DEPUTADO IRANI BARBOSA (PTB)
Discurso
Comenta a administração do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e as
denúncias de corrupção no Governo Federal. Comenta o envio à Assembléia
Legislativa das tabelas salariais de servidores públicos estaduais.
Reunião
47ª reunião ORDINÁRIA
Legislatura 15ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 29/06/2005
Página 41, Coluna 2
Assunto ADMINISTRAÇÃO FEDERAL. EXECUTIVO. PESSOAL. ADMINISTRAÇÃO ESTADUAL.
Proposições citadas PL 2460 de 2005
PL 2461 de 2005
PL 2462 de 2005
Legislatura 15ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 29/06/2005
Página 41, Coluna 2
Assunto ADMINISTRAÇÃO FEDERAL. EXECUTIVO. PESSOAL. ADMINISTRAÇÃO ESTADUAL.
Proposições citadas PL 2460 de 2005
PL 2461 de 2005
PL 2462 de 2005
47ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 15ª
LEGISLATURA, EM 23/6/2005
Palavras do Deputado Irani Barbosa
O Deputado Irani Barbosa* - Sr. Presidente, Srs. Deputados, às
vezes surpreendo-me, com ímpetos de revolta e raiva, criticando o
Presidente Lula, os parlamentares do PT e os ativistas. Mas,
afinal, do que reclamo? Será que tenho razão?
Durante 20 anos, o PT deu lição de sabedoria, de ética, propôs
investigações - parafraseando o “similar” do Presidente Lula, o ex-
Presidente Collor, “duela a quien duela” -, CPIs, chamando o
Ministério Público e a “poliça”. “Poliça”! Hoje entendo por que
era “poliça” e não polícia.
A todo momento, imagino-me vivendo um pesadelo, querendo acordar,
mas, ao acordar, belisco-me e realmente não se trata de um
pesadelo em sonho, é um pesadelo em vida, como o que enfrenta todo
o povo brasileiro.
Quando o Presidente Lula assumiu, vimos toda aquela pompa: o povo
no poder. Eu imaginava, lembrava-me de alguém, mas não conseguia
saber quem era. De repente, lembrei-me daquele salvador da
Polônia, o sindicalista Lech Walesa, que acabou saindo do poder
chutado pelo próprio povo que o carregara nos braços. Com aquela
pompa de Lech Walesa quando assumiu o governo da Polônia, depois
de tantos anos de sofrimento, com o povo imaginando que seria sua
salvação, continuamos no pesadelo no meu país. Aquele povo
acreditava que o homem sem trabalho teria três refeições por dia.
O que vimos foi um programa frustrado, criado ainda no governo do
ex-Presidente Fernando Henrique, em que se troca a cidadania por
um cadastro nas Prefeituras, por uma fila de pessoas. Imaginei-me
no lugar deles, sem identidade, dignidade e com vergonha de ali
estar, porque aquele homem prometia três refeições por dia ao povo
brasileiro e dizia que emprego era questão de querer criar e que
criaria imediatamente 10 milhões de empregos. O que vemos é a
mesma sazonalidade do mercado, que ora emprega e ora desemprega. A
gente vai se sentindo nesse pesadelo.
Lembro-me de outra vez, no meio dessa turbulência do pesadelo, em
que acordava como militante do MDB, na década de 60 - comecei a
militar na política aos 15 para 16 anos, no MDB, partido contra o
governo -, e me imaginava naquela turma de resistência que tinha
obrigação de dar caminhos melhores ao País. Na minha adolescência,
o que via era o caminho da ditadura, pesado, sofrido, aquela nuvem
negra baixada sobre o povo, em que só os mais destemidos e
corajosos - como alguns falam, aqueles que não têm qualidades para
falar - tinham coragem para falar. Eu brigava pela liberdade do
meu país e lutava pela liberdade do povo. Eu estava nas ruas,
batalhando na política. Íamos ao interior e, naquela época, o
pessoal nos chamava de comunistas. Não éramos comunistas, eu
simplesmente era contra a ditadura. Hoje, sou tido pelos
esquerdistas como um homem de direita. Imaginem como era naquela
época! Quando chegávamos a uma cidade, eles inventavam, falavam
que éramos comedores de criancinhas. Hoje, entendemos que, no
partido do Presidente, realmente existem muitos comedores de
criancinhas. Isso é verdade mesmo. A esses chamam de pedófilos. Na
verdade, pedófilos não são os que comem pés, mas os que comem
criancinhas. Naquela época, não existiam pedófilos. A direita
utilizava-se dessa fantasia para atrapalhar a vida dos que lutavam
pela liberdade neste país.
Eu dizia que, em 1978, quando houve a eleição do saudoso
Presidente Tancredo Neves, esses partidos, que hoje se dizem de
esquerda, não viviam na clandestinidade, mas escondidos como
ratos. Os ratos saíram do buraco e vieram para o poder. Hoje
corroem a República, carregam as riquezas do povo. Aqueles mesmos
guerrilheiros que se escondiam nas matas do Araguaia e em outros
países da América do Sul pregavam a luta armada. Essa turma, esses
mesmos ratos, pois quem vive escondido é rato, quando houve a
anistia pôde colocar a cara de fora. Eram guerrilheiros do lado de
lá, nunca vinham para o lado de cá. Ficavam treinando, mas não
tinham coragem para enfrentar o governo militar deste país. Então,
como já disse, eles pregavam a luta armada. Falavam: “O Brasil só
vai consertar no dia em que o povo pegar nas armas”.
Esse enunciado ficou na minha cabeça. Nesse pesadelo, pego-me em
contradição. Ou será que a contradição é da esquerda de que o
Presidente Gerião faz parte? Na hora em que assumiram o poder, a
primeira medida que tomaram foi desarmar o povo. Será que eu estou
vivendo um sonho-pesadelo, um pesadelo-sonho? Ou será que estou
acordado, e isso é realidade? São os mesmos que pregavam a luta
armada, que assaltavam bancos, que praticavam terrorismo, que já
traficavam drogas com a desculpa de arrumarem dinheiro para a luta
do proletariado. Será que estou confuso? Estou acordado ou tendo
um pesadelo? Será que esses mesmos que assaltavam os bancos são os
que assaltam o povo hoje para encher os cofres dos bancos? Queria
que alguém me ajudasse, que me beliscasse. Se eu estiver tendo um
pesadelo, por favor, acorde-me.
Tanta contradição não é possível. Os que gritavam “fora FMI” e
“abaixo os banqueiros”, os que pregavam a ética, a moralidade, o
respeito à coisa pública, a igualdade do povo e o emprego são os
mesmos que hoje tomam o emprego do povo, que o subjugam em filas
nas portas dos bancos e na fila do famigerado sistema SUS, que não
oferece saúde ao povo. Enquanto isso, uma cúpula de privilegiados
saqueia o povo. O Presidente Fernando Henrique criou o
cartãozinho, mas o Presidente Gerião, alienado, insiste em dizer
que se trata do programa Fome Zero, que vai oferecer três
refeições por dia. Para quem? Para os dirigentes do PT? Para os
abastados dos 20 mil cargos que eles criaram em Brasília, com o
intuito de, além de tudo, tomar contribuição para encher os cofres
do partido que tem a estrela? Será que é só a estrela do partido?
Será que eles se acham umas estrelas?
Às vezes, vejo o Gerião falando e gesticulando na televisão.
Aliás, é assim, pois falta-lhe um dedo. Penso que, realmente, ele
perdeu o dedo em um torno, mas há, inclusive nesta Casa, quem,
tentando denegrir a imagem dele, diga que ele perdeu o dedo quando
roubava rapadura em Garanhuns, e alguém da feira cortou-lhe o dedo
com um facão. Entretanto, não questionaremos isso, que sei ser
mentira. Ele disse que perdeu o dedo num torno e se aposentou por
esse motivo.
No entanto, vejo Gerião gesticulando. Professor, olhando firme,
como um alienado. Lembra-me um esquizofrênico, que tem duas
personalidades. Numa hora, conversa com uma pessoa que está ao
lado; em outra, conversa com uma pessoa que está dentro dele, e
não vê o que está acontecendo ao redor. Ouvimos o Presidente
falando que não existe neste país homem mais honrado, mais honesto
e trabalhador que ele. Vindo isso de quem nunca trabalhou, esse é
o meu pesadelo ou realmente está acontecendo alguma coisa no meu
país? O que é isso?
Será que estou com problema de personalidade, vendo algo que o
povo não vê? Será que estou assistindo, por exemplo, na televisão,
a propagandas gigantescas e milionárias da Petrobras, falando que
ela vende gasolina? Será que estou vendo propaganda dos Correios?
Ô, Correios! Anda, Correios! Será que estou vendo os Correios
fazerem propaganda de que entrega cartas?
Há campanhas milionárias, como a campanha do brasileiro de
resistência. Fazem campanha de produtividade, quando estamos vendo
a mentira. O dólar hoje está valendo menos que R$2,35. Quem lê
jornais patrocinados pelo governo, encontra a manchete: “O
desemprego diminui na região metropolitana”. Essa mesma pessoa, se
pegar um jornal econômico, “Jornal do Comércio”, por exemplo,
ficará sabendo que as indústrias estão fechando, que estão parando
de exportar e demitindo. Será que se esqueceram de dar publicidade
para esses jornais também, para manter, pelo menos, a coerência
entre as manchetes?
Ficamos preocupados com o que acontecerá se acordarmos. Onde o
governo federal aplicou recursos para diminuir a criminalidade?
Hoje, todo cidadão de Belo Horizonte reclama dos assaltos e da
criminalidade. No entanto, foi dado para o bandido uma visão de
“superman”, que só víamos nas revistinhas, porque ele, quando
chega para assaltar um cidadão, já sabe que, dentro do carro, está
um pobre brasileiro com cara de “me rouba”, porque o assaltante
sabe que aquele cidadão não pode andar armado. Caso esteja armado,
será preso. Mas o bandido tem sua arma. Essa arma é feita no
Brasil? No Paraguai? Na Argentina? Na Alemanha? Na Rússia? O
bandido compra a arma que quer.
Não me lembro de - caso algum dos senhores tenha visto, por
favor, me ajude nesse meu sonho ou pesadelo -, entre essas cerca
de 300 mil armas, a não ser aquelas feitas de cano de guarda-chuva
ou de outra coisa, haver alguma AR-15, AK-47, metralhadora ponto-
cinqüenta. Alguém entregou alguma arma dessas para a campanha do
desarmamento, com a qual foi gasta uma fortuna na mídia?
Sr. Presidente, pediria a V. Exa. uma condescendência, até porque
estou inscrito em quinto e sexto lugares, e os quatro Deputados
que me antecederam foram além do tempo. Talvez nem tenhamos tempo
para a segunda fase. Peço mais um tempo, até para que eu consiga
acordar desse pesadelo. Quem sabe, até o final da minha fala,
consigamos acordar! A impressão que tenho, e que quero ter, é a de
que só eu estou passando por isso. Não vi nenhuma metralhadora
ponto-cinqüenta, não vi nenhum bandidão chegar e dizer: “olhem a
minha metralhadora ponto-cinqüenta de assaltar carro-forte”. Ou
será que isso continua? Será que isso é o exemplo daqueles
bandidos que aprenderam que com uma metralhadora ponto-cinqüenta e
com uma AK-47 poderiam fazer coisas? De repente, poderemos ser até
Ministros da República, Sr. Presidente! Quem sabe estão pensando
desse jeito? Se assaltantes de banco do passado hoje são Ministros
da República, por que os assaltantes de hoje não podem também sê-
lo?! Será que esse é o meu pesadelo? Será que estou falando alguma
bobagem? Estou tentando ser tranqüilo, tentando ver se alguém me
acorda, se alguém me belisca. Quem é que estamos vendo neste
momento? Cheguei à Assembléia ontem e vi uma faixa, dizendo que a
tabela salarial é requerimento, uma conquista de não sei o quê. E
vi ali o nome do meu querido Deputado, médico, ético, Adelmo
Carneiro Leão. Ali estava escrito: “Por conquista do PT”. Vou
beliscar-me outra vez e vou acabar perdendo o braço de tanto me
beliscar. Esse Adelmo é aquele de Uberlândia? É o Adelmo ou o
Odelmo? Poderia até pensar que fosse o Odelmo, mas este não é do
PT. Vem outra vez uma pergunta do meu sonho ou do meu pesadelo.
Mas o Adelmo não é aquele que arrasou com o salário dos
funcionários da Assembléia Legislativa do Estado de Minas Gerais?
Não é aquele homem que brigou para reduzir o salário do pessoal
desta Casa, que massacrou os funcionários desta Casa? É ele mesmo.
Tenho a certeza de que não sou doido nem esquizofrênico. Será que
tenho a certeza de que não sou doido e, quando a tenho, será que o
sou? Será que foi isso que vi? Será o que o povo e os funcionários
desta Casa viram nessa faixa? Aquele mesmo repressor dos
funcionários desta Casa agora quer vangloriar-se de uma conquista,
de uma realização do Governador Aécio Neves. O PT, o partido dos
terroristas, dos assaltantes de banco, não tem nada a oferecer ao
povo? Meu Deus, será que este Irani é aquele desqualificado?! Será
que é mais ou menos como aquele Roberto Jefferson? Vejo-me nesse
pesadelo. Na hora em que o Roberto Jefferson acusa, o Delúbio
acusa o Silvinho, o José Dirceu, o Genoíno. Quando ele acusa toda
a quadrilha, eles desqualificam seu depoimento. Na hora em que o
Roberto Jefferson diz que o Lula é um homem honrado, vão lá e o
qualificam. Dizem, nesse momento, que ele inocentou o Lula. O que
é isso!? O mesmo que é qualificado para falar uma coisa é
desqualificado para falar outra!?
Aí, Sr. Presidente, aquela massa de manobra dos sem-terras,
utilizados para desestabilizar o governo passado do PSDB, quando
invadiam as fazendas do Presidente todos os dias... Esses mesmos
só não voltaram a invadir terras, porque o Presidente pediu que os
movimentos começassem a atuar contra o golpismo. Será que temos
golpismo? Golpismo? Golpismo é quando o povo não concorda com o
governo. O povo vetou, foi enganado pela esperança, em nome de uma
vida melhor, de um futuro melhor para sua família. Em nome da
ética e da dignidade, ele foi enganado. Não fui enganado. O povo
foi enganado, mas eu não. Meus discursos de 10, 15 anos para cá
mostram que nunca tolerei essa farsa. Será que estou acordado ou
será que estou tendo um pesadelo? Eu vejo o mesmo que o povo vê?
Ou será que o povo não enxerga o que vejo?
Volto a um assunto que já foi palco da Comissão de Ética desta
Casa. A Comissão de Direitos Humanos só defende bandido.
Diariamente visita cadeia, aqui e acolá, e visitará uma cadeia na
terra de V. Exa. Não sei se essas visitas são feitas em vista dos
direitos humanos ou por paixão por alguma coisa que deve haver
dentro das cadeias, pois não há resultados práticos. Será que o
aposentado não tem direitos humanos? Será que o cidadão que anda
de ônibus não tem direitos humanos?
Não me delongarei, até porque este assunto é longo. Há mais de 10
páginas sobre essas mazelas, e cheguei à pág. 2. Direitos humanos
são aplicados aos funcionários desta Casa? Hoje, defendem a
proposta do Governador Aécio Neves, mas, ontem, massacraram os
funcionários desta Casa, reduzindo o salário, criando teto,
retirando vantagens, prejudicando-os e sacrificando-os. Será que
eles não são dignos dos direitos humanos? Será que os direitos
humanos só valem para bandidos, para quem mata? Quando um bandido
mata um cidadão de bem é condenado e vai para a prisão, recebe
auxílio-reclusão, defendido pelas esquerdas, que são quem mais
ocupa a cadeia. O bandido recebe auxílio-reclusão, que chega a
quase dois salários mínimos por mês, e, para o cidadão que morreu,
tem-se “o-diabo-que-o-carregue”, pois não há ninguém para defendê-
lo.
Tentaremos continuar solidários nesse pesadelo, pois dizer a
verdade neste país depende... O Deputado Jorge Ferraz afirmou:
“Temos de fazer um “release” e esperar faltar dinheiro na
imprensa, para que publiquemos algo, pois, quando o governo
investe, não dá para publicar”. Seu discurso era inflamado, mas
não podia ser muito; caso contrário, seria caçado.
Quando Deputado Federal, preocupei-me muito com essa questão.
Talvez por esse motivo a grande imprensa tenta ignorar-me. Naquela
ocasião, apresentei emendas; e uma delas não foi acatada, ou seja,
a proibição total e geral de governos estaduais, municipais,
federais e autarquias investirem dinheiro na mídia para fazer
propaganda. Aí, sim, teríamos uma verdadeira radiografia do que
ocorre na Nação. O povo brasileiro me lembra os primeiros jogos
eletrônicos, em que dávamos o comando, mas somente após dois
segundos a tela da televisão respondia. O cidadão não sabia o
momento certo de agir para ter sua ação qualificada. Atualmente,
há ações do governo e retardamento de informação, como no
depoimento de Roberto Jefferson, quando, repentinamente, todas as
redes saíram do ar.
Já não tomarei o tempo de V. Exa., pois tenho a impressão de que
meu pesadelo durará mais. Que Deus me proteja e que o pesadelo que
estou vivendo não seja o de toda a Nação! Votaram na esperança,
votaram na ética, votaram na honradez. O que ganharam foi um
alienado, um abestalhado, uma quadrilha, assassinos,
seqüestradores e bandidos. Na realidade, é uma quadrilha que
governa o País hoje. Muito obrigado, Sr. Presidente.
* - Sem revisão do orador.