Pronunciamentos

DEPUTADA ANDRÉIA DE JESUS (PT)

Discurso

Manifesta pesar pelo falecimento da sambista belorizontina Adriana Araújo e destaca sua trajetória artística e contribuição para o samba mineiro. Afirma que uma das heranças da escravidão no País é a ocorrência de doenças na população negra que já poderiam ter sido erradicadas. Denuncia desigualdades sociais e raciais e questiona a insuficiência de políticas públicas de moradia e de planejamento urbano, que, segundo avalia, contribuem para a vulnerabilidade de populações em períodos de chuva, sobretudo da população negra. Critica a insuficiência de investimentos públicos no samba e nas escolas de samba de Belo Horizonte.

5ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 20ª LEGISLATURA, EM 3/3/2026

Palavras da deputada Andréia de Jesus

A deputada Andréia de Jesus – Boa tarde, presidenta; boa tarde, colegas deputadas e deputados presentes; boa tarde ao público que nos acompanha, aos trabalhadores e às trabalhadoras desta Casa.

Eu subo ao púlpito para trazer dois assuntos. Quero começar falando a partir de 1 minuto de silêncio que pedi em homenagem à Adriana Araújo, moradora da Pedreira Prado Lopes, cria da Pedreira Prado Lopes e uma aglomerada em Belo Horizonte. A Pedreira é onde os trabalhadores negros retiravam pedra para construírem Belo Horizonte. Infelizmente, a cidade cresce. O que sobrou para esses trabalhadores foi viver no morro e se organizar nas favelas. É desse lugar que nasce a maior sambista de Minas Gerais, um nome contemporâneo de Leci Brandão, de Alcione e de vozes potentes que abrem espaço para as mulheres em um campo que ainda é muito machista. Nós estamos falando do desafio das mulheres de ganharem visibilidade pelo seu talento e pelas suas atribuições. E essa voz potente ontem se calou! Quero chamar atenção para isso, porque a gente não substitui um nome da noite para o dia, não se trata de pensar em substituição. Perder um talento como o de Adriana… A imprensa tem coberto de forma muito respeitosa e valorativa o trabalho da Adriana Araújo. Mas quero dizer que ela morreu cedo e ouso dizer que foi uma morte que poderia ter sido evitada.

A família de negros e negras ainda sofre, no Brasil, das consequências do racismo e da escravidão, de ter doenças que a gente carrega que já poderiam ter sido erradicadas. Hipertensão, diabetes são doenças que acometem o nosso corpo e que só desenvolvemos a partir do navio negreiro. Foram, sim, as mudanças nutricionais, a imposição de uma alimentação totalmente diferente do continente africano que fizeram com que desenvolvêssemos doenças que até hoje estão presentes na periferia, onde a maioria são negros e negras. Então não é natural perdermos Nêgo Bispo, filósofo quilombola do Norte do País, perdermos agora Adriana Araújo, que tem uma família que tem um traço de acometimento das veias, entupimento. Isso tudo são doenças que podem ser prevenidas. O racismo, a escravidão empurram a gente para viver essas consequências e ter talentos, como a Adriana, interrompidos.

Então estou aqui, não só para fazer uma homenagem. Estivemos hoje no velório, vendo um espaço onde negros retintos choram a morte de um talento, uma morte precoce. É isso que a gente está vivendo, até hoje, que precisa de reparação. Quando a gente fala em Sistema Único de Saúde, quando a gente fala de um Estado forte… Aqui fico observando deputados que vêm e demonstram preocupação com as mortes pela chuva. Não é pela chuva, não é? É o crescimento desordenado das cidades, inclusive por pessoas negras que foram viver nos morros, como na Pedreira Prado Lopes, porque não há política de moradia para aqueles que não têm condições de construir suas casas em lugares seguros. A maioria das cidades do Estado de Minas Gerais está vivendo isso.

Leleco, quero apresentar, na Comissão de Assuntos Municipais, para discutirmos o direito à cidade… Não dá mais para ficar chorando, depois das mortes, a falta de planejamento das cidades, principalmente para as pessoas negras. Essa história se repete ano após ano. Pôr culpa na chuva ou lamentar? Se não fosse o Estado, não tinham sequer encontrado um corpo. Então esses deputados que vendem a Copasa, que querem vender o Estado, que defendem a diminuição do Estado têm que refletir sobre os seus votos e os seus comportamentos aqui, na Assembleia, porque, se não fosse o Estado – é o bombeiro, é a Defesa Civil –, neste momento, nós poderíamos ter mais mortes e pessoas que não teriam condições de enterrar seus entes.

Mas tudo isso ainda é consequência do governador. Essa base aqui, que apoia o Zema, que tirou 90% do orçamento que poderia prevenir situações climáticas, tragédias, é responsável pelas mortes. Defender um Estado forte, com recurso, com orçamento, que não tem nenhum problema em enfrentar a cobrança de impostos, desde que não sirva para perdoar a dívida de alguns ou alimentar as campanhas eleitorais que a gente tem visto aí também. Criam bancos de fachada, empurram emenda parlamentar, empurram recursos. Temos que enfrentar isso para ter um estado forte e não ter que lamentar a morte de pessoas em períodos chuvosos, que estão previstos desde que eu nasci. A chuva não surpreende. O que surpreende é o governador, que retira recursos da Defesa Civil; é o Corpo de Bombeiros só ter equipamento agora com emenda parlamentar. Isso não é política de prevenção. Emenda parlamentar não é política de prevenção. Isso é para cobrir buracos que o Estado, não a chuva, está deixando, o governador se negando a construir, negando inclusive Reurb, a reorganização das cidades a partir de uma intervenção.

Voltando à Adriana Araújo e também finalizando a minha fala, nós nos debruçamos sobre isso e entendemos que é importante deixar registradas a trajetória e a história dessa mulher, que abriu portas e caminhos para que outras mulheres cresçam e tenham seu trabalho reconhecido no campo artístico, cultural, do samba, que já foi muito perseguido. Nós protocolamos hoje, presidenta, um projeto de lei para criar o Dia da Mulher Sambista Mineira no Estado de Minas Gerais. Essa iniciativa, o Dia da Mulher Sambista, já existe em âmbito nacional, reconhecendo a nossa diva Dona Ivone Lara, e agora tramita aqui, na Casa – protocolamos hoje –, a criação do Dia da Mulher Sambista Mineira no dia 18 de outubro, dia de aniversário da Adriana Araújo, uma forma de manter a memória, a história, a luta e o legado dessa mulher. Então esperamos que, em breve, aprovemos este projeto na Casa, e, com isso, que o nome dela fique eternizado no Estado de Minas Gerais, no dia do seu aniversário, dia 18 de outubro.

Muito investimento ainda precisa ser feito em relação ao samba. Quando falamos em desafio das mulheres neste espaço, nós não ignoramos que o samba já foi perseguido no Brasil, que os sambistas já foram tratados como criminosos. A “vadiagem”, que estava prevista no Código Penal, servia justamente para perseguir esses que mantinham a cultura negra de produzir festas, rodas de samba na rua. O que os negros produzem é na rua, serve a todo mundo. Infelizmente, embora o samba já seja reconhecido como patrimônio em Belo Horizonte, até hoje o investimento nele em Minas Gerais é muito baixo.

Pior do que isso, as escolas de samba, depois que passa o Carnaval… Nós temos três categorias de festa carnavalesca: blocos de rua; blocos caricatos, que vão para a avenida do samba; e escolas de samba, que têm 60, 50, 70 anos de existência e que recebem o mínimo. Desses bilhões que a Prefeitura de Belo Horizonte arrecadou com o Carnaval, não chega a 1% o investimento no Carnaval de passarela. E nós temos denúncias de que não há lugar para guardar carro alegórico, aquela coisa linda, bonita, que agrada, que enche os olhos das pessoas, correndo o risco de os carros da Escola de Samba Triunfo Barroco, que ficou em terceiro lugar no desfile especial, serem incendiados, porque eles estão no espaço público, nas ruas, porque não há lugar para guardar.

Essa é uma demanda que as ligas de escolas de samba vêm denunciando há anos. Eles demandam investimento no Carnaval e durante o ano inteiro, porque eles trabalham, fazem trabalho social o ano inteiro, com crianças, com jovens, com costureiras, com artesãos. Só que o resultado desse Carnaval é isto: há uma exploração da cultura negra, mas pouco investimento. E aí eu quero fechar, em memória de Adriana Araújo, em memória da produção artística do povo negro, em memória da história do nosso povo. Nós exigimos que o poder público cuide, mas, para cuidar, precisa de orçamento, e nós estamos atentos a isso. Obrigada, presidenta.