNBio se posicionou
contra a rotulagem. Ela analisa caso a caso. Sempre faço a
brincadeira dizendo que não sou a favor nem contra estrangeiro,
muito pelo contrário. Mas, na verdade, não se trata de um
posicionamento meu a favor ou contra o transgênico. Parece que se
criou o seguinte embate: se você é de oposição, tem que ser contra
os transgênicos e, se você é de direita, tem que ser a favor dos
transgênicos. Não é isso. A questão é analisar cada caso, cada
evento e cada situação que envolva uma manipulação genética. Não
se deve fazer uma avaliação generalizada.
A minha posição é a favor da biotecnociência. Acho que se deve
avançar com responsabilidade. Sou contra a moratória. Não contra a
moratória para se colocar no mercado, mas contra a moratória para
se fazerem experimentos até se chegar a uma posição segura quanto
à utilização dessa tecnologia.
O Sr. David Hathaway - A minha pergunta para a Dra. Ednilza é
para solicitar alguns... Gostaria de oferecer o que, na minha
opinião, seriam alguns esclarecimentos relativos aos seus
comentários. O que me incomodou durante a apresentação da
representante da Comissão de Biossegurança foi que não se falou em
biossegurança. Falou-se no procedimento burocrático para a
liberação, e sabemos que a CTNBio não libera. Falou-se ainda,
entre aspas, da necessidade da biotecnologia, que é muito mais
precisa, a engenharia genética, que o melhoramento convencional.
Desfilou os argumentos malthusianos sobre população de maneira
simples e disse que o transgênico tem que respeitar o meio
ambiente. E que o transgênico é para aumentar o valor nutricional
do alimento. Mas e a biossegurança? Para que existe a CTNBio?
Em boa parte dos discursos e das apresentações de representantes
oficiais da CTNBio que ouvimos em fóruns, nunca ouvimos falar na
razão de ser desse órgão. Ouvimos de representantes como o Prof.
Pateliani que há outras tecnologias, como a fusão de protoplastas,
que não é a radiação do alimento, mas a mutação provocada por
irradiação de raios X, as quais são técnicas que mexem muito mais
e de maneira supostamente muito mais perigosa que a engenharia
genética.
Pergunto à representante da CTNBio se os seus membros estão
fazendo um “lobby” contra a lei de biossegurança. Será que não
seria mais coerente propor a revogação da lei e a extinção da
CTNBio, se não conseguimos aprender nada sobre a biossegurança?
Quero mencionar ainda que a CTNBio nunca pediu - conforme a
última fala da senhora - nem encaminhou para fazer EIA de planta
ou de organismo nenhum. Quer dizer, há essa faculdade de pedir,
mas ela nunca pediu. Se o Governo não liberou ativamente a
importação de plantas de alimentos transgênicos, liberou
passivamente. Se a CTNBio não fiscaliza, lava as mãos quanto a
isso, os funcionários e membros da CTNBio, sabendo da ocorrência
de um crime e não tomando providências, incorrem em
responsabilidade mesmo sem ter poder formal de fiscalização.
Isso também ocorre com as enzimas no sabão, que nunca foram
regulamentadas. Mas existe um processo sobre as enzimas
transgênicas. Também há o hormônio recombinante que está no leite:
a CTNBio decidiu que esse produto da Monsanto que está no leite A
não é digno de ser apreciado pela CTNBio porque não é um organismo
vivo.
A Sra. Ednilza Pereira de Farias Dias - Vou tentar ser o mais
sucinta possível para dar chance também a outras perguntas. Como
você disse, a fiscalização é feita pelo Ministério, e não, pela
CTNBio. A avaliação de biossegurança é feita a partir de
experimentos como os realizados com qualquer outro alimento e em
qualquer outro processo em que se necessite de avaliação.
Avaliamos os experimentos encaminhados pelo proponente e
solicitamos outros experimentos seja ao próprio proponente ou a
outras entidades. Essa é a avaliação de biossegurança que se faz
do produto. Obviamente, como disse, em nossa fala se tratava de
uma questão de direito do consumidor frente à questão dos
transgênicos, e tivemos que restringir um pouco essa colocação.
Obviamente, existe todo um protocolo de avaliação de
biossegurança que está nas instruções normativas da CTNBio. A
avaliação é feita não apenas pelas representações ministeriais e
de algumas entidades, como as de defesa do consumidor e da saúde
do trabalhador, como também pela parte científica da CTNBio, que
representa 50% de sua composição.
O Sr. Presidente - A outra pergunta é do Sr. David Hathaway e é
dirigida ao Dr. Edson Teixeira, do Pif-Paf: “Os altos custos da
administração segregada são um argumento a favor do uso exclusivo
de insumos não transgênicos em sua indústria, frente à alternativa
de desistir da exportação?”.
O Sr. Edson Teixeira Filho - Naturalmente, enfocamos esse
controle de processo quando trabalhamos com dois produtos. A
empresa moderna tem seu foco centrado no cliente. O mercado gira
em torno daquilo que o cliente deseja das empresas. Caso se
consiga repassar o custo para o cliente, a empresa desistirá de
qualquer produto alternativo desde que consiga trabalhar bem a
idéia: “produzo um alimento saudável, que pode ser vendido mais
caro, para cobrir meus custos de produção”. Não sei se foi o que o
Dr. David perguntou, mas, se houver chance de fornecer ao cliente
o melhor produto por um preço acessível e que dê retorno à
empresa, certamente será este o escolhido por ela.
O Sr. Presidente - Pergunta de Cláudia Machado, da Secretaria de
Estado da Saúde, dirigida ao Dr. Hoeck Miranda: “É viável a
fiscalização dos alimentos transgênicos no mercado? Como poderão
ser analisados?”.
O Sr. Hoeck Miranda - É necessário que avaliemos o modelo de
rotulagem a ser adotado para essa categoria de produto. Se formos
adotar o modelo de rotulagem plena, ou seja, a que discrimina a
existência de qualquer ingrediente proveniente de organismo
geneticamente modificado em qualquer fase do processo de produção,
para que a rotulagem se torne efetiva, é necessário que seja
adotado o modelo de produção, comercialização, distribuição,
transporte e armazenamento segregados. Relativamente ao modelo
segregado, adotado pelo governo japonês, trouxe correspondência do
Canadá, havendo deixado cópia com a comissão organizadora. Se
adotarmos o modelo de rotulagem plena, isso implicará na adoção de
um modelo de comercialização segregada. O modelo de
comercialização, produção, transporte, armazenagem, toda a cadeia
produtiva segregada, tem como ser fiscalizado. Se considerarmos a
situação do mercado atual, não temos processo de segregação ou
identificação já estabelecido, mesmo porque não consta na
legislação brasileira. Temos o princípio de que o consumidor deve
ser informado, mas não temos o regulamento técnico indicando a
forma com que essa informação deve ser colocada no espaço indicado
para a rotulagem do produto. Na situação atual, é extremamente
difícil o processo de fiscalização de qualquer tipo de produto que
está no mercado. É uma guerra de gato e rato. É um processo
extremamente difícil, de pouca eficiência. Há necessidade de
organização de mercado para que tenhamos um processo de
fiscalização mais eficiente.
O Sr. Presidente - Perguntas de Lígia Lindner, da Secretaria de
Estado da Saúde, dirigida ao Dr. Hoeck Miranda: “É competência
legal da Agência Nacional de Vigilância Sanitária a autorização
para o consumo dos alimentos geneticamente modificados. Ontem, foi
veiculado, neste Plenário, que a CTNBio autorizou a importação de
alguns transgênicos e já existem muitos alimentos transgênicos
importados sendo consumidos. Quantos pedidos de autorização para
comercialização e solicitações de avaliação de riscos de
transgênicos a agência já analisou e deferiu? Como é feita a
fiscalização dos importados? Existe metodologia de análise que
permita distinguir, após o processamento do alimento, o
convencional do transgênico?”.
O Sr. Hoeck Miranda - Retornando à primeira pergunta da Cláudia,
a questão da análise dos produtos transgênicos é um dos pontos de
estrangulamento, não apenas no Brasil, mas em nível mundial.
Estivemos, em março, numa conferência sobre biotecnologia e
produção de alimentos geneticamente modificados, quando foi
exposta essa questão por uma cientista pertencente a um instituto
localizado na Itália, mantido pela União Européia, especializado
na preparação de padrões para análise de produtos. Ficou bem claro
na exposição que, até hoje, testado, validado, só existe padrão
analítico, por exemplo, de soja transgênica, apenas para a soja
Roundup Ready e para a soja resistente ao glifosinato ou glifosato
de amônia. Só foi validado um “kit” para análise desses produtos
até agora, num programa interlaboratorial, do qual participaram 38
laboratórios de 14 países da União Européia. A questão da análise
do alimento transgênico é crítica, e, hoje, só se consegue
analisar a matéria prima. A metodologia é alemã, baseada na
técnica (?), técnica de reação imunológica, só existindo um “kit”
para reação antígeno-anticorpo validado e à disposição de mercado,
e somente para a soja. Para o milho geneticamente modificado, para
o milho VT, não existe padrão analítico nem “kit” para verificar
se é milho geneticamente modificado ou não. Se considerarmos o
aspecto de capacidade analítica, diria que não podemos liberar
nenhum alimento transgênico no comércio. Se considerarmos a
questão do componente proveniente de matéria de origem
transgênica, que não tenha proteína nem o DNA geneticamente
modificado, não temos como identificar se uma lecitina de soja vem
de soja transgênica ou não. Isso porque os métodos analíticos,
hoje conhecidos, são baseados na análise da proteína ou do DNA. Se
nem a proteína nem o DNA estão presentes, não temos como fazer a
identificação. Tudo dependerá do modelo de rotulagem a ser adotado
no País. Dependendo do modelo, necessariamente partiremos para a
segregação e, a partir dela, temos como acompanhar.
O Deputado Edson Rezende - O grande problema da questão dos
transgênicos é o controle. A resposta do Prof. Hoeck nos diz
claramente que a tecnologia vai fazendo seus produtos e o poder
público e os consumidores que os controlem. Não temos como
controlar, pois não há forma de análise. Fico preocupado com o
discurso de que não há outra alternativa, de que o transgênico
veio para ficar. Também preocupa-me a questão, que Ednilza coloca,
dizendo que os medicamentos estão sendo consumidos e ninguém
questiona, o mesmo acontece com o sabão. Então, por que questionar
os alimentos? Os medicamentos têm controle cultural, histórico.
Existe um médico que os receita, existem estudos bibliográficos,
vários centros de pesquisa em todo o mundo, o que é bem diferente
dos alimentos, que, dificilmente, são pesquisados. E se o sabão,
com enzimas transgênicas, está sendo utilizado, e desconhecemos,
enquanto consumidores, sentimo-nos indignados. Uma resposta que
não foi dada à sociedade mineira e que já deveria ser do
conhecimento de todos refere-se ao motivo pelo qual a CTNBio
liberou a comercialização, o plantio comercial da soja transgênica
e do milho transgênico, sem o estudo do impacto ambiental, sem o
relatório de impacto do meio ambiente. A CTNBio não tem
responsabilidade de apresentar aos Ministérios da Ciência e
Tecnologia, da Saúde, da Agricultura os dados da não-liberação da
soja ou do milho transgênicos para a comercialização, porque não
foram realizados estudos de impacto ambiental? Ela não tem que
fazer isso? O IDEC, segundo a Marilene Lazarino, não está na
CTNBio desde 1996. Isso é verdade? Pelo menos é o que diz na
palestra registrada nos anais do Senado, onde esteve até 1996 e
saiu em 1997. Essa é a nossa preocupação quanto aos transgênicos.
Não há outra alternativa, porque esse é o discurso neoliberal.
Está muito coincidente.
A Sra. Ednilza Pereira de Farias Dias - Pontuei algumas questões,
para ser mais sucinta e rapidamente responder. Sobre o assento do
IDEC, pode não estar lá, mas a representação de defesa do
consumidor está.
Quanto à saúde do trabalhador, por exemplo, o Ministério do
Trabalho pode mandar um representante. A Coordenação de Saúde do
Trabalhador, que é outro órgão, manda seu representante. Então,
qualquer órgão de saúde do trabalhador, devidamente constituído,
pode mandar seu representante. Existe o assento da Defesa do
Consumidor, embora não seja do IDEC. A Defesa do Consumidor está
representada, e é preciso que o IDEC tenha um contato maior ou
exija desse representante as condutas que essa representação está
tomando frente às decisões da CTNBio.
Quanto à liberação do milho e da soja, até hoje, que eu saiba, a
soja foi liberada, mas o milho está em estudo. Da soja não foi
solicitado EIA-RIMA, porque foi um entendimento do Ministério, que
disse que não precisava, porque não existia nenhum evento, nenhum
impacto ambiental importante a ser considerado. Foi uma decisão
conjunta. O milho ainda está em estudo. A liberação do meio
ambiente está sendo feita em fase experimental. Desculpem-me por
ser tão sucinta, mas há muitas perguntas a serem respondidas.
O Sr. Luiz Eduardo Carvalho - Primeiro, gostaria de esclarecer
algumas citações que foram feitas à minha fala. Não disse que não
há defesa do consumidor dentro da CTNBio. É evidente que existem
organismos nesse órgão. Não estava pleiteando esse tipo de função.
O que estava pedindo é que o consumidor não seja defendido apenas
pelo IDEC. Gostaria que o consumidor fosse defendido pelo
Ministério da Saúde. Quando disse que o consumidor está sozinho,
quis dizer que me parece que as instituições oficiais não estão
defendendo o consumidor. Entendo que a defesa do consumidor cabe
ao Estado, e não ao próprio consumidor. Foi isso o que quis dizer.
Em segundo lugar, quis dizer que os transgênicos estão no
mercado. E se estão é porque estão liberados. Proibidos não estão.
Não estão liberados oficialmente. Liberou geral? Liberou geral -
sem lei -, mas se não fiscalizam está liberado.
Com relação à pergunta que o Hoeck respondeu, não sei se vão ser
fiscalizados os alimentos transgênicos. Depende da definição de
alimento transgênico. Se alimento transgênico for somente a soja
em grão, é muito fácil fiscalizar, porque existem métodos para
isso. Mas se o alimento transgênico for o óleo de soja, a
margarina feita com soja transgênica, vai ser complicado. O
Ministério não analisa nem rótulo de “Tang”, que é fácil de ler,
vai analisar DNA? Com que dinheiro? Acredito que a resposta é não.
Considerei excelente a participação do representante do setor
agroindustrial. Nisso Minas inovou. Creio que foi o David, o
Sílvio, o Sérgio que viram pela primeira vez esse novo ator surgir
no debate para dizer: “Não dá para rotular. Estão me colocando
numa situação difícil”. Está faltando ainda um novo ator - o
supermercado. Se é difícil para a indústria, imaginem para o
supermercado. Vai ter de duplicar todas as suas prateleiras.
Quanto custa um espaço no supermercado? É óbvio que não vim
combater a hipocrisia sendo mais hipócrita ainda. Vamos ser
francos. Não estamos discutindo rotulagem. A rotulagem está sendo
discutida para mostrar que não dá para plantar, senão atrapalhamos
as pessoas que estão preocupadas em fazer a lei, como os
Deputados, por exemplo. É impossível rotular. E é indispensável
rotular. E a decisão, Srs. Deputados, é política. São V. Exas. que
vão decidir se isso vai ser plantado ou não, porque rotular é
impossível. O novo ator que surgiu - que é a agroindústria -
mostrou que é impossível. Ainda falta o supermercado. Então, não
posso combater hipocrisia com mais hipocrisia.
O substancialmente equivalente que foi posto aqui toca no ponto
central. E os Deputados são representantes do povo. A legislação
tem de ser humana, não pode ser química. A definição de
substancialmente equivalente é química. E comida não é química, é
uma atitude humana. Se não, vou usar o que já ouvi por aqui: uma
pessoa disse que não há riscos. E ouvi aqui uma piada horrorosa,
que gostaria até que fosse cortada da ata. Diz o seguinte: “Chamam
a mulher do cara, que vou chamar de Ricardão, que vem de
camisinha. Não vale beijo na boca. Não há risco nenhum, deixa a
sua mulher com o Ricardão. Não engravida, não passa AIDS, não há
risco nenhum. Está preocupado com o quê? Qual é o risco de o
Ricardão pegar a sua mulher?”.
E a mesma piada vale para a parte nutricional. Se a definição de
“substancialmente equivalente” vale, então, vou dizer: “Vamos
trocar a sua mulher. Vamos pegar outra mulher para você, que
reclama mais do que a sua, que gasta mais do que a sua, mais feia
do que a sua. Mas o teor de proteína, de lipídios e de umidade que
ela contém, e de vitaminas A e D, é o mesmo. É substancialmente
equivalente. Leve”.
Não dá. Se não puder falar de mulher, vou falar de comida. Vou
fazer um estrogonofe de picadinho de rato. A proteína é a mesma.
São os mesmos 24 aminoácidos, o mesmo percentual. Come picadinho
de rato. Vou comer de filé, porque não gosto de transgênico.
Cibele, quem é competente para fazer essa fiscalização? O Estado
tem uns laboratórios tão pobrezinhos, pagando tão pouquinho e anda
tão devagarinho, enquanto a indústria vende hormônio recombinante,
agrotóxico, transgênico. O sistema de vigilância sanitária não
acompanha a velocidade da indústria. Não temos vigilância capaz de
fazer essa fiscalização. É uma decisão política. Os Deputados vão
nos representar e vão decidir: queremos ou não um serviço de
vigilância competente e caro. Muito caro. Queremos? Podemos? É uma
decisão política. O Banco Central é caro. O Presidente da
República, tanto Fernando Henrique, quanto Collor - o Sarney, não
-, colocou uma mulher para presidir as políticas sociais. Por que
não colocam uma mulher para presidir o Banco Central? O Banco
Central, não. No Banco Central nenhum Presidente coloca mulher
para presidir. Colocam-nas nos programas sociais, na saúde. Isso
já caracteriza a decisão política com relação à saúde. Aí, se diz:
“Será que a Vigilância Sanitária presidida pela mulher do
Presidente consegue?”. Não dá. Ou vamos ter uma Vigilância
profissional, do mesmo nível da tecnologia que queremos aprovar
para o País, ou não vamos ter.
“Juliana, quem vai pesquisar isso? Não sei”. A universidade vai
no mesmo caminho da vigilância. Pobrezinha, ganhando muito pouco,
um “lumpemprofessorado”! Não dá para a universidade encarar a
Monsanto.
“Manoel, o que fazer com os rótulos que mostrei? Passei para o
Hoeck”. É a décima vez que vê esses “slides”. Sei que o Hoeck está
com um discurso maravilhoso. Já brigamos várias vezes, agora
estamos chegando a um acordo. Já convencemos o Hoeck. Estou muito
feliz. Hoje ouvi o Hoeck falar, já o convencemos, e tenho pena
dele, porque agora vai ter de convencer o Ministério da Saúde
todo. Desejo-lhe um bom retorno a Brasília, muito sucesso no seu
trabalho. Trabalho não lhe falta. Muito obrigado.
O Sr. Hoeck Miranda - Retomando a questão dos “slides”, em que
foram projetados rótulos duvidosos, não foi a décima, mas a
segunda vez que estou vendo essa apresentação.
Gostaria de dizer que, pela falta da presença da autoridade, há
abuso. Temos, como sociedade, de evoluir nesse aspecto. Não posso
atuar de maneira correta simplesmente se tenho um policial do meu
lado. Vários desses rótulos são de grandes empresas, que possuem
as suas equipes técnicas de engenheiros de alimentos,
nutricionistas, farmacêuticos, bioquímicos, veterinários e
agrônomos e que lançam no mercado esse tipo de informação, como
disse o Luiz Eduardo. Entendo que temos de rever o processo
educativo, rever a postura ética de nossa sociedade. A briga é
muito maior. O transgênico é o norte, mas a briga de nossa
sociedade é muito maior.
Pergunta: “É competência legal da Agência Nacional de Vigilância
Sanitária a autorização para o consumo de alimentos geneticamente
modificados?”. Sim. É competência dela.
“Quantos pedidos de autorização para comercialização e
solicitação de avaliação de riscos transgênicos a Agência já
recebeu, analisou e deferiu?”. Nenhum. Estão proibidos, e nenhum
chegou às nossas mãos.
Pergunta que não é da minha área, portanto não vou poder
responder: “Como é feita a fiscalização de produtos importados?
Temos uma gerência especial, que trabalha com essa questão de
fiscalização em portos, aeroportos e fronteiras.
A Sra. Ednilza Pereira de Farias Dias - Gostaria de esclarecer,
Dr. Hoeck, que, para a importação desses produtos, é preciso dizer
a origem. Há toda aquela questão alfandegária e tudo o mais, e é
preciso dizer de onde vem o produto. Como está proibida a
importação, é preciso dizer que o produto não é decorrente de
plantio transgênico. E temos de acreditar nos outros países.
O Sr. Hoeck Miranda - Não toquei no assunto da rotulagem - que é
obrigada a ser traduzida -, mas tem de ser clara, e a tradução tem
de manter essa clareza. Temos pego na agência muitos casos de
tradução incorreta dos rótulos dos países de origem. Isso está
acontecendo no mercado. Realmente, há necessidade de fiscalização
maior sobre os importadores. É uma área que carece de ação mais
forte.
Pergunta do Luiz Antônio, da Escola Estadual Prof. Caetano de
Azevedo: “Por que não liberar a patente apenas para o processo de
obtenção do produto - e não do produto final -, já que é
equivalente?”. Gostaria que a pessoa que fez essa pergunta a
fizesse novamente, porque não estou conseguindo entender a
primeira parte.
O Sr. Luiz Antônio Pires Fernandes Júnior - Se há o princípio da
bioequivalência para esses produtos, não há necessidade de se
mencionar, no rótulo, o fato de ser um produto transgênico. Então,
por que não se libera a patente somente para o processo de
obtenção desse produto, e não do produto final? O produto final
está sendo comercializado como sendo patenteado por um determinado
grupo, uma empresa. Nos anais, está-se falando a respeito do gene
“terminator”, porque não há possibilidade de essa semente
renascer, então ficaria restrita a essa empresa a comercialização
desse produto. Então, por que, em vez de se patentear o produto
final, o alimento final, não se patenteia somente o processo de
obtenção, deixando o produto - que é bioequivalente - ser
liberado?
O Sr. Hoeck Miranda - Há vários aspectos na sua pergunta. A
questão da patente de produtos geneticamente modificados é
bastante polêmica. Hoje já se pode patentear e cultivar plantas
geneticamente modificadas no Brasil, mas há muita polêmica, porque
está-se patenteando recursos genéticos, vários deles existentes na
natureza, mas que são modificados por algum processo e outros
recursos genéticos novos, “engenheirados” e colocados nos produtos
geneticamente modificados. Não sou especialista em patentes, por
isso não gostaria de me manifestar a esse respeito, porque é uma
questão complicada. A minha área também é complicada, mal dou
conta dela, quanto mais dessa outra. Também não sei se o problema
é patentear o processo de obtenção do alimento final. Vários
desses processos já são altamente conhecidos.
Vários desses processos já são altamente conhecidos. São
processos universalmente aceitos. Imaginem se fôssemos patentear,
por exemplo, a produção de óleo proveniente de soja transgênica. A
obtenção do óleo de soja, sua extração e refino, seu controle de
características físico-químicas finais é um processo altamente
conhecido, de domínio público. Não há como patentear um processo
que é de domínio público.
Gostaria que algum especialista na área respondesse à sua
pergunta quanto à essa questão de patente. Não sou especialista
nem tenho condições de respondê-la.
O Sr. Rodrigo Mata Machado - Gostaria de falar rapidamente sobre
a questão relacionada à qualidade de alimentos. Até agora, temos
falado muito sobre a falta de opções quanto aos alimentos
transgênicos. Ontem, tivemos algumas discussões muito boas, feitas
pelo David e pelo Sérvio, e posições um pouco duvidosas do
representante da EMBRAPA.
Às vezes, o consumidor se esquece de que deve estar consciente do
ciclo de vida do produto. Nesses últimos 30 anos, estivemos
questionando muito a qualidade do alimento, especialmente em
relação a resíduos de agrotóxicos e de nitrato, provenientes de
fertilizantes químicos, mas nunca conseguimos abrir a cabeça do
consumidor para esse problema.
Existem opções, sim. Estamos lidando com níveis diferentes de
riscos. Estamos com os transgênicos chegando a uma situação de
muito mais risco do que os produtos que consumimos hoje, com
resíduos de venenos. Então, acho que deveria ficar claro para o
consumidor que ele tem opção e um poder de decisão muito forte,
para chegar a um sacolão, a um supermercado, a um restaurante e
falar que quer produtos sem agrotóxicos. Temos que amarrar essa
discussão do transgênico e da rotulagem com a da certificação de
produtos sem agrotóxicos ou oriundos de produção orgânica.
Abro essa discussão para os expositores que quiserem colocar sua
opinião a respeito dessa questão da nossa segurança de consumir
produtos sem veneno.
Em 1998, tive a chance de fazer um pós-doutorado na Califórnia e
fiquei impressionado com as opções que existem em consumir
produtos sem veneno, todos com certificados dados pelo Estado.
Como hoje já existe uma portaria do Ministério da Agricultura para
certificar produtos orgânicos, o Estado de Minas também deveria
assumir isso.
Gostaria, ainda, de fazer uma sugestão ao Deputado Edson: talvez
como uma continuação deste ciclo de debates, fosse interessante
fazermos um debate sobre essa questão da real qualidade do
alimento, a disponibilidade de se comercializarem produtos sem
agrotóxicos e não transgênicos e o espaço que existe para produtos
orgânicos. Só como informação, o mercado de produtos orgânicos é o
único que cresce 10% ao ano, no mundo. Há uma quantidade tremenda
de cooperativas de consumidores desses produtos.
Temos discutido também que o Movimento das Donas de Casa deveria
adotar uma posição mais direta quanto à disponibilidade ou não de
produtos sem veneno no mercado.
Então, gostaria de deixar esse debate em aberto para a Mesa se
pronunciar. Muito obrigado.
O Sr. Carlos Eduardo Mazzeto Silva - Queria ir no rumo das
provocações que alguns expositores fizeram. O debate hoje está um
pouco mais explícito.
Ao contrário do que a representante da CTNBio está dizendo, a
questão dos transgênicos é muito séria para ficarmos em cima do
muro. Para nós, profissionais de qualquer área correlata a essa
questão, é obrigatório nos posicionarmos frente a uma questão tão
grave como essa. E acho que os Deputados também vão ter que se
posicionar. É nesse sentido que quero fazer a minha intervenção.
O Prof. Luiz Fernando foi muito feliz ao falar um pouco sobre o
ridículo dessa postura científica que existe nessa discussão de
transgênicos e que evidencia uma faceta perversa da ciência
moderna. Esses cientistas, que, talvez, ainda tenham hegemonia na
ciência moderna, têm uma postura simultaneamente arrogante e
ignorante. Arrogante porque acham que são o centro do universo,
colocam o homem manipulando genes de cavalo para planta, de porco
para bactéria, dando uma de Deus, inventando espécies, atribuição
que não é nossa, acredito eu. E ignorante, porque sobre nada disso
vamos ter controle.
Vamos estar inaugurando com os transgênicos uma nova forma de
contaminação, aliada à contaminação química dos agrotóxicos, das
indústrias, etc., à contaminação nuclear da tecnologia. Já
cometemos vários erros por acharmos que somos o centro do universo
e não seguirmos as leis da natureza. Agora, vamos inaugurar o
tempo da contaminação genética, que é a de seres vivos, que vão se
multiplicar na natureza, e cientista nenhum tem capacidade de
controlar isso.
Então, acho que os Deputados desta Casa devem ter em mente que a
questão colocada é a escolha do modelo de desenvolvimento. Vamos
continuar fortalecendo e deixando que a pesquisa pública seja
pautada por esse tipo de ciência, pelo capital transnacional, ou
vamos exigir outra coisa da política pública, a agricultura
familiar, por exemplo, da qual fazem parte 85% dos nossos
agricultores e é responsável por 76% do emprego no campo? Essa
agricultura, aliás, convive com a natureza sem romper suas leis.
Essa questão está em pauta, e não dá para ficar em cima do muro.
O Sr. Rafael Paiva Izidoro - Gostaria de pegar carona no que o
Rodrigo Mata Machado falou. Um filósofo alemão disse que, quando
alguém compra alguma coisa, não está pagando por aquilo que está
comprando, mas pelo próximo. No dia em que li isso, meu raciocínio
ficou um pouco mais dinâmico sobre a questão econômica.
Falamos sobre rotulagem de produto e vimos as suas dificuldades.
Na agricultura orgânica, já se faz, há muito tempo, a rotulagem de
processo, ou seja, quando uma fazenda é considerada orgânica, tudo
que sai dali é orgânico. Isso alivia o trabalho da fiscalização
sanitária, o do produtor orgânico e o de qualquer outro produtor
de transgênico. E sinaliza para o consumidor o que vai escolher.
Então, acho de fundamental importância dar ao consumidor, neste
momento, informações claras. Hoje estamos reunidos, alguns
representando pessoas físicas, outros representando pessoas
jurídicas. E acho que, apesar de se falar muito em democracia,
existem poucos momentos verdadeiramente abertos e abrangentes em
nossa sociedade para se exercer a democracia.
À medida que informarmos o consumidor - queria saber a opinião da
Mesa a respeito disso -, para que, em vez de ser um comprador de
produtos, seja um comprador de processos; vamos nos aproximar de
uma sociedade um pouco mais justa, ou seja, quando depositar meu
dinheiro num sanduíche do McDonald´s ou numa garrafa de Coca-Cola,
quero fazê-lo sabendo que posso estar errando, mas exercendo meu
livre-arbítrio. Da mesma forma, quando escolher um produto
orgânico, em vez de um transgênico ou de um convencional, quero
fazê-lo não apenas por acreditar que o produto orgânico vai ser
mais saudável para mim, mas também para todo o planeta. Essa é a
minha colocação.
A Sra. Jussara Ribeiro de Oliveira - A sociedade civil organizada
tem participado, denunciado, influenciado várias instâncias em que
se desenham e se planejam as políticas públicas deste País. Esse
controle social é de vital importância para mim, no momento em que
os nossos órgãos, que deveriam nos proteger, têm perdido o
reconhecimento por parte da população.
Ontem, no Plenário, foi dito que as pessoas que tomam assento na
CTNBio têm notório saber. Estaria lá o IDEC, entidade que estaria
nos representando. A informação que temos é que ele hoje já não
faz parte do IDEC, retirou-se em sinal de protesto. Então,
gostaria que a senhora nos dissesse qual é a organização que
assumiu o lugar do IDEC, para que possamos fazer contatos e um
controle social da nossa participação na CTNBio.
A Sra. Edenilza Pereira de Farias Dias - Como falei
anteriormente, há representações sociais na CTNBio. Por exemplo, a
SBPC, que é contra os transgênicos. Há um órgão de defesa do
consumidor na CTNBio. Embora não seja o IDEC, é uma associação de
defesa do consumidor que indicou duas pessoas, um suplente e um
titular. Mas é lamentável que essa pessoa ou associação de defesa
do consumidor não esteja fazendo um trabalho conjunto.
Penso que retirar-se de uma situação em sinal de protesto é um
pouco antidemocrático. Temos que estar lá dentro, sim, para brigar
por nossas posições, pelos interesses da classe, e não,
simplesmente, retirar-nos, porque a omissão é muito mais danosa.
Vou aproveitar para responder a algumas perguntas, porque são
muitas e sobrepostas. Há a do Eduardo Silas; a da Cristiane, da
UFV; a do Marcelo, da Fundação Zoobotânica de Belo Horizonte; a da
Lígia, da Secretaria da Saúde; a do Emílio Alves, da Associação
Mineira de Defesa do Ambiente. Enfim, são tantas perguntas, que
gastaria toda a tarde respondendo-as.
Gostaria, primeiramente, de dizer que a CNTBio não pretende ser
arrogante, nem dona da verdade, nem está em cima do muro, tanto é
que ouve a comunidade em qualquer experimento, em qualquer
proposição que faz sobre os transgênicos. Estamos, por exemplo,
com uma série de questionamentos tanto da comunidade científica
quanto da leiga sobre o milho DT. Os questionamentos voltam não só
ao proponente ou à comunidade científica, para serem respondidos,
como também aos próprios cientistas da CTNBio e dos órgãos que
representa.
Também em momento algum, o alimento não tem que ser engolido de
qualquer jeito.
Selecionei algumas frases muito interessantes do Deputado Federal
Chico Graziano: “Questionáveis podem ser os produtos geneticamente
modificados, as tecnologias colocadas em uso nos processos
produtivos. Cabe discussão não sobre a ciência, mas sobre seus
eventos. Cada organismo geneticamente modificado precisa ser bem
conhecido, analisado e estudado antes de ser oferecido ao mundo da
produção, seja na agricultura, seja em outro setor. Esse cuidado é
inerente ao processo de desenvolvimento tecnológico, e o cientista
tem dele pleno conhecimento. De qualquer forma, o uso da escala
comercial das tecnologias pode trazer impactos, cuja avaliação
exige permanente preocupação da comunidade acadêmica, e nem sempre
as metodologias disponíveis conseguem mensurar os efeitos - às
vezes, complexos - da utilização prática da ciência. Como acredito
em ciência, o risco zero é inaceitável, insuportável e
irresponsável. A única liberação - porque não liberamos nada,
apenas chegamos à conclusão de que aquela situação é segura à luz
dos conhecimentos atuais - é a da soja, que deve, depois, passar
pelo Ministério para ser avaliada como qualquer cultivar”.
A CTNBio determinou que a soja, após a liberação - porque foi a
única liberação -, teria de ser monitorada de perto, por cinco
anos consecutivos. Não perguntei à CTNBio se foi isso. Os
cientistas ficam dentro dos seus laboratórios e, verificando as
questões, acham que aquilo é bom para o resto do mundo, será um
benefício. A percepção pública da biotecnologia começou de forma
errônea, pois considerou-se bom antes mesmo de se fazer a
percepção pública de que era bom. Foi uma conduta de percepção um
pouco equivocada, gerando esse problema. Em primeiro lugar,
deveria ter sido perguntado se era isso mesmo que se queria.
Voltarei a uma questão anterior - se somente a soja pode ser
detectada -, pois acho que não a respondi. Mas os outros não foram
liberados no Brasil. Portanto, ainda estamos em fase de estudos,
as metodologias estão sendo estudadas para detectar esses
transgênicos. O agrotóxico tem um nível de tolerância residual no
alimento. Isso, no entanto, não consta no rótulo. O Código de
Defesa do Consumidor deveria exigir que a porcentagem de
agrotóxico constasse no rótulo do produto. Sabemos que há uma
ingestão diária aceitável de agrotóxicos em alimentos. Podemos
ingerir, diariamente, uma quantidade de agrotóxicos que não foram
degradados no seu processamento. Isso deveria existir. A mesma
coisa se aplica aos transgênicos. Se tivermos condições de
detectar a porcentagem de transgênico daquele produto, deve
constar do rótulo.
A Sra. Jussara Ribeiro de Oliveira - A senhora ainda não
respondeu qual é o nome dessa associação de defesa do consumidor e
a pessoa que está nos representando.
A Sra. Ednilza Pereira de Farias Dias - É uma associação de
defesa do consumidor. O nome fugiu-me da memória.
O Sr. Luiz Eduardo Carvalho - Na “home page” da CTNBio consta o
nome da pessoa.
O Sr. David Hathaway - Como representante do órgão de defesa do
consumidor, nomeada pelo Ministério da Justiça, está uma
funcionária do PROCON estadual de Belém, no Pará. O seu primeiro
nome é Iracema. Não representa a associação de consumidor, mas o
poder público federal, no âmbito de um órgão estadual, que é o
PROCON.
A Sra. Ednilza Pereira de Farias Dias - O Ministério da Justiça
indicou um representante do órgão de defesa do consumidor, e essa
pessoa é do PROCON.
O Sr. Hoeck Miranda - Percebi um ponto comum nas três questões.
Temos de discutir qual é o modelo desejado para a produção de
alimentos. Devemos encarar com muita seriedade se o modelo levar a
uma segregação da cadeia produtiva, isto é, a produção de
orgânicos, de transgênicos ou de alimentos de outras
características que venham a surgir. O Japão já está fazendo isso
com a soja. Os alimentos tradicionais com base de soja são levados
muito a sério. Hoje, esse país é o maior importador de soja dos
Estados Unidos, obrigando a segregação. Se ficarmos na segregação,
possivelmente teremos no mercado todas essas categorias de
produtos. É muito importante obtermos matéria-prima para a
industrialização, a produção e o consumo de alimentos livres de
contaminantes químicos. Esse é o modelo ideal. Se atingirmos esse
processo, por meio da segregação de produção, de um controle mais
rigoroso, como ocorre na área do orgânico - o material orgânico
sem tratamento veterinário, químico, a planta orgânica sem o
tratamento de produtos químicos -, esse modelo deve ser expandido
e levado a outras áreas de produção. É um modelo que já está mais
bem trabalhado e deve ser considerado com bastante atenção. Parece-
me que é um modelo de futuro muito promissor, que pode, com as
devidas proporções, ser transferido para a produção dos
transgênicos.
O Sr. Presidente - Pergunta de Leandro Gustavo, das Faculdades
Metodistas Integradas: “Como a empresa Coca-Cola e as empresas de
produtos transgênicos poderão esconder características dos seus
produtos de patentes ou por questões empresariais? Quais as suas
opiniões em níveis nacional e internacional?”.
O Sr. Hoeck Miranda - No que diz respeito à questão da patente,
que faz parte dos nossos debates, seria importante que tivéssemos
especialistas para discuti-la. A exemplo do que disse o Luiz
Eduardo - observando que os supermercados deveriam estar presentes
-, acho que os especialistas em patentes aqui deveriam estar, a
fim de nos dizer o que poderia ser informado após ser obtida uma
patente.
O Sr. Presidente - O Sr. Sílvio Vale disse que tem condições de
prestar esclarecimentos sobre patentes.
O Sr. Sílvio Vale - Não sou especialista em patentes. O Prof.
Luiz Antônio Barreto de Castro, que chegou agora, entende desse
assunto. O Hoeck referiu-se ao patenteamento da soja, ou seja, a
proteção intelectual da soja é feita por meio de dois mecanismos,
a lei de cultivar e o processo de obtenção do gene no INPI. Houve
uma mistura na pergunta. Portanto, a soja não transgênica é
protegida pela lei de cultivar, que existe no País. Se for
transgênica, é protegida por essa lei, e a empresa deve dar
entrada a esse processo junto ao INPI. Esse é o meu entendimento.
Talvez o Prof. Luiz Antônio queira fazer alguma observação.
O Sr. Luiz Antônio Barreto de Castro - Não sei como as empresas
podem esconder características por uma questão de patente. Quando
uma empresa patenteia um produto ou um processo, o seu objetivo é
ter, por meio desse mecanismo, a possibilidade de desenvolver
investimentos na área industrial, protegida por uma patente, de
tal sorte que esse produto não seja indevidamente utilizado por
outros que não fizeram a invenção. Quando uma patente é
conseguida, imediatamente o documento de sua invenção, isto é, o
relatório descritivo, é tornado público pelo Instituto Nacional de
Propriedade Intelectual. Não sabia que a Coca-Cola era uma empresa
de transgênicos. Nesses quatro anos em que trabalho na Comissão
Técnica Nacional de Biossegurança, várias empresas buscaram obter
o chamado certificado de qualidade de biossegurança, a fim de que
pudessem atuar na área de transgênicos, mas, salvo engano, a Coca
Cola não foi uma dessas empresas, conforme estou sabendo por outro
integrante da CTNBio. Pode ser até que atue nessa área. No
entanto, a empresa deveria ter solicitado o certificado de
qualidade de biossegurança. Como nunca o fez, a minha conclusão é
a de que não atua nessa área. Enfim, após o processo ser
patenteado, aquela invenção deve ser respeitada. Não consigo
atinar com a possibilidade de se esconderem características de
transgênicos por meio de processo de patenteamento.
O Sr. David Hathaway - A Coca-Cola não tem patente sobre sua
fórmula, trabalha com segredo industrial há mais de 100 anos. Se
fosse patente, teria vencido após 10 ou 20 anos e já estaria no
domínio público. Por isso, ninguém consegue copiar a Coca-Cola
propriamente, porque é segredo. As autoridades sanitárias, em cada
país, para darem registro a esse alimento, têm acesso a essa
informação confidencial, sendo obrigadas a manter o segredo
industrial. Nunca tive conhecimento - e estou acompanhando as
notícias sobre transgênicos pela Internet - de que a Coca Cola
esteja trabalhando com bebidas transgênicas.
O Sr. Luiz Eduardo Carvalho - Projetamos na tela o endereço de
uma “home page”, um serviço da universidade, no qual há vários
documentos sobre alimentos organicamente cultivados, sobre
transgênicos, além de uma lista de discussão em que participam o
Silvio, o David, o Sérgio. Todos os dias podemos encontrar várias
notícias muito interessantes. O endereço é:
consumo@alternex.com.br. Se você mandar uma mensagem para lá,
escrevo-lhe automaticamente. A “home page” está no www.urfj.br.
Com relação à patente, gostaria de dizer uma outra coisa; pelo
lado do “advogado do Diabo”, será que temos moral para cobrar da
Coca-Cola que nos informe sua fórmula secreta? Estamos em um país
em que, depois, vendem-se todas as declarações de imposto de renda
das pessoas. Se a Receita Federal tem esse furo de deixar passar
todas as declarações do Presidente da República, vamos realmente
garantir o sigilo da fórmula da Coca-Cola? Eu não acredito.
Com relação ao IDEC, gostaria de esclarecer que ele não tem uma
posição antidemocrática, e não saiu da CTNBio, porque não quer
aborrecer-se com o assunto. O IDEC continua trabalhando ativamente
em transgênicos. Não é que não queira aborrecer-se com o assunto,
sentiu-se usado. As pessoas aprovam essas coisas e dizem que o
IDEC participou da decisão, e não queremos ser co-responsáveis por
isso. Então, saiu por causa disso. Fizeram cobranças injustas ao
IDEC. O IDEC não tem recursos humanos, dinheiro nem pessoal
capacitado em grande quantidade, para participar de todas as
conferências, seminários, comissões, fóruns sobre todos os
assuntos, como planos de saúde, seguro de carro, habitação, gás,
energia, luz. Não podemos querer cobrar do IDEC uma posição
cientificamente sustentada. Quem tem de ter tal posição é o
Ministério da Saúde. O Ministério da Saúde é que tem de defender o
consumidor. O IDEC está lá de observador, o que já é muito.
Por fim, a resposta ao Dr. Walter. Realmente tem razão. Estamos
discutindo aqui questões de rotulagem em um país que tem um
percentual elevado de analfabetismo, ainda mais quando a rotulagem
vem toda em inglês: “energy drink”, “diet”, “light”. Não sei por
que o Ministério da Saúde aceita rotulagem em inglês. Se pudesse
responder em português, seria bom. Muito obrigado.
O Sr. Presidente - Eu gostaria só de informar que os
representantes dos supermercados foram convidados, mas não
compareceram. Agora vamos ouvir as respostas do Dr. Antônio
Joaquim Fernandes Neto, Procurador de Justiça, que também tem
perguntas a que responder e afirmações que fazer.
O Sr. Antônio Joaquim Fernandes - Obrigado. São duas perguntas, e
queria aproveitar para, nesta intervenção final, cumprimentar o
Deputado Hely Tarqüínio pela forma como conduziu os trabalhos.
Estamos chegando ao final com muita tranqüilidade e serenidade,
graças a esse comando, o que faz com que tenhamos o Plenário
cheio, garantindo a palavra a todos os que quiseram usar o
microfone. Parabéns!
Tenho duas perguntas - do Adenor Martins e da Marília Milar Rocha
-, que são mais ou menos no mesmo sentido. Uma, em relação à
rotulagem: “O que fazer com relação ao problema da rotulagem?”. A
outra, questionando também a informação, mas sob outro aspecto, a
da publicidade enganosa, perguntando, se temos o Código de Defesa
do Consumidor, por que ainda existe esse tipo de publicidade.
Volta-se à distinção entre o ser e o dever ser, entre realidade e
correção. Se tivéssemos todos os rótulos perfeitos e a publicidade
fosse verdadeira, não precisaríamos ter a lei do consumidor para
coibir isso. O direito entra exatamente onde existe o abuso, onde
existe o conflito. Da tribuna, pessoalmente, fiz um “mea culpa”.
Tentei diversas vezes intervir em questões de rotulagem e
publicidade, mas isso é um mundo enorme. Agimos em relação a uma
aqui, e já há outra surgindo ali. O fato é que fortes mesmo são os
consumidores. Muitas vezes os meios de comunicação de massa passam
a idéia de que quem tem força são os órgãos de defesa do
consumidor - o PROCON, o BRASILCON, o IDEC. Mas, na verdade, o que
está fazendo crescer e avançar esse movimento no Brasil são os
próprios consumidores. No Estado, depois de quase 20 anos de
PROCON e 10 anos do Código do Consumidor, na maioria dos PROCONs,
quem atende é um estagiário, um acadêmico, um estudante. A
estrutura é precária. O investimento em informação é pequeno. A
maioria dos municípios não têm órgãos de defesa do consumidor.
Além disso, estamos vendo uma tendência de dissolução. Na última
sexta-feira, em um debate no Tribunal de Alçada de Minas Gerais,
um representante da ANATEL defendeu a idéia de que esta teria
exclusividade para tratar de questões ligadas a telecomunicações,
excluindo a atuação dos PROCONs e de outros órgãos. Quero apoiar
também a manifestação do Dr. Luiz Eduardo em defesa do IDEC,
reforçando aquele pensamento. O que vem acontecendo é que o
consumidor tem conseguido representação em diversas instâncias,
mas numa desigualdade muito grande.
Em todas essas agências, se pegarmos a mais recente, a Agência
Nacional de Saúde Suplementar, existem órgãos colegiados que têm a
maioria expressiva de representantes de empresas, de interesses
profissionais, e uma cadeira para o consumidor, que vai ser sempre
voto vencido. O consumidor, que é o rei, é quem consome, está na
ponta, acaba ficando numa situação desfavorável.
Mas é necessário que a publicidade e a rotulagem que não são
verdadeiras sejam combatidas. Se já temos a lei, que é o que deve
ser, e temos esse consumidor forte, que está cada vez mais
consciente dos seus direitos, podemos avançar e conseguir
modificar essa realidade.
Peço licença para comentar que gostei muito da sua manifestação
em relação ao que chamamos de a idéia do poder de compra, ou seja,
esse consumidor é muito poderoso. Nós, consumidores, temos o poder
de dizer “não” a um produto que não tem qualidade. A qualidade não
é só a intrínseca, o produto ser adequado à função a que se
destina, mas também ser produzido por uma empresa que respeita os
direitos dos trabalhadores, paga seus tributos, cumpre sua função
social, respeita o meio ambiente. É também podermos escolher
produtos que tenham um menor passivo ambiental, produtos que, na
sua composição, nos seus ingredientes, no seu processo de
fabricação, agridam o menos possível o meio ambiente. Esse é um
poder que o consumidor tem, e não exerce por falta de informação.
@ medida que for informado, à medida que pudermos saber se a
empresa A ou B usa trabalho de menores, explora os trabalhadores
ou degrada o meio ambiente, poderemos boicotar esse produto.
Quando estou comprando, estou dizendo “sim” a um modelo ou a
outro.
Nesse sentido, quero encerrar, reforçando minha posição de apoio
ao projeto do Deputado Edson Rezende e à moratória, por vários
motivos, entre outros, pela idéia de liberdade e de verdade como
valores que colocamos no princípio, pelo caráter simbólico desse
ato. O mineiro tem como característica o desconfiar, o cismar. As
coisas estão sendo impostas ao mundo de uma maneira muito rápida.
Várias vezes, temos ouvido o discurso do fato consumado: já está
aí, não há nada a fazer, o mundo tem um ou dois donos, e temos de
comer o que eles querem. Será? Com a moratória, acredito que todos
vão, de alguma maneira, saber o que é transgênico. Com certeza,
vai haver resistência, debates, e as pessoas vão se informar
melhor. Vai garantir, de cara, liberdade e verdade? Não, mas esses
valores estão por trás, e temos que continuar lutando por eles.
Parabéns pela organização deste evento. Muito obrigado, em nome do
Ministério Público, pela oportunidade.
O Sr. Presidente - Queríamos fazer uma consideração final,
dizendo que esses problemas de alimentos transgênicos foram
abordados aqui. Pois não.
A Sra. Josely Durães - Neste momento, gostaria de estar
representando um sentimento de indignidade por muitas coisas que
foram colocadas aqui, indignidade pelo desrespeito aos seres
humanos. Gostaria de perguntar ao Sr. Hoeck: o governo que o
senhor está representando reprime os movimentos sociais que
defendem um modelo de desenvolvimento sustentado com truculência.
Como discutir o modelo, se a sociedade civil não tem assento com
paridade - em números nem em poder econômico - nessas comissões,
apesar de nós, contribuintes, bancarmos a CTNBio e os funcionários
da Agência Nacional da Vigilância Sanitária? Eles não nos
defendem. Como exercer o controle social neste País, se, muitas
vezes, não temos respaldo para estar participando dessas
comissões?
Há dois anos, estive com o Prof. Luiz Eduardo na formulação da
política nacional de alimentação e nutrição, que, até hoje, não
saiu do papel, a população não a conhece, e é política, embora
fale que é baseada na segurança alimentar e nutricional. Tive que
ir lá com dinheiro do meu próprio bolso, pois a minha entidade não
tinha condições de bancar a viagem. O Ministério da Saúde disse:
“não podemos”, embora lá estivessem representantes PhD de diversas
entidades, e, da sociedade civil, poucos representantes. Quem
estava lá estava com seus próprios recursos.
Então, parece-me hipócrita essa colocação segundo a qual podemos
decidir sem condições nem recursos, e com essa disparidade, que
são essas comissões.
É óbvio, Sr. Hoeck, que nós, seres humanos, queremos ser felizes
e livres de doenças. Respomder essa pergunta, portanto, não cabe a
nós. Gostaria de saber por que o senhor não está nos defendendo na
agência. É o mínimo que esperávamos do senhor.
À representante da CTNBio: Gostaria que a senhora me explicasse,
em termos éticos - porque, em termos técnicos e científicos, já
entendi -, o fato de a Instrução Normativa nº 3, da CTNBio,
contemplar somente 32 perguntas das 319, ou seja, apenas 10% estão
relacionadas com o impacto sobre a saúde dos seres humanos. Isso é
o óbvio que temos visto acontecer e que foi falado aqui, ontem,
sobre quanto a população está doente, alimentando-se mal,
independentemente de ter ou não acesso aos alimentos, que são de
péssima qualidade. E uma comissão que acha que vai poder ter algum
controle sobre o impacto desses alimentos no futuro, se até hoje
temos estudos sobre as interações que ocorrem no nosso organismo,
relacionadas aos aditivos químicos que são colocados nos produtos
industrializados... Quero saber como operacionalizar essas
pesquisas.
O Sr. Hoeck Miranda - Bem, por uma questão de lógica, a
generalização é problemática.
Um princípio básico da lógica, da generalização, é que quando
você consegue, numa afirmação generalista, apresentar um fato que
não a comprove, ela perde o valor.
Algumas referências que, na minha avaliação pessoal, não são
adequadas ao Ministério da Saúde foram feitas em vários momentos.
O Ministério da Saúde é uma instituição que tem mais de 2 mil
funcionários e uma quantidade enorme de órgãos. A saúde - como
todos sabemos - acaba sendo a UTI de uma sociedade. E o
fundamental para se ajudar o indivíduo a preservar a saúde é a
informação; para ter informação, ele precisa de instrução e
educação. E, se a educação não vai para frente, começa-se a ter
uma série de pressões sobre sistema de saúde. Se você pega um
sistema altamente discriminador - temos a pior distribuição de
riqueza do País -, isso também provoca uma pressão muito grande
sobre o sistema de saúde, e ele acaba não funcionando. Não adianta
querer defender-me da posição que a senhora tentou colocar-me. Não
adianta, porque é uma colocação feita de tal maneira que não
consigo fazer uma defesa da posição do Ministério da Saúde.
Primeiro, gostaria de dizer que não estou aqui representando o
Governo X, Y ou Z. Estou representanto uma instituição de governo.
Uma instituição que, na nossa área, possui três engenheiros, oito
nutricionistas, agrônomos, quatro veterinários, químicos,
biólogos, várias especialidades que, juntas, tentam abordar essa
questão de regulação de alimentos no País. E tem falhas? Com
certeza. Diria o seguinte: um dos maiores problemas que
enfrentamos na questão dos alimentos produzidos por biotecnologia
é uma questão extremamente importante. A maioria dos dados que
temos dentro da agência ou vem das empresas produtoras de
biotecnologia que defendem o modelo nº 1, que abordei aqui, da
equivalência substancial, ou são dados provenientes de
instituições de pesquisas financiadas por essas empresas.
Faltam no País pesquisas independentes sobre a questão, por
exemplo, de segurança alimentar de produtos transgênicos. Quem
está numa situação de regular ou de analisar um documento de
caráter regulatório, que, aprovado, vai se tornar obrigatório, tem
que tomar muito cuidado. E a posição do Ministério da Saúde, com
relação aos alimentos de origem transgênica, não transgênica ou
contendo material, será a de que deve ser registrado no
Ministério, se os dados não forem avaliados como sendo de
segurança para o consumo do cidadão.
Como faltam estudos clínicos, tanto no Brasil como fora dele, tão
cedo essa informação não vai aparecer. A Sra. Maria, que está aqui
ao meu lado, levantou uma questão interessante - e aí é uma falha
de governo como um todo, que talvez desde o Império privilegia
pesquisas reais. Estamos com as universidades sucateadas. Estamos
com os institutos de pesquisas sucateados quem faz pesquisa no
Brasil, com toda essa limitação de interesse público, são as
universidades dos institutos de pesquisa do Governo - e estão
todos sucateados. Quando digo que temos que discutir esse modelo,
temos que discutir o modelo de sociedade que queremos.
Concordo com a senhora que temos de acabar com a hipocrisia e com
a falácia, como foi dito aqui. Concordo em gênero, número e grau.
Se nós, como representantes de um órgão de governo, não estamos
cumprindo esse papel, temos que ser muito bem cobrados. Falhas no
sistema existem. O sistema de saúde é único. Voltando à questão da
fiscalização, não temos fiscais para serem colocados em todos os
portos, aeroportos, cantinas, supermercados, restaurantes do País.
É um processo delegado pelo Governo Federal aos Governos Estaduais
e Municipais.
A estrutura de fiscalização de saúde da maioria dos municípios do
País é altamente precária ou inexistente. Isso vem de toda a
história de nossa república. Então, como vamos inverter isso? É
uma pergunta que também me faço e que me preocupa. Como invertemos
isso? Foi colocado aqui neste seminário, mas, numa estrutura
precária que temos de produção agrícola, estamos discutindo os
transgênicos, que são uma tecnologia altamente sofisticada e que
está sendo empurrada goela abaixo, dentro do modelo da sociedade
que domina a tecnologia e que quer que esse modelo seja engolido
por todo o resto da humanidade. Temos que discutir, mas temos que
ter personalidade suficiente, dabate suficiente dentro da
sociedade, para não engolirmos coisas para as quais não estamos
preparados. Sou bastante sincero: se pegarmos a questão analítica,
nenhum alimento transgênico deveria ser colocado no mercado,
porque não temos o preparo suficiente para fiscalizar alimentos em
todo o País. E, se alguém afirmar que temos, gostaria que me
apresentassem dados, comprovando que temos competência, capacidade
e estrutura laboratorial para fazer a distinção entre alimentos
transgênicos e não transgênicos em toda a cadeia produtiva.
Essa é a nossa realidade. Não gostaria de ser culpado por tudo
isso que acabei de colocar, como a senhora o fez na sua fala. Sou
um cidadão como a senhora, consumidor. Trabalho oito horas na
agência; no resto do dia, sou consumidor, mas, dentro da agência,
sou também um consumidor de uma série de produtos. Então, sou,
primeiramente, um consumidor. E diria o seguinte: acho que a maior
celebração que deveríamos ter feito pelos 500 anos do
Descobrimento do Brasil seria celebrarmos a edição e aprovação do
Código de Defesa do Consumidor. Acho que essa é a maior celebração
que deveríamos ter feito. Isso disciplina o mercado e defende o
mais fraco. Precisamos de defesa do consumidor, e outros setores
da sociedade, sobretudo no setor político, também.
A Sra. Ednilza Pereira de Farias Dias - Quanto à colocação sobre
o número de perguntas feitas à comunidade, gostaria de solicitar
ao Dr. Luiz Antônio, ex-Presidente da CTNBio, que desse essa
explicação, por favor. Gostaria que fosse repetida a pergunta,
porque ele está ao telefone.
A Sra. Josely Durães - Gostaria de saber qual é a sua posição
ética, e não, técnica e científica, em relação aos critérios de só
se levarem em consideração 10% das perguntas relacionadas à
Instrução Normativa nº 03, da CTNBio, que diz respeito ao impacto
sobre a saúde”.
O Sr. Presidente - Solicitaria ao Dr. Luiz: Como o senhor é
expositor à tarde, quem sabe isso poderia ser mais detalhado na
sua fala nesse horário? Se o senhor me permite.
O Sr. Luiz Antônio Barreto de Castro - O senhor está sugerindo
que eu discuta esse assunto à tarde?
O Sr. Presidente - Sim, se for possível e se a Josely não se
importar, porque temos o almoço e, às 14 horas, estaremos
iniciando novamente a reunião.
O Sr. Luiz Antônio Barreto de Castro - A Josely não se importa?
O Sr. Presidente - Ficamos felizes por estar continuando este
seminário sobre os transgênicos, que são abordados até de forma,
diríamos, dialética. O que percebemos na exposição de hoje é que
até a parte conceitual dos transgênicos ainda precisa ser
esclarecida ao povo brasileiro. É lógico que isso depende dos
pesquisadores e das pessoas que conhecem o assunto. Temos que ter
os atores das pesquisas, os cientistas, os políticos, o Ministério
Público, o povo, sobretudo. Por isso, a Assembléia Legislativa
quer fazer uma lei com responsabilidade e liberdade, como foi
colocado pelo representante do Ministério Público. Essa é a nossa
visão.