DEPUTADO JOSÉ HENRIQUE (PMDB)
Discurso
Transcurso do 500º aniversário do descobrimento do Rio Doce.
Reunião
314ª reunião ORDINÁRIA
Legislatura 14ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 12/12/2001
Página 21, Coluna 3
Assunto CALENDÁRIO. RECURSOS HÍDRICOS.
Legislatura 14ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 12/12/2001
Página 21, Coluna 3
Assunto CALENDÁRIO. RECURSOS HÍDRICOS.
314ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 14ª
LEGISLATURA, EM 5/12/2001
Palavras do Deputado José Henrique
O Deputado José Henrique - Sr. Presidente, Sras. e Srs.
Deputados, imprensa, público presente, comemoramos, no dia
13/12/2001, os 500 anos do descobrimento de um dos maiores
patrimônios naturais do Estado: o nosso querido rio Doce. Esse rio
une Minas ao Espírito Santo, e sua bacia possui área maior que a
Bélgica, a Holanda e a Dinamarca. O rio Doce beneficia mais de
3.500.000 de pessoas e desempenha papel fundamental na economia do
Leste mineiro e do Norte do Espírito Santo, uma vez que fornece
não apenas a água, indispensável ao uso doméstico, agropecuário,
industrial e à geração de energia elétrica, mas, principalmente,
funciona como canal receptor e transportador dos esgotos, rejeitos
e efluentes produzidos por essas atividades econômicas.
Não me refiro a um simples curso natural de água, mas a um
complexo hídrico grandioso e de importância singular, com extensão
aproximada de 875km e vasão média na foz de 1.140m³. Cerca de 228
municípios, sendo 201 apenas no nosso Estado, compõem a sua bacia.
A região abriga nada menos que 3.600 indústrias e mineradoras.
O rio Doce nasce na Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais, e
deságua no Oceano Atlântico, em Regência, Município de Linhares,
no Espírito Santo. Limita-se ao sul com a bacia do Paraíba do Sul,
a oeste, com a do São Francisco e, em pequena extensão, com a do
rio Grande, ao norte limita-se com a bacia do rio Jequitinhonha e
com o Mucuri, e, ao noroeste, com a bacia do São Mateus.
Primeiramente, foi denominado Santa Luzia e apelidado pelos
portugueses “mar dulce”. O Doce foi descoberto pela esquadra de
Fernandes Tourinho em 1501. Habitavam a região várias tribos de
índios da família dos Botocudos, conhecidos por sua hostilidade.
Essa família, que incluía, entre outros, os índios aimorés,
naknenuks, maxacalis e crenaques, era rival dos índios tupis, o
que limitava a presença desta tribo na região. Para os botocudos,
o rio Doce tinha o nome de Watu.
O processo de ocupação da bacia iniciou-se somente no século
XVII, com a descoberta de grandes minas de ouro na região. Em
torno das minas surgiram as primeiras vilas do Leste mineiro:
Ribeirão do Carmo (Mariana) e Vila Rica (Ouro Preto).
Já em meados do século XVIII, a mineração dava seus primeiros
sinais de decadência, o que provocou mudanças na economia
regional. Começou, então, o desenvolvimento da agricultura e da
pecuária das grandes fazendas. O surgimento dessas atividades
provocou um grande fluxo imigratório dos trabalhadores das minas,
que, na busca da ocupação de novas regiões, avançaram sobre as
áreas do médio e do baixo rio Doce.
Assim, até o início do século XX, a bacia do rio Doce ainda era
amplamente coberta pela mata atlântica. Fatores como existência da
densa floresta, os conflitos com os índios e a ocorrência de
doenças, especialmente a malária, contribuíram para que essa fosse
uma das últimas regiões a serem ocupadas em nosso Estado.
A efetiva ocupação da região somente ocorreu a partir da
construção da Estrada de Ferro Vitória-Minas, em 1903. Anos
depois, essa estrada chegou a Porto de Figueiras, a nossa
conhecida Figueira do Rio Doce, hoje Governador Valadares,
consolidando o importante entreposto comercial que já fazia uso do
rio para escoar suas mercadorias, uma vez que o rio era navegável
daquele ponto até o mar.
Posteriormente, à medida que a região se ia desenvolvendo,
gigantes da siderurgia e da mineração foram se instalando, como a
Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira e a Companhia Vale do Rio
Doce, seguidas da Acesita, da Usiminas e da Cenibra.
Como conseqüência desse avanço, houve um aumento significativo na
produção de carvão vegetal e na expansão da monocultura de
eucaliptos na região. A cultura do café também começou a se
estabelecer na parte Sudeste da bacia, na área de influência dos
Municípios de Caratinga e Manhuaçu.
Estudos sobre o processo de ocupação da bacia indicam que, nos
últimos 50 anos, essa ocupação e o crescimento econômico ocorreram
de forma totalmente desordenada, o que provocou reflexos negativos
sobre a base dos recursos naturais regionais. Mas não nos iremos
referir aqui aos mecanismos lamentáveis de degradação ambiental
que o rio Doce vem sofrendo. Preferimos, sim, neste dia, para não
darmos espaço à desolação, realçar suas características naturais,
sua história e a sua função decisiva na economia da região, o que
não significa que não nos preocupemos com a grave situação de
degradação que o atinge. Apoiamos, incentivamos e enaltecemos
todas as iniciativas que visem a sua preservação e recuperação. É
preciso discutir, buscar soluções viáveis que possam garantir a
proteção de nossas reservas hídricas, haja vista que a água já vem
sendo considerada o ouro negro deste século, e a sua disputa, o
motivo da próxima guerra mundial.
Não poderíamos deixar de ressaltar o papel que a CIPE Rio Doce,
da qual sou membro efetivo, vem desempenhando, ao envidar
esforços, buscar parcerias com organizações não governamentais e
com a sociedade com vistas a contribuir para a conscientização e
para o desenvolvimento auto-sustentado da bacia hidrográfica do
rio Doce. Criada há mais de dois anos e contando com a
participação de parlamentares do Espírito Santo, a CIPE Rio Doce
vem acompanhando de perto todas as mobilizações realizadas em
torno da criação do comitê da bacia.
Aproveitamos a oportunidade para anunciar, com imensa satisfação,
neste período da comemoração dos 500 anos, que no último dia 30 de
novembro, em reunião do Conselho Nacional de Recursos Hídricos
realizada em Aracaju, foi criado o Comitê da Bacia Hidrográfica do
Rio Doce. Acreditamos que este será um grande passo na busca de
políticas públicas efetivas para garantir o uso adequado das águas
do nosso rio Doce.
Quero destacar a publicação de ontem do jornal “Estado de Minas”.
(- Lê:)
“O Conselho Nacional cria o Comitê da Bacia do Rio Doce. Às
vésperas da solenidade dos 500 anos da descoberta do rio Doce
pelos portugueses, os ambientalistas têm mais um motivo para
comemorar. O Conselho Nacional de Recursos Hídricos, em reunião
extraorindária, em Aracaju, aprovou, por unanimidade, a criação do
Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Doce. Com a criação do Comitê,
os ambientalistas vão poder estabelecer critérios de utilização do
rio pelos municípios e empresas situadas na bacia, que terão de
dividir um programa de meio ambiente que busca a revitalização do
rio.”
Também o jornal “Hoje em Dia” faz referência à bacia do rio Doce.
(- Lê:)
“Recursos hídricos. Aberta a possibilidade de projetos
específicos que vão beneficiar os 222 municípios da região. Bacia
do rio Doce passa a ter o seu comitê.”
Quero parabenizar o Movimento Pró-Rio Doce, a Associação de
Defesa Ecológica de Resplendor. Lá teremos, nos dias 14 e 15, um
encontro de toda a região e municípios, para discutirmos e
comemorarmos os 500 anos da descoberta do rio Doce. Parabéns ao
Secretário de Meio Ambiente de Minas Gerais, ao IGAM, a todas as
organizações não governamentais e a todos aqueles que, direta ou
indiretamente, lutaram pela concretização desse projeto e pela
criação do Comitê da Bacia do Rio Doce. Muito obrigado.
* - Sem revisão do orador.