DEPUTADO DALMO RIBEIRO SILVA (PSDB)
Discurso
Critica o veto do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, ao
projeto de lei federal que dispõe sobre a inclusão de alunos portadores
de deficiência matriculados em instituições privadas sem fins lucrativos
no cálculo do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental
e Valorização do Magistério - FUNDEF. Comenta a suposta decisão do
Governo Federal de suspender o pagamento de aposentadoria dos idosos com
mais de 90 anos.
Reunião
101ª reunião ORDINÁRIA
Legislatura 15ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 26/11/2003
Página 57, Coluna 2
Assunto ADMINISTRAÇÃO FEDERAL. EDUCAÇÃO. DIREITOS HUMANOS. IDOSO.
Legislatura 15ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 26/11/2003
Página 57, Coluna 2
Assunto ADMINISTRAÇÃO FEDERAL. EDUCAÇÃO. DIREITOS HUMANOS. IDOSO.
101ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 1ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 15ª
LEGISLATURA, EM 19/11/2003
Palavras do Deputado Dalmo Ribeiro Silva
O Deputado Dalmo Ribeiro Silva* - Sr. Presidente, Sras.
Deputadas, Srs. Deputados, TV Assembléia, meus amigos e minhas
amigas, na última semana ocupei esta tribuna para registrar a
grande indignação, que não era somente deste parlamentar, mas de
todos aqueles que conhecem, reconhecem e apóiam o trabalho
extraordinário que as APAEs de Minas e do Brasil desenvolvem em
favor das pessoas especiais.
Mencionava o ato presidencial que vetou o projeto de lei do
ilustre Deputado Federal Eduardo Barbosa, que possibilitaria a
inclusão de alunos portadores de deficiência matriculados em
instituições privadas sem fins lucrativos no cálculo do Fundo de
Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização
do Magistério - FUNDEF.
Na oportunidade, fui aparteado, com muita alegria e honra, por
diversos colegas parlamentares, alguns deles solidários à nossa
manifestação, outros, porém, reagindo com muita veemência às
minhas ponderações, como se fosse este parlamentar o autor de ato
tão desarrazoado.
Imaginavam os ilustres colegas que a questão se esvaziaria com a
edição, pelo Presidente da República, de medida provisória
versando sobre a matéria. Mas não foi isso o que se viu, não foi
isso o que se esperava. Minha manifestação não foi isolada. Ela se
repetiu nos quatro cantos do País e em diferentes instâncias e
circunstâncias. Relutei muito em retornar a esta tribuna para
abordar novamente o assunto.
No entanto, a nossa responsabilidade parlamentar não nos permite
dar por esgotada essa importante matéria, que necessita de
reflexão mais profunda. Porém, para não ser acusado de conferir ao
debate conotação meramente partidária, quero buscar nas palavras
do grande poeta Ferreira Gullar os termos exatos de minha contínua
indignação, não só quanto ao veto presidencial, mas também quanto
à conduta do Governo Federal no grave incidente que ofendeu, sem
reparação, os idosos aposentados de todo o Brasil.
Peço vênia para ler o artigo de Ferreira Gullar, publicado no
“Caderno Magazine”, do jornal “O Tempo” do último domingo, sob o
título “A Arrogância Oficial”. Assim escreveu o articulista:
“Pertenço à turma dos que torcem para o Governo Lula dar certo, e
a principal razão é que o Brasil precisa disso e, depois, porque o
seu fracasso decepcionaria a maioria da população brasileira, que
nele depositou toda a sua esperança.
Mas torcer para dar certo não significa fechar os olhos aos
problemas e, sim, pelo contrário, observá-los, tentar entendê-los
e apontá-los, pois é precisamente nisso que reside a vantagem do
regime democrático. Por isso mesmo, considero preocupantes algumas
atitudes tomadas por membros do Governo Federal, como a recente
decisão que afetou os idosos de mais de 90 anos.
Todo o País assistiu chocado ao espetáculo lamentável promovido
pelo Ministro da Previdência Social ao mandar suspender o
pagamento de aposentadorias daqueles idosos e obrigá-los a
comparecer às agências do INSS para provar que estavam vivos.
Naqueles dias, os jornais e a televisão mostraram idosos em
cadeiras de rodas, outros caminhando trôpegos apoiados em bengalas
ou muletas, além dos que mal conseguiam manter-se de pé em filas
intermináveis. Assustados, apressaram-se em provar que estavam
vivos, para poderem receber a modesta aposentadoria com que pagam
seus remédios.
A televisão mostrou uma senhora de quase 100 anos, que ficara na
fila de 8 horas da manhã às 15h30min e voltava para casa sem nada
conseguir, por falta de um dos documentos exigidos. Diante daquele
espetáculo de humilhação e desrespeito, todos se perguntavam se o
Ministro enlouquecera, já que tudo o que estava ocorrendo era
perfeitamente previsível.
A quem, em seu perfeito juízo, ocorreria submeter pessoas de mais
de 90 anos a tal constrangimento?
Por que, numa afronta ao direito do aposentado, mandar suspender
o pagamento das aposentadorias, sem qualquer prévio aviso? Seria
objetivo do Ministro humilhar e ofender os velhinhos, como faria
um vilão de novela, ou o propósito era incompatibilizar o Governo
Lula com a cidadania? Nem uma coisa nem outra, certamente. Então,
por que o Ministro tomou tal medida?
O que mais me assustou nesse episódio foi, de um lado, a
arrogância da autoridade governamental e, de outro, a sua
insensibilidade com o cidadão. Essa falta de sensibilidade, aliás,
tem se manifestado com freqüência nos diversos escalões do
Governo, desde o Presidente da República - que insultou, chamando
de covardes, seus antecessores - até o Ministro da Saúde, que, a
propósito da morte de vários idosos a quem o Governo não dera o
necessário atendimento, afirmou: “Eles não morreram por falta de
remédios, mas porque já eram muito idosos”.
Não menos “grosso” foi o Ministro da Segurança Alimentar ao
advertir os empresários paulistas de que, se não colaborassem na
campanha Fome Zero, teriam de andar de carros blindados, pois mais
nordestinos viriam para a cidade. E ele é Ministro de um Governo
presidido por um nordestino que, como tantos outros, veio para São
Paulo ganhar a vida! E o que dizer do Ministro José Dirceu, ao
mandar Fernando Henrique calar a boca e cuidar de seus netos e de
sua biblioteca?
Devemos apenas concluir que o País foi entregue a pessoas mal-
educadas e insensíveis ou se trata de um fenômeno mais sério?
Seria a arrogância de donos da verdade somada ao deslumbramento do
poder? É difícil saber ao certo.
Como explicar a atitude de Berzoini, negando-se a pedir desculpas
aos velhinhos? Depois voltou atrás, como José Dirceu e Lula já
haviam feito.
Às vezes, penso que os membros do Governo petista são impelidos a
se mostrarem duros e radicais, em certas ocasiões, para compensar
o bom comportamento do Governo Lula, muito parecido com o de
Fernando Henrique. Ainda bem que, apesar de tudo, a economia se
mantém equilibrada e a recessão começa a ceder. Dias melhores
virão, espero eu”.
Foram essas as reflexões publicadas no jornal de domingo passado.
(- Lê:) “Em decorrência dessas considerações, Sr. Presidente, tomo
a liberdade de reproduzir esse artigo de um autor cuja biografia
fala por si só, para demonstrar que não me animou, na semana
passada, nenhuma outra motivação que não a de clamar contra uma
injustiça, que precisava encontrar urgente solução. Refiro-me ao
caso das APAEs.
Volto a enfatizar o nosso apelo para que o Governo Lula seja
coerente com os princípios que sempre defendeu, dentre eles o da
inclusão social plena daqueles que são marginalizados em
diferentes formas. É o caso das intermináveis filas que temos
visto na Justiça Federal, em que milhares de idosos aposentados
estão buscando a revisão de suas aposentadorias.
Mais uma vez, irão abarrotar o Judiciário de ações individuais
que poderiam ser perfeitamente evitadas com o simples
reconhecimento do direito das pessoas à correção de suas
aposentadorias. Poderei, sim, ser retrucado. Novamente, discutimos
sobre não ser essa uma situação criada pelo Governo Lula. Sim, mas
estamos diante desse Governo e da oportunidade histórica de
reparar essa injustiça. Sem dúvida alguma, trata-se do
reconhecimento dos seus direitos. Precisamos compreender que uma
falha do passado não pode justificar a omissão do presente. Assim
sendo, fica o nosso apelo para que o Governo demonstre um mínimo
de sensibilidade em relação ao que tem sido tratado com verdadeiro
descaso.
Finalmente, que fique consignada a necessidade de o Presidente da
República analisar criteriosamente as medidas encaminhadas para a
sua execução, a fim de que equívocos, como o que resultou no veto
ao projeto de lei das APAEs, não sejam mais uma vez praticados
contra os idosos que buscam seus legítimos direitos”.
Termino minha fala com uma profunda reflexão. Nós, Deputados, que
estamos todos os dias nesta Casa, preocupamo-nos com essa fila
interminável, não apenas em Belo Horizonte, mas em todo o Estado e
em todo o País. Temos de levantar a nossa voz e, acima de tudo,
exigir mais respeito do Governo Federal para com os idosos. A fila
inicia-se por volta das 2 horas ou 3 horas da madrugada. O Governo
Federal peca novamente pelo desrespeito aos que construíram este
País, e que merecem, pela sua história, maior consideração, não
somente quanto à revisão de suas aposentadorias, mas também no que
se refere à sua dignidade e à sua própria vida. Saúdo, com muito
vigor, a Juíza paulista que concedeu liminar de prorrogação do
reconhecimento do direito de todos os idosos e aposentados, para
que filas intermináveis não continuem existindo naquele Estado, em
flagrante desrespeito à vida. Espero que esta Assembléia seja
solidária aos idosos. Obrigado.
* - Sem revisão do orador.