DEPUTADA MARIA TEREZA LARA (PT)
Discurso
Coordena os debates do Fórum Técnico: "Educação de Jovens e Adultos", com
o tema: "Formação do Docente para a Educação de Jovens e Adultos".
Reunião
84ª reunião ESPECIAL
Legislatura 14ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 12/07/2000
Página 17, Coluna 4
Evento Fórum Técnico: "Educação de Jovens e Adultos".
Assunto EDUCAÇÃO.
Observação Participantes dos debates: Maria do Carmo Frias, Maria da Glória de Oliveira, Frederico Pecorelli, Edson Rezende, Liana Borges, Leôncio José Gomes Soares.
Legislatura 14ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 12/07/2000
Página 17, Coluna 4
Evento Fórum Técnico: "Educação de Jovens e Adultos".
Assunto EDUCAÇÃO.
Observação Participantes dos debates: Maria do Carmo Frias, Maria da Glória de Oliveira, Frederico Pecorelli, Edson Rezende, Liana Borges, Leôncio José Gomes Soares.
84ª REUNIÃO ESPECIAL DA 2ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 14ª
LEGISLATURA, EM 8/6/2000
Palavras da Deputada Maria Tereza Lara
A Sra. Presidente - A Presidência informa ao Plenário que os
participantes poderão formular perguntas aos expositores. As
questões poderão ser encaminhadas por escrito ou oralmente. Para
agilizarmos o debate, os participantes que desejarem fazer uso do
microfone devem inscrever-se previamente. Cada participante
disporá de 2 minutos para a sua intervenção. Solicitamos àqueles
que desejarem fazer uso da palavra que sejam objetivos,
dispensando as formalidades das saudações pessoais.
Debates
A Sra. Maria do Carmo Frias - Sou da Secretaria de Estado da
Educação. Profa. Liana, traz-nos um certo cansaço e desânimo, para
não me aprofundar em reflexões filosóficas, a citação dos números:
são tantos os analfabetos, alijados e sem escola. Dessa exposição,
gostaria que aprofundasse mais no que, creio, ficamos mais atentos
e desejamos saber: como é realizado o primeiro eixo dos cinco
compromissos do Estado do Rio Grande do Sul, exatamente a prática
do acesso. Como é considerada essa situação de excluídos do
processo?
A Sra. Presidente - Proponho que façamos em bloco. Há uma segunda
pergunta para a Profa. Liana, do Sr. Paulo Bréscia, do
Departamento de Educação, Regional Nordeste, Prefeitura de Belo
Horizonte: “A formação continuada em serviço é dada apenas por
cursos e seminários ou a forma de organização do trabalho no
interior das escolas proporciona momentos e oportunidades de
formação continuada?”.
Outra, também de Paulo Bréscia, para o Prof. Leôncio: “A
concepção da EJA enquanto reparação de uma dívida social pode ser
compreendida como restruturação educacional ou se inscreve no bojo
de um projeto de nova sociedade?”.
A Sra. Maria da Glória de Oliveira - Para a Liana: como se dá a
formação dos profissionais do morro?
O Sr. Frederico Pecorelli - A nossa pergunta leva em consideração
o relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação
Para o Século XXI, conhecido como Relatório Jacques Dolores, em
que na formação do professor devem se considerar as competências e
habilidades compreendidas em aprendizagem, os quatro pilares da
educação da aprendizagem ou do conhecimento: aprender a conhecer,
aprender a fazer, aprender a viver junto, aprender a ser. Isso
está também no Capítulo VI, “Um Passaporte para a Vida, Educação
Básica, Alfabetização de Adultos”, do Relatório de (...), na
Tailândia. O que gostaria de colocar para a Mesa, em especial para
o Prof. Leôncio e a Profa. Liana, é a importância de não se
excluir da formação do educador de jovens e adultos aqueles em
situação de risco. Muito bem está relatado aqui, na Agenda Social
2000 do Estado de Minas Gerais e em outras pesquisas, que os
grupos de pesquisa precisam participar ativamente para aliar a
prática à teoria, dentro do cotidiano da formação da EJA.
O Deputado Edson Rezende - Não podemos perder a oportunidade da
presença da Liana entre nós e da experiência do Rio Grande do Sul.
Com relação ao financiamento, Liana, gostaria de saber, dentro da
reflexão de vocês, que está à frente da nossa, como se colocam o
financiamento e a responsabilidade com relação aos três níveis de
poder: União, Estado e municípios. Segundo, está garantido no
orçamento do Rio Grande do Sul parcela de recursos para a EJA?
A Sra. Liana Borges - Darei respostas especificamente sobre a
EJA, não entrarei na questão do acesso ao ensino médio, da
educação infantil, do financiamento do ensino médio, da educação
infantil e especial.
Em relação ao acesso à EJA, dados o tamanho do problema e a
realidade no Rio Grande do Sul, há, hoje, na maioria dos casos, a
mesma oferta que havia há 20 ou 30 anos. Isso significa que não
existia política pública para a EJA e ampliação alguma do
atendimento, para que mais pessoas tivessem acesso a ela. Dada
essa realidade, o que definimos na época do programa de Governo?
Que essa primeira gestão priorizará o acesso dos jovens e adultos
que não estão alfabetizados dentro do conceito de alfabetização
apontado pela UNESCO: aquilo que representa, no mínimo, o primeiro
segmento do ensino fundamental. Então, a nossa prioridade sobre o
acesso está dirigida à alfabetização de jovens e adultos.
O que temos feito concretamente em relação a isso? O Projeto Ler,
sobre o qual já comentei, está presente em 130 municípios dos 457
que o Rio Grande do Sul possui. Vejam que está muito longe do
total do Estado. Então, estamos, até o mês de setembro,
implantando, na rede estadual, turmas de alfabetização de jovens e
adultos, para garantir pelo menos uma turma em cada município do
Estado. E temos um plano de trabalho para que, até o final do
nosso Governo, possamos triplicar o número de turmas de
alfabetização de adultos na rede estadual. Isso em relação ao
acesso na rede.
Sobre o MOVA, que é a articulação do Governo com a sociedade
civil, temos uma meta bastante ousada. O Rio Grande do Sul possui
9% de analfabetos, ou seja, 650 mil pessoas que não sabem ler e
escrever. A nossa meta, até 2002, é organizar 25.000 grupos de
alfabetização. Se cumprirmos essa meta, teremos a possibilidade de
iniciar a alfabetização de mais ou menos 400 mil pessoas daquele
universo de 650 mil. Hoje, o MOVA mantém funcionando 4 mil grupos
de alfabetização, ou seja, são mais ou menos 45.000 pessoas tendo
acesso a esse conhecimento elementar.
Com relação ao processo de formação dos educadores voltados para
a EJA, se acontece somente em cursos e seminários ou também nas
escolas, outra iniciativa original do Governo foi dividir o Estado
em 30 regiões educacionais. Cada região tem uma delegacia de
educação, cuja equipe é composta por três ou quatro pessoas que
coordenam pedagógica e politicamente a EJA. Isso nunca aconteceu
antes. As DEs possuíam gerentes dos ensinos supletivos. Hoje, há
equipes com perfil político e pedagógico para coordenar a EJA.
Portanto, todos esses cursos e seminários são desdobrados em cada
região, por meio dessas coordenações, envolvendo as escolas, a
comunidade escolar e a sociedade. O desdobramento desse trabalho
se dá de acordo com a realidade da região. Em algumas, onde os
municípios são distantes 300 ou 400km, as escolas são sediadas no
campo, e o acesso não é facilitado. A realidade do desdobramento
se dá em função das experiências e das possibilidades de cada
região.
O processo de formação pedagógica do MOVA é bastante complexo,
mas destacarei algumas questões importantes. Existem três
segmentos que organizam o MOVA. Um deles chama-se Animadores
Populares de Alfabetização. Cada município tem um animador;
portanto, são 467. Essa pessoa é aquela que articula, divulga e
faz a mediação do MOVA em seu município, indo às entidades,
explicando o que é esse projeto, o que é preciso para se
conveniar, etc. Os Animadores de Alfabetização participam de um
seminário inicial na abertura de cada ano, em que se reflete sobre
a prática e outras coisas. Têm, na coordenação regional, uma
reunião mensal, em que se encontram para discutir sobre o
trabalho. Temos ainda um seminário estadual, em que encontramos
todos os animadores do MOVA, em agosto. No ano passado foi o
primeiro, mas já estamos preparando o segundo.
O segundo segmento é o dos Apoiadores Pedagógicos, pessoas que
trabalham com a formação pedagógica dos educadores populares. Cada
seis educadores têm uma Apoiador Pedagógico, que também participam
de um seminário de formação inicial, uma reunião mensal na sua
região, com dois turnos de reflexão teórico-prática sobre a
experiência do apoiador pedagógico, e um seminário estadual, em
que encontramos todos os apoiadores. São quase 800 apoiadores
pedagógicos em todo o Estado.
Os 4 mil educadores populares são os alfabetizadores de sala de
aula. Antes de iniciar o trabalho em sala de aula, participam de
um curso de formação inicial de 20 horas. Espero que entendam os
números citados, dimensionando o que representa a EJA no Estado.
Somente neste ano, em março, abril e maio, realizamos 50 cursos de
formação inicial para os educadores do MOVA. Pessoalmente, envolvi-
me em 20, para acompanhar como esse processo ocorre. Os
educadores, então, têm formação pedagógica semanal, que é feita
pelos seus apoiadores pegagógicos - encontros de trocas, estudos,
produção teórica e sistematização - e passaremos a ter um
seminário estadual de avaliação do MOVA, com a representação de
animadores, apoiadores, educadores e educandos, para se pensar
nele como rede estadual de ação pedagógica.
Sobre o financiamento a que o Deputado se referiu, temos enquanto
política educacional, no orçamento da Secretaria de Educação, um
orçamento para a EJA, porque não dispomos de recursos federais.
Buscamos aquele famoso recurso do FNDE, que foi cortado pela
metade, com três meses para gastar, mas é muito pequeno para o
tamanho do trabalho a desenvolver. Temos três orçamentos na EJA:
um, voltado para a execução e a qualificação dos exames
supletivos, que deve estar em torno de R$2.500.000,00; um
orçamento para o MOVA, que gira em torno de R$9.000.000,00; e um
orçamento para toda a política de EJA, LER, (...), em torno de
R$4.000.000,00, e quase todo voltado para a questão da formação
pedagógica continuada.
É esse o orçamento da EJA no Rio Grande do Sul.
A Sra. Presidente - Cacilda Silveira Pinto, da ULTRAMIG, solicita
à Profª Liana que deixe seu “e-mail”, para que possam conversar
mais sobre a educação continuada a partir de Paulo Freire, que
está sendo implementada no Rio Grande do Sul. O mesmo solicita-se
do Prof. Leôncio, e esta coordenadoria sugere que os expositores
deixem outros endereços de contato, onde obter informações que não
foram passadas aqui.
O Prof. Leôncio José Gomes Soares - Notem como chamam nossa
atenção os números do Rio Grande do Sul. Esse mapa nos dá a idéia
do universo da EJA no Brasil. Sair do município e assumir isso em
âmbito de Estado aumenta nossa responsabilidade, porque os
desafios se mostram cara a cara.
Frederico perguntou como a EJA desenvolve a exclusão ou a
inclusão do jovem em estado de risco. Existe diferença entre o que
já está consolidado internacionalmente, que é a área de educação
de adultos, e os países do Terceiro Mundo, subdesenvolvidos,
emergentes, periféricos, em que a sigla é EJA.
A literatura internacional chama de educação permanente o
trabalho com jovens e adultos, ou seja, a atualização de
conhecimentos e a aquisição de competência é que são considerados
EJA. A sigla CONFINTEA é Conferência Internacional de Educação de
Adultos. Já a África, a América Latina, o Leste europeu e parte da
Ásia têm parcela significativa de jovens envolvidos nesse
trabalho, que, no Brasil, é assumido pela EJA.
Ontem, o Conselheiro falou da idade limite dessa juventude. Tem
de haver limite, senão se acaba chegando ao adolescente e até
mesmo à criança. Temos feito pesquisas para conhecer o número
referente ao universo juvenil e deduzir que interferência deve
haver na formação do docente que trabalhará com uma população que
se diferencia muito do próprio adulto.
Na década de 80, vivemos o romantismo da educação dos adultos,
quando os alunos, todos mais velhos, reconheciam o trabalho do
professor. Hoje, enfrentamos desafios. Temos de estar todo o tempo
alertando os alunos jovens e adultos sobre os aspectos positivos
que essa convivência heterogênea traz, porque, na verdade, o que
se tem observado é exatamente o contrário.
A Profa. Liana está nos mostrando passos a serem dados, e o rico
momento que estamos vivendo aponta que os conceitos surgem a
partir da prática, que altera ou supera um conceito anterior.
Estamos vendo que é preciso resgatar alguns conceitos, porque
continuam respondendo a exigências reais. Novas teorias surgem
quando as que existem já não respondem aos desafios. Não dá para
continuarmos trabalhando com conceitos requentados, que foram
ultrapassados e que já não dão resposta à necessidade atual.
A Sra. Presidente - Perguntas à Profa. Liana. De Geralda Lúcia,
de Ipatinga: “O processo de formação contínua do educador aponta o
avanço do Rio Grande do Sul diante dos demais Estados. Respeitando
o tempo curricular do aluno, qual o recurso usado pela Secretaria
para garantir os momentos coletivos tão importantes para o
desenvolvimento desse trabalho?”.
De José Geraldo de Assis, do Sind-UTE de Ipatinga: “Muito se tem
falado na formação do educador. No entanto, pouco tem sido feito
pela valorização do profissional educador. Que ações específicas
vêm sendo implementadas em seu Estado?”.
De Sandra Maria Baldoni Lara, da 4ª SRE: “Favor explicitar o
trabalho de formação dos professores, assim como foi feito com o
de capacitação dos professores da EJA”.
De Soraia Costa e de Simone Soares Campos, respectivamente, ambas
da Associação Manaim Pró-Gente: “O que é utilizado como fator de
motivação para os 5 mil professores?”; “Quais as instituições que
compõem o (....) Rio Grande do Sul e quais os critérios exigidos
para se fazer parceria?”.
As seguintes perguntas foram dirigidas ao Prof. Leôncio. De
Sandra Mara, aluna da Faculdade de Letras da UFMG: “O senhor falou
sobre a especialização voltada para a EJA existente na Faculdade
de Educação. Minha preocupação é com a preparação do professor de
matemática, português e biologia. Somos preparados para atender a
alunos de determinadas faixas, em detrimento de outras. Não seria
o caso de estender a preparação para os demais cursos de
licenciatura, ou oferecer cursos de extensão ou especialização
para futuros professores da EJA?”.
De Marília de Freitas, do CESU: “Qual sua opinião a respeito da
campanha da Rede Globo sobre o trabalho voluntário Amigos da
Escola?”. Com a palavra, o Prof. Leôncio.
O Sr. Leôncio José Gomes Soares - Vou completar a resposta ao
Paulo. Entre os conceitos que disse, anteriormente, que precisam
ser mantidos, um é o que Paulo Freire definiu como sendo educação:
“Educação é ato criativo e, portanto, ato político”.
Estamos no momento de descobrir como garantir aos jovens e
adultos, além do acesso à escola, o direito de ter uma experiência
de escolarização significativa. Trocaria o conceito de qualidade
total da década de 90 pelo de direito à experiência de
escolarização significativa. Isso nos ajuda a demarcar tempo e
espaço necessários e exigidos de acordo com os interesses dos
jovens e dos adultos.
À Sandra, da UFMG, digo que o que existe na UFMG não é curso de
especialização, mas habilitação para a Pedagogia. Atualmente, um
ótimo curso de especialização tem sido desenvolvido na
Universidade Federal Fluminense e tem atendido, principalmente, às
redes públicas de ensino. Há, ainda, dois outros cursos de
formação de formadores. O da CUT, um curso amplo, com material bem
sistematizado, e o do SESI, de âmbito nacional, que usa a
metodologia da educação à distância.
Quanto à UFMG, se estamos conseguindo trabalhar com o pedagogo,
como fazer com os demais professores? O programa de educação
básica da UFMG, que pega desde a alfabetização até o ensino médio,
tem possibilitado a mais de 50 licenciandos uma experiência
prática com jovens e adultos. Esse é um número pequeno. Estamos
pesquisando o significado dessa experiência para os estudantes no
interior da própria universidade e nas suas parcerias com outros
sistemas, para, então, propormos a alteração curricular.
Esse período de 15 anos tem demonstrado que, nas faculdades de
Letras, História, Geografia e Matemática, os estudantes sequer
discutem educação, quanto mais EJA. O fato de se formarem e
iniciarem o trabalho em escolas coloca-os diante do problema a que
já nos referimos: prepararam-se teoricamente, mas não têm a
prática.
A universidade pode ampliar o processo da formação inicial,
incluindo a prática. É preciso que a licenciatura assuma o momento
formador.
A respeito da campanha sobre o trabalho Amigos da Escola, vejo
como benéfica a propaganda que cria motivação para a educação e
que a coloca em questão. É o que a Assembléia está fazendo. Mas,
quando a propaganda tende a substituir o que é dever do Estado e a
impedir que a sociedade arregace as mangas e faça sua parte, está
duplicando o trabalho do cidadão.
Uma propaganda que considero ridícula é aquela da alfabetização
solidária, que, pelos meios de comunicação, solicitava às pessoas
fazerem, pelo cartão de crédito, uma doação de R$17,00 por mês,
durante seis meses, que é a duração da alfabetização. Ora, isso é
pedir à sociedade, mais uma vez, que financie a própria educação,
quando o que se tem que fazer é perguntar para onde foi o dinheiro
dos impostos que pagamos e que precisa voltar nas políticas
públicas.
A Sra. Liana Borges - Sobre a questão da valorização dos
trabalhadores em educação no Rio Grande do Sul, estamos
enfrentando esse impasse que provavelmente tem sido a convivência
com a maior contradição, porque está muito longe daquilo que temos
certeza que precisa ser feito. Entretanto, três exemplos concretos
de como estamos nos movimentando na direção de recuperar as perdas
salariais e recolocar os trabalhadores em educação no lugar que,
de fato, lhes pertence e também nos pertence: o Governo do Rio
Grande do Sul está discutindo com a Assembléia Legislativa - e
isso certamente é um processo muito complicado - a questão da
revisão da matriz salarial. Para que tenham uma idéia, a diferença
de salário entre o funcionário que menos ganha e o que mais recebe
é de 140 vezes. Com essa diferença salarial não há como dar conta
do processo. Neste momento, estão identificados os funcionários
que recebem de R$12.000,00 para cima - e são 600 em todo o Estado.
Estão sendo notificados para que se apresentem individualmente e
justifiquem o tamanho de seus salários. E logo a seguir, estamos
buscando aqueles que recebem de R$7.000,00 a R$12.000,00, para que
cumpram o mesmo processo. A intenção do Governo é que ainda este
ano consigamos reduzir, pelo menos à metade de 1 para 140,
portanto de 1 para 70, a diferença salarial, para que possamos nos
movimentar até o final da nossa gestão e de nosso Governo, com uma
diferença de 1 para 20.
Isso representa uma disputa muito pesada com a Assembléia
Legislativa, com o Poder Judiciário, e podem imaginar tudo que
temos pela frente para enfrentar, com a qualidade e a dureza
necessárias a essa discussão.
Em relação à valorização, que não é só a questão salarial,
realizamos um concurso público para o magistério estadual, quando
tivemos em todo o Estado quase 88 mil professores inscritos. No
último concurso, realizado em 1993, com a metade do número de
inscritos, não mais que mil pessoas foram nomeadas.
Na semana retrasada, depois de quase dez anos, realizamos
contratação emergencial de funcionários de escolas, porque era uma
situação vivida pelo Rio Grande do Sul da mais absoluta
complexidade, porque as escolas não dispunham de funcionários,
merendeiras, serviços gerais, secretários de escolas, e estamos
discutindo com a Assembléia Legislativa a realização, nos próximos
meses, de um concurso público para funcionários de escolas.
Demos outro exemplo concreto na valorização dos trabalhadores e
estamos encaminhando a regulamentação dos avanços na carreira, que
as gestões anteriores tinham parado de conceder desde 1993. Então,
neste ano, estamos pagando o ano de 1994 e iniciaremos já pagando
o ano de 1995, para que até o ano 2000 consigamos colocar em dia o
ano de 1999. Só quero mostrar com exemplos concretos, mas sempre
dizendo que para nós é tranqüilo, e, mesmo com esses movimentos,
ainda falta muito para darmos conta do tamanho do problema da
valorização.
A segunda questão do MOVA é sobre quais são as instituições e os
critérios para firmar convênio com o MOVA. Os critérios são que as
Prefeituras ou as entidades não tenham finalidade lucrativa;
portanto, sejam entidades filantrópicas e entreguem lá uma
documentação que é absolutamente absurda e que não estamos
conseguindo superar. Esse é um problema a administrar. Uma nova
proposta, com uma máquina que funcionava de modo totalmente
diferente do nosso, tem impedido quase tudo, especialmente o MOVA.
Então, as instituições sem fins lucrativos entregam uma
documentação dentro dos prazos preestabelecidos. As coordenações
regionais que coordenam a EJA também coordenam o MOVA, e pelas
coordenações regionais os convênios se dão. Não sei o número
exato, mas são mais ou menos 300 entidades conveniadas com o
Estado. A grande maioria vinculada aos movimentos populares, sendo
a grande maioria vinculada, por exemplo, ao movimento dos sem-
terras, ao movimento de mulheres agricultoras rurais e ao
Sindicato de Trabalhadores Rurais. Depois, outra parte vinculada
aos diferentes movimentos religiosos, à Igreja Católica, à
batista, ao espiritismo, enfim, são vários convênios na
perspectiva dos segmentos religiosos e outros tantos que vão na
direção das Prefeituras Municipais, que não são a nossa
prioridade, mas vários convênios ocorrem através das Prefeituras,
e alguns são muito significativos, como os com as universidades.
No caso das universidades, a maior parte dos convênios é para que
assumam a formação dos apoiadores pedagógicos, que são os que
fazem a formação dos educadores. Então, a Universidade Federal de
Santa Maria, que tem tradição no Estado, a Universidade Federal de
Pelotas, a UNICHUI, a Universidade do Rio Grande do Sul e algumas
universidades que têm alguma trajetória na perspectiva da educação
popular e que têm experiência em EJA têm-se aproximado com muita
simpatia e interesse do MOVA.
A terceira questão é como se trabalha a motivação e o
envolvimento dos educadores da EJA. A resposta aí não é só em
relação aos educadores da EJA. A resposta é como vamos buscar a
participação dos trabalhadores em educação, que historicamente não
se envolveram na reflexão sobre a sua prática.
Voltando à questão da constituinte, nesse momento, toda a rede
estadual está envolvida em aprofundar práticas problematizadas num
segundo momento.
Produzimos, na Secretaria, 25 subsídios teórico-práticos a partir
daquelas sistemáticas apontadas pela rede, e, nesse momento, cada
escola está escolhendo e são esses os subsídios: gestão
democrática, planejamento participativo, estrutura do sistema,
relações de poder, concepções pedagógicas, conhecimento científico
e saber popular, currículo, evasão e repetência, avaliação da
prática, papel do Estado, escola como espaço público. Cada escola
está escolhendo os temas que serão aprofundados a partir das
práticas que ela resgatou.
É dessa maneira que temos buscado ir ao encontro dos professores;
que possam, de fato, se sentir autores desse processo de trabalho
que está sendo desenvolvido.
A última pergunta é sobre como lidamos com a questão da formação
pedagógica “versus” o tempo do aluno, carga horária, etc. Vivemos,
no ano passado, experiência bem importante junto ao Conselho
Estadual de Educação; tivemos algumas reuniões com o Conselho,
para que regulamentasse o que refere à nova EJA, com base na LDB
nº 93/94. Estou trazendo uma cópia do parecer, para que seja
multiplicado para os interessados. Nesse novo parecer da EJA,
conseguimos avanços significativos. Tenho acompanhado outros
pareceres estaduais, e o do Rio Grande do Sul avança - e muito -
em relação aos demais. Quais são os dois avanços? Um: não
vinculamos a questão da EJA à freqüência obrigatória de 75%,
porque entendemos a freqüência em EJA como uma outra categoria,
que é o compromisso da construção dos alunos, e, se têm algumas
faltas, é por outro significado, que não o da escola regular.
Conseguimos superar essa relação da EJA com o ensino regular no
que se refere à freqüência e conseguimos apontar a permanência do
ensino indireto, aqueles 15%. Então, no ensino indireto, fazemos a
formação pedagógica dos professores da EJA, portanto na sua carga
horária semanal.
Temos outros avanços e uma questão muito complicada no parecer,
para que depois possamos, num outro momento, conversar pelo
correio eletrônico. Fica a cópia para socializarem.
Agora, depois do quarto momento da constituinte, que é o do
aprofundamento das temáticas, vamos viver, nos dias 23, 24 e 25 de
agosto, a Conferência Estadual da Constituinte. Nessa, vamos
definir os princípios norteadores da política educacional do Rio
Grande do Sul. A partir da definição dos princípios, vamos viver o
quinto momento da constituinte, que é o de reconstrução dos
regimentos escolares e dos planos de estudo.
Então, quando nós, da EJA, vivermos esse momento de reconstrução
dos planejamentos escolares, garantiremos, nos nossos regimentos,
a questão da freqüência e a do ensino indireto, para que se possa
fazer a informação pedagógica na carga horária dos educadores. Por
enquanto, isso está apontado como princípio, mas vamos passar a
escrever a partir da Conferência.
A Sra. Presidente (Deputada Maria Tereza Lara) - Pergunta da
Leila, da 21ª SRE: “Liana, quais são os cinco momentos da
constituinte escolar?”.
Outra pergunta para os dois expositores, Liana e Leôncio, do
Wiler, de Viçosa: “Considerando as experiências em andamento do
Programa Nacional da Educação em Reforma Agrária - PRONERA -, do
Ministério da Educação, em parceria com o MST, como se pode
analisar o processo de formação docente, haja vista que, em alguns
locais, os trabalhos se desenvolvem à revelia da rede pública?”.
A Profa. Liana Borges - Sobre o PRONERA e a relação com o MST,
nesse momento, desenvolvem a alfabetização em 70 grupos, turmas de
alfabetização. E MST - MOVA: temos, no Rio Grande do Sul, 35
turmas, portanto a metade da relação que o MST vem desenvolvendo
com o PRONERA. Estamos avaliando isso até porque nessa semana, de
domingo à noite até amanhã, está acontecendo, no Rio Grande do
Sul, um seminário do MST, com todos os educadores de EJA da região
Sul - Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná.
Na terça-feira, estava em Santa Maria, região central do Estado,
reunida com esses educadores de EJA do MST - são, mais ou menos,
300 -, e discutíamos exatamente a questão da formação continuada
dos educadores do MST.
E a avaliação que os companheiros do movimento têm, da qual
compartilhamos, é que, sobre o PRONERA, não há a qualidade
necessária ao processo de formação continuada. Não teríamos tempo
para desdobrar as dificuldades que essa relação está apontando,
mas, sucintamente, o que todos esses educadores nos diziam - na
terça-feira e nas tardes desses seminários, estamos trabalhando
com oficinas pedagógicas, com os educadores do MST - são questões
que apontam como dificuldades, e isso é para toda a EJA, não só
para o MST. Uma dificuldade do movimento: a questão da evasão dos
alunos de EJA, mesmo aqueles que estão vinculados aos
assentamentos. A segunda dificuldade é a questão didática - na
sala de aula, como fazemos isso? Sucintamente, é essa a resposta.
Cinco momentos da constituinte: primeiro, a sensibilização, o
convite à participação da construção, das diretrizes estaduais
para a educação. Segundo, o resgate de práticas e estudo da
realidade. Terceiro, o aprofundamento das temáticas definidas
durante um segundo momento, que são essas 25.
Algumas já listei, e estamos vivendo o terceiro momento, que vai
até julho deste ano. O quarto momento é a realização de 467
conferências municipais. Portanto, uma em cada município do Rio
Grande do Sul, com tirada de delegados e documentos das
conferências municipais, para que se chegue ao final, à realização
da Conferência Estadual, nos dias 23, 24 e 25 de agosto. E, a
partir da Conferência, de setembro até dezembro, o quinto momento
da constituinte será o da reconstrução dos regimentos escolares e
dos planos de estudo das escolas.
O sexto momento será até o último dia dessa primeira gestão, que
é o momento para que, de fato, possa acontecer a relação teórica e
prática, que estará contribuindo para aquilo que se apontou nas
diretrizes e nos regimentos escolares. O meu “e-mail” é
lsbo@zaz.com.br. Posso mandar os arquivos com todas as propostas
da constituinte.
Agradeço a oportunidade, e estamos totalmente disponíveis para
compartilhar as experiências que vêm desenvolvendo no Estado e nas
prefeituras. Muito obrigada.
O Sr. Leôncio José Gomes Soares - A pergunta sobre a formação
docente do PRONERA, Liana, acabou sendo prova de que, em alguns
lugares, isso está à revelia de redes. E esse é um dado
importante. Quando, na década de 90, alguns textos, algumas
produções teóricas vieram apontando o afastamento do Governo
Federal com relação à educação de jovens e adultos, houve uma
estratégia de criar alguns programas pontuais: reviver campanhas.
Lembram-se do requentamento da água? Ele volta. E, algumas vezes,
esses projetos se encaixam nesse caso.
O PRONERA se diferencia muito do PAS, que é a alfabetização
solidária. Propõem um intercâmbio com a universidade e, nesse
caso, têm a formação dos professores a cargo, como a Liana falou.
A rede pública do Rio Grande do Sul já vem fazendo isso, e alguns
deles têm um momento muito reduzido de formação daquele que vai
atuar como monitor, o que nos faz ter idéia de que aquele que sabe
ler e escrever um pouquinho já serve para educar. Essa idéia é
superada, porque os desafios, hoje, mostram que não é mais fácil,
simples nem mais rápido ensinar a adolescentes e adultos do que a
crianças. A realidade tem nos mostrado que é mais difícil, demora
mais tempo e é mais complexo. A sociedade ficou complexa. Não dá
para, em um curso de um mês, formar alfabetizadores que vão a
regiões desconhecidas trabalhar, visando a um processo de
aquisição da leitura e da escrita, quando, às vezes, muitos deles
têm uma escolaridade que precisa da aquisição da própria formação.
Lembraria que o PRONERA possibilita que a universidade tenha um
enriquecimento muito grande, saia do seu lugar, esteja presente em
regiões de assentamento e conheça essa realidade do campo. As
universidades têm lugares distintos. A de Viçosa, por exemplo,
está muito mais próxima da nossa realidade do que a UFMG, porque o
nosso meio é muito urbano. Mas um dos ganhos que tem aparecido com
relação ao projeto é a possibilidade de a própria universidade,
seus professores, monitores e estagiários poderem conhecer um
pouco mais desse nosso Brasil.
A Sra. Presidente - Agradeço ao Prof. Leôncio José Gomes Soares.
Os nossos profissionais da educação têm dado essa grande
contribuição sobre o verdadeiro papel da educação e o avanço na
política pedagógica.Também agradeço à Profa. Liana Borges e a
todos os companheiros do Rio Grande do Sul que têm estado conosco
por muitas e muitas vezes, nesta Assembléia Legislativa,
discutindo temas diversos, não apenas da educação, mas também do
trânsito, da segurança, e, de fato, têm demonstrado para o País
que são pioneiros nessas questões.
Defendemos que Minas Gerais e Rio Grande do Sul sejam parceiros
nessa contraposição ao projeto neoliberal, ao avanço da verdadeira
democracia não só representativa, mas também direta, para
conseguirmos acabar com o problema mais grave, que é o risco de
perdermos a soberania nacional. Quero dizer do nosso compromisso
de continuar juntos nos desdobramentos deste fórum, nós, os
Deputados Rogério Correia, Edson Rezende, que foi o autor do
requerimento que deu origem a este fórum, e outros Deputados.