Pronunciamentos

DEPUTADO CÉLIO MOREIRA (PSDB)

Discurso

Transcurso do 193º aniversário de nascimento de Frederico Ozanam, fundador da Sociedade São Vicente de Paulo - SSVP, instituição de caridade ligada à Igreja Católica Apostólica Romana.
Reunião 26ª reunião ORDINÁRIA
Legislatura 15ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 03/05/2006
Página 54, Coluna 1
Assunto CALENDÁRIO. RELIGIÃO.

26ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 15ª LEGISLATURA, EM 25/4/2006 Palavras do Deputado Célio Moreira O Deputado Célio Moreira - Sr. Presidente, Sras. Deputadas e Srs. Deputados, pessoas que nos acompanham nas galerias e pela TV Assembléia, como vicentino, não poderia deixar de falar um pouco de um homem que doou a sua vida para os pobres e que deixou a marca que, até a data de hoje, muitos seguem como exemplo de, dedicação e amor ao próximo. Refiro-me a Frederico Ozanan. Farei um relato da vida desse homem, pois não poderia deixar passar despercebida esta data. A grande família vicentina em todo o mundo, instituição de que me orgulho como um de seus membros, e a comunidade católica reverenciam, neste mês de abril, seu grande patrono, o francês Frederico Ozanam, celebrando o seu nascimento. São 193 anos. Nossas homenagens ao grande paradigma da bondade, da caridade e da fraternidade, a um francês de nascimento, cuja obra grandiosa o tornou cidadão do mundo e cujas marcas permanecem, por séculos inconfundíveis, na Igreja e no mundo. Entre elas, a Sociedade São Vicente de Paulo. Estamos falando de um homem de fé fervorosa, um intelectual, um grande humanista e político, que, com coragem, discernimento e, sobretudo, um grande compromisso com o Evangelho, se pôs contra a burguesia poderosa e uma política liberal que, por volta de 1840, dominava a França e explorava os trabalhadores. E que, num período conturbado, lutava por fazer valer os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade nesse país. Ozanam conseguiu conciliar, de modo admirável, sua vida de homem de fé sensível e misericordioso com a atividade intelectual e política, engajado nos acontecimentos de sua época, partindo da firme convicção da fé e de um apaixonado amor à verdade. Confrontou-se com a realidade e com as ideologias e, aí, elaborou uma reflexão teórica e uma prática concreta de grande alcance profético, social e político. No conjunto de segmentos e forças sociais que compunham a sociedade francesa, num tempo em que a Igreja Católica se encontrava ainda sob o impacto da Reforma Luterana, Ozanam se definiu corajosamente como católico, membro atuante da Igreja, e dizia encontrar o repouso de seu coração e de seu espírito somente na fé da Igreja em sua autoridade. Leigo, casado, fez-se presença da Igreja viva no interior do mundo universitário, nos meios intelectuais e na política, defendendo e divulgando a verdade evangélica, exercendo a caridade para os mais necessitados e lutando pelas reformas sociais e políticas exigidas pela justiça social. Sem ódio aos adversários, mas sempre fiel à fé e à Igreja, em comunhão e colaboração com a hierarquia católica, apontou para o clero o caminho da justiça social e do serviço aos pobres como verdadeiro caminho de fidelidade ao Evangelho de Jesus Cristo. Homem de profunda fé e marcado pelos valores cristãos, fez uma coerente e decidida opção pelos valores pregados por Cristo, a exemplo de São Vicente de Paulo. Na teoria e na vida prática, articulou a virtude cristã da caridade com as exigências social e política da justiça. O nosso saudoso Papa João Paulo II assim o definiu: “Frederico Ozanam observa a situação real dos pobres e busca um engajamento cada vez mais eficaz para ajudá-los a crescer em humanidade”. Ele compreendeu que a caridade deve levar a trabalhar para fazer desaparecer as injustiças. Com o seu abnegado trabalho pela transformação dos ideais da Igreja, fez surgir lentamente em seu seio uma reflexão mais voltada para a justiça social e a defesa dos direitos dos trabalhadores, que culminou no surgimento da doutrina social da igreja. Nas suas aulas de Direito e em seu programa eleitoral de candidato à Assembléia Constituinte, colocou-se a favor da real soberania do povo. Batia-se na defesa da organização de um Estado que não se arrogue o direito de suspender caprichosamente a liberdade individual ou interferir nas questões de consciência. Defendia ainda a liberdade de imprensa. Na prática e na teoria, opunha-se à centralização excessiva do poder que prejudica os pobres e estabelece privilégios, defendendo a necessidade das obras de utilidade pública mantidas pelo Estado em favor dos necessitados e desempregados. Sem conservadorismo ou radicalismo e sem cair nos desvios do socialismo de sua época, com lucidez defendia também a necessidade de acelerar as medidas de justiça social e previdência e denunciava as condições opressivas em que viviam os operários. Defendia o valor do trabalho, o salário justo, o descanso necessário. Coerente com este ideal, foi um grande abnegado que sonhou ver o mundo inteiro envolvido numa grande rede de caridade. E, na concretização deste sonho, despertou colaboradores, trabalhou sempre em equipe e soube contar com a ajuda das pessoas, das idéias e propostas dos outros, sempre em sintonia com a verdade do Evangelho e com os apelos da justiça e da caridade. A grande aliança política de Ozanam foi com os pobres. Sua prática política canalizava-se em um sério esforço de viver autenticamente a fé, em um criterioso estudo sobre a realidade, sempre com um objetivo social de serviço aos pobre. Com lucidez, defendeu e propôs ações transformadoras que favoreciam a promoção da justiça social, o efetivo amor aos pobres excluídos, afirmando-se como precursor do catolicismo social. Franzino, modesto, sábio, sincero e desinteressado, Ozanam era capaz de se inflamar perante um auditório, mas, igualmente bondoso, sabia desculpar o erro. Com razão, o seu exemplo de vida é apontado ainda hoje aos jovens intelectuais cristãos como forte interpelação à coragem para testemunhar a fé pela palavra e pelo compromisso efetivo com os mais carentes de nossa sociedade. Como São Vicente de Paulo, teve uma influência marcante na França. Aos 20 anos, fundou a Sociedade São Vicente de Paulo, que animada por leigos, expandiu-se rapidamente na França e em outros países, tornando-se uma multinacional da caridade, chegando ao Brasil com a fundação da Conferência São José, no Rio de Janeiro, no ano de 1872. A célula dessa intituição multiplicou-se e hoje está presente em 134 países, contando 500 mil membros no mundo. No Brasil, são 300 mil vicentinos, 20 mil conferências, 3 mil obras de caridade e 200 mil famílias beneficiadas. Professor de literatura, escreveu várias obras, nas quais deu mostras da influência do cristianismo no decorrer da história. Foi Ozanam um precursor do trabalho social, incentivando as reformas sociais que a Igreja pediria 50 anos mais tarde, com o Papa Leão XIII. Foi ele um leigo engajado na sociedade de seu tempo, convicto de que só o cristianismo bem entendido pode curar a sociedade de seus males. Seu lema era a busca da justiça e a caridade para com os empobrecidos. Pregava que a ordem da sociedade depende de duas atividades básicas: a justiça e a caridade, e que toda reforma da sociedade deve acompanhar-se da conversão dos corações. Para ele, a amizade verdadeira é um valor essencial à vida das pessoas, da sociedade. Suas idéias andavam em sintonia com a instrução de São Vicente de Paulo, e mantinha-se fiel ao pensamento-síntese do grande afeto, do amor e da responsabilidade social que São Vicente nutria pelos mais necessitados, pelos abandonados e pelos desvalidos. Sentimento que ele sintetiza neste ensinamento: `Amemos a Deus, meus irmãos, amemos a Deus, mas que isto aconteça com nossos braços e com o suor do nosso rosto´. (São Vicente de Paulo, 11; 40). Esse homem maiúsculo que dá brilho à história da humanidade viveu fiel à sua responsabilidade política e ao sucessor de Pedro, com uma dedicação sem tréguas, na sua curta vida - morreu aos 40 anos -, tratando de aproximar-se o mais possível de Deus. E seu apostolado dá hoje seus frutos nas conferências de São Vicente de Paulo. Vale a pena, senhoras e senhores, uma reflexão profunda sobre os exemplos deixados por esse grande cristão, esse soberbo homem público; vale a pena questionarmos internamente o que nós, representantes do povo, estamos fazendo pelo seu crescimento pessoal, pelo exercício de sua cidadania. É importante também que nos perguntemos: nós, católicos, o quanto estamos, de fato, trabalhando com fidelidade aos princípios cristãos, promovendo condições essenciais ao atendimento da Campanha da Fraternidade deste ano? Peço a Deus que nos inspire a continuar a obra deste grande homem, com igual abnegação, coragem e espírito público. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.