DEPUTADO DURVAL ÂNGELO (PT)
Discurso
Comenta a segurança pública; a defesa social no Estado; a questão
carcerária; a rebelião da Penitenciária Nelson Hungria, no Município de
Contagem; a questão da violência urbana; a morte do segurança do Prefeito
Jésus Lima, do Município de Betim, e a questão da Comissão Parlamentar de
Inquérito - CPI - do Narcotráfico.
Reunião
202ª reunião ORDINÁRIA
Legislatura 14ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 19/12/2000
Página 21, Coluna 2
Assunto SEGURANÇA PÚBLICA.
Aparteante Sargento Rodrigues, Carlos Pimenta.
Legislatura 14ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 19/12/2000
Página 21, Coluna 2
Assunto SEGURANÇA PÚBLICA.
Aparteante Sargento Rodrigues, Carlos Pimenta.
202ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 2ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 14ª
LEGISLATURA, EM 6/12/2000
Palavras do Deputado Durval Ângelo
O Deputado Durval Ângelo - Sr. Presidente, Srs. Deputados, Sra.
Deputada, a questão da segurança pública e da defesa social nos
traz hoje a esta tribuna. Todos sabemos que em todas as pesquisas
de opinião que são feitas em cidades grandes e de médio porte
aparece sempre como principal problema que aflige o povo a questão
da segurança. E hoje abordaremos três vértices desse problema: o
primeiro é a questão carcerária, com a última rebelião da
Penitenciária Nelson Hungria, de Nova Contagem; o segundo é a
questão da violência urbana mesclada com a violência política,
como o caso que vimos estarrecidos do assassinato do soldado Mota,
segurança do Prefeito Jésus Lima, de Betim, no último domingo à
noite; o terceiro aspecto será uma reflexão sobre a CPI do
Narcotráfico, desta Assembléia.
Quanto à questão da rebelião em Nova Contagem, quero registrar
que, na última rebelião, havida em 22 e 23 de outubro, fizemos uma
afirmação ao final da rebelião de que o problema não estava
resolvido, de que logo haveria outra rebelião. E dizia mais, que
poderia ser mais dura do que a de outubro e com conseqüências
piores para a sociedade. No dia 29 de novembro recebi carta em meu
gabinete em que os internos da Penitenciária diziam o que já
tínhamos anunciado: que os problemas não tinham sido resolvidos e
que, depois da rebelião, sofreram por parte de alguns Guardas
Penitenciários retaliação violenta e que, de novo, a diretoria,
que teria de ser retirada do comando da Penitenciária, nada tinha
feito para implementar as mudanças. E eles diziam que tinham feito
uma greve de fome no dia 20 de novembro e que no início de
dezembro fariam nova rebelião. A carta está assinada pelos
internos da rebelião. Pois bem, estando na quinta, na sexta-feira
e no sábado da semana passada em uma reunião nacional do PT,
ficamos sabendo que no dia 1º de dezembro tinha eclodido essa
rebelião anunciada. E essa rebelião durou até o dia 4, pela manhã,
com 17 reféns, entre eles um menor de 17 anos, uma monitora e um
monitor da UTRAMIG, que estavam trabalhando dentro da
Penitenciária. Era uma rebelião que tinha tudo, em virtude da
própria intransigência da Penitenciária, para terminar em
tragédia. E os internos da Nelson Hungria, desde o primeiro
momento, solicitavam, em carta ou em comunicado à Rádio Itatiaia e
a outros veículos de comunicação, a presença de dois Deputados
desta casa, a nossa e a do Deputado João Leite, pela sua longa
atuação na Comissão de Direitos Humanos e como Presidente da CPI
Carcerária, de abril a setembro de 1997.
Quando cheguei de São Paulo - estive lá no domingo -, fiquei
surpreendido pelo nível de organização dos internos, pela clareza
da proposta e, ao mesmo tempo, pela forma com que estavam fazendo
suas reivindicações. A primeira era a exoneração do Maj. Marcelo
Álvaro de Assis Toledo, bem como de outros diretores da unidade.
Desde o primeiro momento, tivemos uma atitude de diálogo da
Secretaria de Justiça e Direitos Humanos. Mas, ao mesmo tempo,
houve uma atitude de certa intransigência em não trocar os
diretores da penitenciária. Alguns dirigentes da Secretaria diziam
que não haviam recebido nenhuma denúncia de tortura que envolvesse
o Diretor da unidade. Quero lembrar que a CPI do Sistema
Carcerário, em 1997, encaminhou várias para o Ministério Público e
quase todas foram transformadas em denúncias e processos que
tramitam na justiça. Em 1998, uma entidade internacional de
direitos humanos, a maior das Américas, a Human Rights (....),
visitou vários estabelecimentos penais em Minas Gerais e constatou
em Nova Contagem a ausência de um projeto de investimento na
recuperação de presos e as arbitrariedades e a violência na
questão dos direitos humanos. É importante para quem disse que não
conhecia nenhuma denúncia saber que essa entidade divulgou o seu
relatório em português, em inglês, em francês e em espanhol para o
mundo inteiro.
Mas, em 1998, a Anistia Internacional, maior entidade de direitos
humanos em nível mundial, também fez visitas a vários
estabelecimentos penais de Minas Gerais e fez a mesma constatação
em Nova Contagem. Sem contar que houve inúmeras denúncias de Nova
Contagem em praticamente todas as reuniões que tivemos na Comissão
de Direitos Humanos. A Pastoral Carcerária da Arquidiocese de Belo
Horizonte também divulgou um relatório em que vários casos são
citados.
Fiquei feliz porque, na última terça-feira, a Secretária Ângela
Pace constatou que aconteciam torturas na penitenciária.
Responsabilizou o Maj. Moraes por esses procedimentos. No entanto,
a lei federal que trata sobre a tortura é muito clara: a
responsabilidade é também do chefe imediato. Pude perceber que os
presos em Nova Contagem estavam fazendo uma reivindicação que já
havia sido feita pela CPI do Sistema Penitenciário, que não havia
atingido o seu intento. Várias entidades de direitos humanos já
haviam solicitado essa substituição.
Havia um grande terror no pavilhão em que se encontravam os
policiais condenados e presos. É que, da forma como quebraram os
cadeados do pavilhão de cima, com toda certeza, se a rebelião
houvesse acontecido nos pavilhões de baixo, poderia ter havido uma
grande tragédia com os internos policiais daquelas unidades. Esses
policiais que estavam presos não deveriam estar ali, mas sim em
estabelecimento próprio.
Aliás, quando lá estive naquele dia, conversando com os internos
daquela unidade, vi os próprios policiais condenados entrar em
greve de fome porque sabiam que naquele momento corriam risco de
vida. Mas a sabedoria falou mais alto, e a pressão, também. Hoje
podemos estar reconstruindo, na Penitenciária Nélson Hungria, uma
nova metodologia de trabalho, com a exoneração do Maj. Marcelo
Álvaro de Assis Toledo.
Não temos a ilusão nem a ingenuidade de achar que a troca de uma
pessoa vai modificar uma realidade maior, mas acreditamos que o
primeiro passo foi dado. Acreditamos ainda no atendimento a outras
reivindicações dos presos, que são as mais básicas e fundamentais,
como o direito ao banho de sol, a que suas visitas não sejam
molestadas e sejam respeitadas quando lá estiverem, o direito
básico de serem tratados com dignidade - coisas que nem deveriam
ser reivindicações dos internos.
Esperamos que, a partir de agora, as autoridades que tratam do
problema se conscientizem de sua gravidade e procurem solucioná-lo
de forma definitiva. Há um clima favorável, na penitenciária de
Nova Contagem, por parte dos agentes e dos internos, para que esse
trabalho seja feito. E poderemos ter uma realidade bem
diferenciada da que lá encontramos.
Concedo aparte ao Deputado Sargento Rodrigues.
O Deputado Sargento Rodrigues (em aparte) - Sr. Deputado, somos
conhecedores da situação. No dia 13 de novembro estive com o
Governador Itamar Franco, em audiência, cobrando-lhe providências
já que ele sancionou projeto de minha autoria que cria local
específico para o cumprimento de pena dos presos policiais e ex-
policiais. Sabemos que, se aquela rebelião acontecesse na parte de
baixo da Penitenciária Nelson Hungria, teríamos uma carnificina, o
que não queremos, pois sabemos que os presos devem cumprir suas
penas conforme determina a lei. Durante os trabalhos da CPI do
Narcotráfico, um dos grandes empecilhos que encontramos, quando da
apuração dos crimes foi a questão carcerária. O Estado precisa dar
atenção especial à questão. Hoje temos 40 mil mandados de prisão
em aberto, sendo cerca de 15 mil de traficantes. A divisão de
tóxicos se encontra lotada, os presos, amontoados, revezando-se
para dormir. E os policiais ficam sujeitos a uma rebelião, podendo
ser tomados como reféns, como já aconteceu na Nelson Hungria, onde
um Soldado, um Sargento e 17 Agentes Penitenciários ficaram como
reféns.
Recebi, há poucos dias, carta dos 14 ex-policiais presos na
Penitenciária Nélson Hungria, no Pavilhão 7, solicitando imediatas
providências devido à gravidade da situação. Pedimos ao Governador
Itamar Franco que tome medidas urgentes, não apenas para
solucionar a questão do Pavilhão 7, mas o problema instaurado no
sistema carcerário. Preso precisa trabalhar, não pode ficar
ocioso.
O Deputado Durval Ângelo (continuando) - Amanhã, como membro do
Conselho da Comunidade da Vara de Execuções Criminais em Belo
Horizonte, estarei, às 8 horas da manhã, visitando a divisão de
tóxicos para, mais uma vez, constatar o óbvio: a superlotação, o
desrespeito aos direitos humanos e a falta de vontade política do
Governo para resolver o problema. Não resolveremos o problema da
segurança e da defesa da sociedade se não avançarmos na questão do
sistema carcerário.
Também nos preocupa a questão de Betim. Todos acompanhamos,
entristecidos, a violência política naquela cidade, que quase
ceifou a vida do Prefeito Jésus Lima, há dois anos. Afirmei, na
última segunda-feira, que, quando assistimos a um fato daqueles,
temos nojo da política, porque não podemos conceber que o debate
das idéias seja levado às últimas conseqüências, ao uso da
violência.
O Tribunal de Justiça de Minas Gerais, ao anular o julgamento dos
criminosos que tentaram matar Jésus Lima, tornou-se conivente com
a violência em Betim, pois o mandante do crime ainda está solto,
naquele município, para continuar ameaçando cidadãos de bem. Todos
assistimos à violência da última campanha eleitoral em Betim, e
tudo isso nos entristece, pois, independentemente de corrente
ideológica e de qualquer posicionamento político, não concordamos
com essa situação.
No último domingo, às 21h40min, na entrada do condomínio onde
mora o Prefeito Jésus Lima, aconteceu uma emboscada, que ceifou a
vida do Soldado Luís Carlos Cota, do Batalhão de Missões
Especiais. Evidentemente, isso é fruto desse clima de violência,
com que nenhum de nós pode concordar. “A priori”, não podemos
fazer um pré-julgamento e afirmar que a morte do Soldado está
ligada à questão política do mesmo incidente ou à divergência dos
grupos políticos em Betim, mas é estranho que tenha acontecido
nesse momento. Se houver outra causa que leve à apuração desse
crime, ficaremos felizes, porque isso criaria um clima de
tranqüilidade para a política naquela cidade.
Na segunda-feira, o Prefeito Jésus Lima afirmou, em conversa com
este Deputado, que teria recebido ameaças de morte de um Deputado
Federal, o Deputado Vitório Mediolli, dono do jornal “O Tempo” e
da Transportadora e Sada. O Deputado, por sua vez, entrou em
contato comigo, por telefone, apresentando documento, para provar
que a polêmica com o Jésus não teria acontecido como ele afirmara.
As duas representações do Jésus no Ministério Público e na
Delegacia Regional de Betim aconteceram em razão de um artigo por
ele escrito, com o título: “Para Jésus Lima”, em que havia o
seguinte parágrafo: “A felicidade costuma deseducar as pessoas e
levá-las a se esquecer de Deus, para cair no proveito de situações
que, em breve, deixaremos fora do caixão”. Que seja uma figura de
linguagem, mas é muito forte e tem um tom ameaçador.
Quero acreditar no Deputado Federal Vitório Mediolli, que falou
conosco, apresentando-se como adepto da não-violência, cristão, e
como alguém que construiu seu patrimônio com trabalho e que
gostaria de fazer sua reconciliação com o Jésus, pelo qual não
nutre nenhum ódio, mas a figura por ele usada foi muito forte.
Lembro que, mesmo supondo que os fatos não tenham ocorrido em
função desse artigo, ele pode estimular a violência, pois é um
convite a ela.
Deputado Federal Vitório Mediolli, quero deixar bem claro que não
fizemos prejulgamento; simplesmente constatamos um temor do
Prefeito Jésus e de seus familiares. Enquanto alguns jornais, como
o “Estado de Minas”, estão dando uma conotação política ao
incidente, hoje fiquei surpreso com o jornal “O Tempo”, que trouxe
quatro ou cinco páginas insistindo em que o crime foi passional,
envolvendo o Soldado, e, em hipótese alguma, a figura do Jésus
Lima. Na segunda-feira, fui entrevistado por duas jornalistas
desse jornal, e dei minha versão sobre crime político, mas nenhuma
linha do que disse este parlamentar saiu no jornal.