DEPUTADO LUIZ TADEU LEITE (PMDB)
Discurso
Comenta o relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito - CPI - do
Sistema Prisional.
Reunião
422ª reunião ORDINÁRIA
Legislatura 14ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 24/12/2002
Página 36, Coluna 1
Assunto SEGURANÇA PÚBLICA.
Legislatura 14ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 24/12/2002
Página 36, Coluna 1
Assunto SEGURANÇA PÚBLICA.
422ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 14ª
LEGISLATURA, EM 17/12/2002
Palavras do Deputado Luiz Tadeu Leite
O Deputado Luiz Tadeu Leite* - Sr. Presidente, Srs. Deputados, a
CPI do Sistema Prisional, a qual tive a honra de relatar,
presidida pelo eminente colega Deputado Ermano Batista, tendo como
sub-relator o Deputado Alberto Bejani, encerrou seus trabalhos
após quase um ano. Um de seus resultados foi a aprovação de um
relatório final de 136 páginas, no qual fez-se um retrato fiel da
situação prisional do Estado de Minas Gerais.
A CPI foi instalada em junho de 2001, com a finalidade de, no
prazo de 120 dias, apurar o funcionamento do sistema prisional no
Município de Ribeirão das Neves e outros, verificando possível
envolvimento do poder público com grupos criminosos organizados no
esquema de facilitação de fugas, tráfico de drogas, liberdade e
soltura extralegal. Devido à necessidade de se ouvir número maior
de testemunhas e de se analisar farta documentação, com mais de 10
mil páginas separadas em 70 anexos, nossos trabalhos foram
prorrogados até este mês.
Foram realizadas pela CPI cerca de 30 reuniões, ordinárias e
extraordinárias, tendo ainda a Comissão se deslocado ao Município
de Juiz de Fora, para apurar irregularidades denunciadas naquela
cidade. Pessoas ligadas a todos os segmentos do sistema
penitenciário foram ouvidas pela CPI, somando um total de 37
depoimentos, entre detentos, servidores e autoridades do sistema.
O objetivo desse trabalho extenso foi o de possibilitar uma visão
mais abrangente e mais apurada da situação vivenciada nos
estabelecimentos prisionais mineiros, o que serviu para subsidiar-
nos na elaboração do relatório final.
No decorrer dos trabalhos buscamos a verdade dos fatos. Não
poupamos esforços para apurar responsabilidades, ainda que estas
envolvessem servidores do mais alto escalão. Não pretendemos, em
momento algum, atribuir a grave crise por que passa o nosso
sistema prisional a uma só causa ou a uma só pessoa. Sabemos que a
atuação governamental, em qualquer área, é marcada por erros e
acertos. E, embora tenhamos contestado que, na área prisional, os
erros vêm se sobrepondo aos acertos, não deixamos de ressaltar em
nosso relatório os avanços alcançados pela Secretaria da Justiça,
principalmente no que diz respeito à implementação de programas de
ressocialização dos sentenciados.
A crítica a que determinadas instituições foram submetidas no
relatório tem a finalidade de iniciar um processo de redefinição
de suas missões e de reorganização de suas estruturas. Como se
viu, as instituições não desempenham, de forma satisfatória, suas
funções.
Em síntese, as conclusões da CPI apontaram que os órgãos de
execução penal estão se movendo por estratégias conflitantes. O
que se notou é que o interesse do Juízo da Execução não coincide
com o da direção do estabelecimento penal, que, por sua vez, não
está de acordo com as diretrizes do Conselho de Política Criminal.
Vimos que a lei presume condições ideais de funcionamento que não
encontram apoio nas estruturas sociais existentes, o que leva o
agente a, muitas vezes, optar por seguir as imposições da lógica
estrutural, caindo, em muitos casos, na ilegalidade.
A falta de comunicação e de integração entre órgãos centrais da
política de execução penal mostrou-se uma causa evidente de
problemas no sistema prisional.
No tocante às diversas rebeliões ocorridas nas penitenciárias e
nas cadeias públicas, constatou-se que, na maior parte das vezes,
as reivindicações dos presos encontram guarida na legislação em
vigor. Verificou-se ainda que a política de transferência de
grupos inteiros de presos rebelados de uma penitenciária para
outra vem trazendo conseqüências extremamente maléficas para o
sistema, propiciando um rodízio de rebeliões e a troca de
informações entre detentos de diversas penitenciárias do Estado.
A manutenção de presos sentenciados nas cadeias vinculadas à
Secretaria da Segurança Pública é também apontada como causa
evidente de fugas e movimentos rebeldes. Ademais, concluiu-se que
o atendimento médico precário ou inexistente, a deficiência na
assistência jurídica e a demora na análise dos processos de
progressão de regime são causas recorrentes de reivindicações
nesses movimentos.
Verificou-se também a execução de uma política omissa e
benevolente, levada a cabo pelo sistema prisional estadual, no que
diz respeito aos elevados índices de fuga registrados. As
constantes fugas ocorridas no regime semi-aberto da Penitenciária
José Maria Alkmim, flagradas mais de uma vez pela imprensa mineira
por imagens inequívocas, são exemplos precisos do descontrole da
situação por parte do poder público.
Em todos os casos específicos de fugas investigados pela CPI,
constatou-se ou a participação direta de servidores ou a omissão
da direção e dos servidores em relação a tais ocorrências.
Registre-se que, nesses casos, a omissão se mostra mais danosa que
a ação efetiva, pois nesta é possível apurar as responsabilidades
e aplicar as devidas sanções, ao passo que, em caso de omissão, as
verdadeiras culpas são ocultadas, criando-se um clima de
conformidade e de inevitabilidade da situação.
Outra conclusão, Sr. Presidente, Srs. Deputados, a que chegamos
refere-se à omissão da diretoria dos estabelecimentos prisionais
quanto ao uso de aparelhos celulares, de telefones públicos e de
outros aparelhos eletrônicos dentro das penitenciárias. É
exemplar, nesse aspecto, a facilidade encontrada por detentos como
Rogerão e outros, tidos como líderes do tráfico no nosso Estado,
em conseguir celulares dentro das penitenciárias. Fatos como esse
nos levaram à constatação da conivência do sistema com tais
práticas.
Ficou claro também que o crescimento do tráfico de drogas no
Estado e, mais especificamente, suas ramificações dentro das
penitenciárias, pode certamente ser apontado como um fator
condicionante para a crise percebida, apresentando-se como um dos
maiores desafios a ser enfrentados pelo nosso sistema prisional.
Quanto ao envolvimento de membros do Poder Judiciário e do
Ministério Público nas mazelas do sistema, a CPI procurou obter
informações que pudessem subsidiar nosso trabalho. Todavia não
encontramos, em nenhum depoimento, indícios claros do envolvimento
de Juízes e Promotores com grupos criminosos em outras
irregularidades. Contudo, no que concerne especialmente à atuação
do Judiciário na Comarca de Ribeirão das Neves, a Secretária da
Justiça foi bem explícita ao afirmar, perante a Comissão: “Com a
chegada da Juíza a Ribeirão das Neves, a cidade, pela primeira
vez, sentiu a força do Poder Judiciário sério e trabalhador”.
Pelas palavras de S. Exa. a Secretária, merece aplauso e os
melhores encômios a atuação eficiente da nova Juíza, a Dra.
Luziene Medeiros, que não está medindo esforços para modificar o
sistema de funcionamento da Penitenciária José Maria Alkmim.
Ficou também notória para a Comissão a insustentabilidade dos
modelos penitenciários adotados nas Penitenciárias José Maria
Alkmim e Nelson Hungria, com capacidade para mais de 600
recuperandos. Essas penitenciárias vêm funcionando muito mais como
escolas do crime que como estabelecimentos para ressocialização.
As circunstâncias que permitem que traficantes “poderosos” dividam
o mesmo espaço com detentos que cometeram crimes mais brandos
dificultam, sobremaneira, o processo de recuperação destes
últimos. A própria concepção do modelo desses estabelecimentos
mostrou-se totalmente incompatível com uma política eficaz de
recuperação do preso.
Registramos, por fim, que a ineficácia do Estado no controle de
rebeliões e evasões do sistema prisional gera muito mais do que a
frustração dos objetivos colimados pela Lei de Execução Penal,
configurando também um atentado contra o próprio estado
democrático de direito. Essa situação traz conseqüências as mais
nefastas para a sociedade, entre as quais a anulação do trabalho
da justiça criminal, o descrédito crescente das Polícias Civil e
Militar, bem como a propagação do sentimento de impunidade que
grassa em nossa sociedade. À medida que o Estado, ao qual incumbe
gerenciar o sistema penitenciário, permite que o condenado
constantemente empreenda fugas, transforma aquele cidadão tutelado
em indivíduo clandestino em sua própria sociedade, o que resultará
no seu retorno à delinqüência e na total falta de segurança para a
população.
Finalizando os trabalhos desta CPI, não nos limitamos a apontar
os problemas. Ao final do relatório, apresentamos recomendações e
propostas a órgãos do Poder Executivo Estadual com a finalidade de
corrigir ações irregulares, e também com a de contribuir para a
melhoria do sistema.
Entre as recomendações feitas, destacam-se:
a) a priorização do processo de transferência dos presos das
cadeias para as penitenciárias nos termos da Lei nº 13.720/2000,
que estabelece um cronograma de metas a ser cumprido;
b) a adequação da construção das novas penitenciárias aos ditames
da legislação estadual, notadamente à Lei nº 13.720/2000, que veda
a construção de qualquer estabelecimento penal com capacidade para
mais de 170 presos;
c) o fim do pernoite de menores, filhos de detentos, nas
penitenciárias do Estado, conforme previsto no Programa
Perspectivas, da Secretaria da Justiça, por considerarmos que tal
permissão coloca em risco a integridade física e moral dessas
crianças, diante do que foi denunciado;
d) a retirada imediata dos telefones públicos instalados na
Penitenciária José Maria Alkmim.
Outras medidas de natureza administrativa e legislativa foram
também propostas, entre as quais merece destaque a recomendação da
aprovação da Proposta de Emenda à Constituição nº 87/2002, que
cria o Sistema Estadual de Defesa Social, subordinado ao
Governador do Estado, com atuação integrada, sob a coordenação de
única Secretaria de Estado, à qual estará subordinado o sistema
prisional. Destaquem-se, também, as recomendações de que a bancada
mineira no Congresso Nacional se mobilize para aprovar projetos de
leis que visem ao aperfeiçoamento da legislação penal e da
processual penal, que têm reflexos diretos no processo de execução
da pena. Devem ser ainda ressaltadas as propostas de regularização
e valorização da Corregedoria vinculada às Pastas da Justiça e da
Segurança Pública e a regularização do quadro funcional da
Secretaria da Justiça, por meio da realização de concurso público
e da valorização da carreira de Agente Penitenciário.
Foi também proposto o encaminhamento ao Executivo Federal de
reivindicação objetivando a construção de penitenciárias
nacionais, mantidas pelo Governo Federal.
No tocante às medidas de natureza judicial, o relatório
apresentou relação contendo o nome de 24 pessoas que cometeram
ações tipificadas como crime. Propôs-se, por isso, o
encaminhamento do relatório ao Ministério Público Estadual, ao
Corregedor-Geral da Polícia Civil, ao Corregedor da Secretaria da
Justiça e ao Corregedor-Geral de Justiça do Estado, bem como a
outras autoridades, visando a que tais órgãos procedam à
realização de averiguações complementares que se fizerem
necessárias e que seja, finalmente, oferecida denúncia contra as
pessoas envolvidas ou, se for o caso, que sejam apuradas as
responsabilidades administrativas cabíveis.
O nosso sentimento, hoje, é o do dever cumprido. Contudo, temos a
consciência de que a publicação deste relatório representa o
início de uma luta que não se mostra nova, uma vez que esta Casa
vem constantemente empreendendo esforços para a melhoria do
sistema prisional em nosso Estado.”
Por meio dessas palavras, procuramos mostrar um pouco das
conclusões esculpidas no relatório, que já está pronto, foi
aprovado pela CPI e encaminhado à Mesa para aprovação do Plenário.
Queremos agradecer a todos os assessores daquela comissão,
especialmente aos técnicos - Daniela Cabral, Alexandre Werneck e
Wladimir Dias -, pela presteza, eficiência, permanência e
grandiosidade de atuação que demonstraram, para facilitar aos
Deputados integrantes da CPI as informações e os trabalhos
necessários para chegarmos a essa conclusão.
Na verdade, o sistema prisional do Estado teve alguns avanços.
Mas, infelizmente, temos de ressaltar que a situação, em outros
aspectos, piorou muito, pois está fora de controle, e, se não
houver, por parte do próximo Governo, ações imediatas, concretas e
determinadas priorizando o sistema prisional como integrante do
sistema de segurança pública do nosso Estado, teremos o
agravamento definitivo com, talvez, a assunção do controle do
sistema penitenciário pelos próprios detentos, como ocorre, hoje,
em alguns aspectos.
Esta Comissão, durante quase um ano de atuação, concluiu que são
necessárias outras providências para que o alerta dado neste
momento pela CPI seja complementado por ações concretas dos
Poderes Executivo e Judiciário, a fim de que possamos melhorar
rapidamente a realidade do sistema prisional neste Estado. Muito
obrigado.
*- Sem revisão do orador.