Pronunciamentos

DEPUTADA MARIA OLÍVIA (PSDB)

Discurso

Transcurso do 100º aniversário de nascimento do poeta Emílio Moura.
Reunião 197ª reunião ESPECIAL
Legislatura 14ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 22/08/2002
Página 23, Coluna 1
Assunto HOMENAGEM.

197ª REUNIÃO ESPECIAL DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 14ª LEGISLATURA, EM 14/8/2002 Palavras da Deputada Maria Olívia Exmos. Srs. Deputado Marco Régis, Ângelo Oswaldo, particular amigo, Carlos Alberto Portugal Moura, Ricardo Arnaldo Malheiros Fiúza, Geraldo Marques da Silva, José Maria Couto Moreira, Fábio Lucas, demais autoridades, senhoras e senhores, Carlos Drummond de Andrade, amigo de Emílio Moura, contou, em texto publicado no livro “Confissões de Minas”, que, certa vez, o poeta, cujo centenário de nascimento hoje celebramos, teve premiado um bilhete de loteria. Mas Emílio continuou pobre como antes. O itabirano Drummond assim falou do dorense Emílio, traçando seu retrato moral: “Nenhuma concessão ao tempo ou ao poder macula sua vida. Entretanto, essa honestidade nada tem de feroz, tão límpida é ela, e Emílio consegue extrair de todos, os mais secos ou os mais indiferentes, um imenso amor”. Os mineiros estão provando, ao comemorarem este centenário, que não são secos nem indiferentes ao amor do poeta que nos brindou, com seu assinalado pudor e sua delicadeza infinita, com versos em que cantou a contingência e a eternidade. No belo e nostálgico poema “A Casa”, Emílio Moura pergunta: “Das dobras do tempo saltam tantas horas. Qual delas me fala?”. A hora que lhe fala agora, poeta, saltando da dobra do calendário, nesta noite de 14/8/2002, é a que relembra o nascimento do menino que, com seus olhos puros, via nas coisas graça aérea. As coisas, para o menino-poeta, tinham à volta delas uma auréola que assim descreverá: “tão nítida, às vezes na escada, no teto, na menor presença do álbum de retratos”. A hora que lhe fala hoje tenta reconstituir sua lembrança, sua presença, que tanto marcou os amigos e mesmo aqueles que só o conheceram e que, ao distinguir nas ruas de Belo Horizonte o caminhar esguio do cavalheiro de terno e bigode, com seus fartos cabelos escuros, lançavam-lhe olhar furtivo. Era o funcionário público e professor que nunca escondeu sua alma lírica. Mário de Andrade, a grande voz do modernismo, seu artífice desde a primeira hora, reconheceu que o jovem Emílio, antes dos seus 30 anos, já expressava o que chamou o “sentido mais intimamente doloroso do nosso tempo”. Sua dolorosa perplexidade diante do mundo era, no entanto, suavíssima. Essa perplexidade faz-se presente nestes versos: “Senhor, são os remos / ou as ondas que dirigem meu barco?”. Há perguntas, tão incisivas, para as quais não existiriam respostas. Sérgio Milliet, outro dos grandes nomes da crítica modernista, comenta a inquietação do poeta. Ao indagar sobre as coisas, sobre suas razões e finalidades, está solicitando a presença de Deus. Na poética emiliana, não se dissociam Deus e poesia, beleza e liberdade. Em última instância, o que se busca é a presença do divino em nós. Assim, esse espanto diante da vida, esse inconformismo que se levanta do fundo escuro da noite que envolve os homens são ressaltados, mais uma vez, nos versos de Emílio Moura: “Sentimos que existes, / mas é inútil e, insensíveis, nos calamos”. Mas, na hora que lhe fala agora, os leitores de sua palavra não serão insensíveis nem se calarão. Todos nós, neste momento, nas dobras desta noite em que o festejamos, reconhecemos sua dádiva, que se traduz no sentimento do mundo, na presença do divino. E, em resumo, na poesia, na beleza, na liberdade. Emílio Moura, o calendário que marca a curta vida dos homens é muito pequeno para abarcar a palavra do poeta, pois transcende o tempo e sua finitude. A palavra do poeta é pura e eterna. Por isto, volto a Sérgio Milliet, que viu no mineiro Emílio um dos poetas mais puros daquele momento brasileiro. Não vou contestá-lo, apenas me permitirei complementá-lo. Emílio Moura, com sua perplexidade diante do eterno, está solto no espaço, fazendo-nos perceber e desejar sentir, especialmente hoje, que nada morre ou se desfigura. Muito obrigada.