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Rotunda do complexo ferroviário de São João del-Rei, de 1882, uma construção circular utilizada para armazenar veículos
Rotunda do complexo ferroviário de São João del-Rei, de 1882, uma construção circular utilizada para armazenar veículos - Foto: Sarah Torres
Sino do período imperial participou de exposição em 1861
Sino do período imperial participou de exposição em 1861 - Foto: Sarah Torres
Locomotiva a vapor Duquesa, de origem francesa e tamanho mais compacto
Locomotiva a vapor Duquesa, de origem francesa e tamanho mais compacto - Foto: Sarah Torres
Museu de São João del-Rei tem exposição de objetos que nos remetem à memória ferroviária
Museu de São João del-Rei tem exposição de objetos que nos remetem à memória ferroviária - Foto: Sarah Torres
Vagão funeral é uma peça considerada rara
Vagão funeral é uma peça considerada rara - Foto: Sarah Torres
Célia Corsino explica processo de avaliação dos bens históricos
Célia Corsino explica processo de avaliação dos bens históricos - Foto: Luiz Santana
Estação de Lobo Leite, inaugurada em 1886, passou por processo de recuperação em 2012
Estação de Lobo Leite, inaugurada em 1886, passou por processo de recuperação em 2012 - Foto: Luiz Santana
Acervo de Santos Dumont reúne vagões e locomotivas
Acervo de Santos Dumont reúne vagões e locomotivas - Foto: Luiz Santana
Rosana Martins é aluna do Instituto Federal de Santos Dumont
Rosana Martins é aluna do Instituto Federal de Santos Dumont - Foto: Luiz Santana
Relógios nas estações ferroviárias: o curioso caso do 4
17/09/2018 09h00
Trem de Minas

Patrimônio de ferrovias também constrói memórias

Além da criação de museus, é possível proteger estações e locomotivas por meio do uso social desses bens.

Elaine Moraes

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Mesas, cofres, balanças, calculadoras, prensas, telefones, telégrafos, relógios, ferramentas e mesmo talheres narram a história das estradas de ferro mineiras e constituem, muitas vezes, os únicos vestígios de povoados que deixaram de existir.

A memória ferroviária encontrou abrigo em museus como os de Juiz de Fora (Zona da Mata) e São João del-Rei (Central), que reúnem, com Belo Horizonte, os principais acervos relativos às ferrovias no Estado.

Em contexto no qual o País perdeu 20 milhões de peças de valor histórico único e insubstituível, em incêndio ocorrido no último dia 2, no Museu Nacional, no município do Rio de Janeiro, assegurar a preservação desses bens se torna ainda mais urgente.

Além da conservação de mobiliários, instrumentos de trabalho e de comunicação, fotografias, equipamentos científicos, documentação e material rodante (locomotivas, vagões, carros de passageiros), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em Minas Gerais (Iphan-MG) também atua para que construções como estações ferroviárias e pontes sejam recuperadas e conservadas. Não só por seu valor arquitetônico, como também pela sua capacidade de restituir épocas, vivências e modos de vida.

O Museu Ferroviário de Juiz de Fora, instalado na sede da antiga Estrada de Ferro Leopoldina, de 1884, e inaugurado em 21 de agosto de 2003, apresenta relevante panorama sobre as ferrovias, seus impactos sociais e culturais a partir do século XIX, em Minas e no Brasil.

A visitação inclui cinco salas temáticas que revelam, por meio dos objetos biográficos, aspectos e fatos curiosos sobre as estações, as vias e até mesmo sobre o aparato tecnológico do período.

O coordenador do museu, Luiz Fernando Priamo, ao falar da origem das peças, sobretudo para alunos das escolas infantis, diz ser necessário destacar a relação dessas com o presente.

De acordo com ele, a chegada das ferrovias nos municípios não promoveu apenas a integração física dos territórios, mas também propiciou, pela primeira vez, em muitos casos, a comunicação por meio das novas tecnologias de então, que passaram a fazer parte do dia a dia de trabalhadores do setor.

“Eu mostro às crianças o meu celular e aponto para o telefone de mesa de meados de 1920, o telégrafo, a máquina de datilografar, o relógio de parede e digo: está tudo aqui”, relata. 

O museu conta também com objetos que já ultrapassaram os 100 anos, como os sinos fabricados ainda no período imperial. Um deles participou da chamada Exposição Nacional de 1861, que reuniu grandes coleções. A peça porta o selo do evento, que menciona prêmio recebido pela sua sonoridade.

Já as ferramentas e objetos comumente utilizados pelos ferroviários reconstituem a rotina de trabalho nos trilhos. As lamparinas, marretas, pés de cabra, alavancas lembram ao visitante que aqueles homens exerciam um trabalho braçal e pesado.

De outro lado, pode-se ver as janelas delicadas, o estofado felpudo e os talheres de prata, itens de vagões de luxo, onde viajavam os mais abastados, marcando assim as diferenças sociais que também atravessam os tempos. 

No pátio externo do museu, estão duas locomotivas a vapor. Uma das máquinas, de origem francesa, de tamanho mais compacto que as demais, recebeu o nome de Duquesa e, segundo Luiz Fernando, se tornou o “xodó” do patrimônio cultural da região. 

Proteção – Apesar da importância do acervo, ele ainda se encontra em fase de tombamento, apenas o prédio já é protegido por lei. São cerca de 400 peças, além da documentação, que chega à mesma quantidade dos itens.

Com o reconhecimento do valor cultural desses bens, o coordenador espera que o museu obtenha mais recursos e visibilidade junto à população para que outros projetos possam ser fomentados, como os de criar espaços que retratem a memória dos trabalhadores e dos passageiros do trem. Com isso, a esperança dele é trabalhar também a memória afetiva, que, para ele, “é o último ramal a ser desligado”.

O museu recebeu, apenas no ano passado, 50 eventos; em 2018, até julho, já foi ultrapassado esse número. De acordo com Luiz Fernando, em 2016, 2 mil pessoas o visitaram, já em 2017, foram 10 mil. “O museu está vivo e precisamos comemorar este feito, mas também assegurar sua permanência ao longo da história”, concluiu.

Trem atrai turistas em São João del-Rei 

São João del-Rei recebeu o primeiro complexo ferroviário de oficinas do Estado, com serviços diversos como fundição, ferraria, carpintaria e mecânica.

Hoje, no espaço, encontra-se o museu ferroviário da cidade, que foi inaugurado em 1981 justamente para celebrar o centenário da Estrada de Ferro Oeste de Minas. Também lá encontramos objetos que nos remetem à memória ferroviária, como balanças, cofres, locomotivas e telégrafos.

Bruno Abner Lagoa, analista operacional da VLI Multimodal S.A, concessionária ferroviária responsável pela conservação do museu, conta que as peças lá expostas pertenciam a várias estações ao longo da estrada.

As peças e painéis históricos contextualizam o surgimento das ferrovias, passando pela primeira linha férrea do Brasil e por figuras como o Barão de Mauá, precursor do setor no País.

Jornais da época trazem saudações à família real, que compareceu à inauguração da estação. “Ao desembarque a multidão saudou ao monarca e à sua virtuosa consorte”, traz o periódico "O Arauto de Minas", publicado em 3 de setembro de 1881.

Ao lado do painel está a locomotiva nº 1 da Estrada de Ferro Oeste de Minas, que trouxe a comitiva do Pedro II para a solenidade.

O complexo onde se encontra o museu recebe cerca de 12 mil visitantes por mês, atraídos principalmente pelo passeio turístico de trem que faz o trajeto até o município vizinho de Tiradentes.

Segundo Bruno, está sendo preparado tour guiado que inclui o museu, o espaço externo a ele e a rotunda de 1882, construção circular utilizada para armazenar veículos ferroviários e onde esses faziam as manobras necessárias. “Há pouquíssimas no mundo”, afirma o analista.

Na rotunda, atualmente fechada ao público, será possível conhecer o funcionamento das antigas locomotivas a vapor, com uma máquina preparada exclusivamente para a finalidade didática. Os curiosos ainda poderão ver diversos exemplares de Maria Fumaça, incluindo ainda um vagão funeral, uma peça também considerada rara nos dias atuais.

De acordo com dados do Iphan, em termos de quantidade e qualidade, os municípios de Juiz de Fora, São João del-Rei e Belo Horizonte reúnem os acervos mais importantes de Minas. Os objetos que estão nesses municípios representam 89% dos bens móveis do patrimônio ferroviário, que é estimado em aproximadamente 3 mil itens.

ALMG - A proteção do patrimônio cultural ferroviário é uma das frentes de atuação da Comissão Extraordinária Pró-Ferrovias Mineiras da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (AMLG). Os trabalhos se iniciaram em junho deste ano.

Já foram realizadas 13 atividades, entre visitas e audiências. A ALMG vai apresentar ao Poder Judiciário ação questionando o contrato de renovação antecipada da concessão da Estrada de Ferro Vitória-Minas (EFVM) à Vale.

Patrimônio cultural precisa ser abraçado pela comunidade

O Iphan é responsável, desde 2007, pela gestão e guarda dos bens móveis e imóveis, não operacionais, provenientes da antiga Rede Ferroviária Federal (RFFSA). São edificações e objetos que deixaram de ser utilizados nas operações e serviços inerentes ao sistema de transporte.

É atribuição do instituto promover o reconhecimento daqueles que possuem valor histórico e cultural, a fim de assegurar sua proteção, inclusive por meio de legislação específica.

A superintendente do Iphan-MG, Célia Corsino, explica que esse processo é conhecido como valoração cultural. Ela conta que, em princípio, os bens eram valorados para atender, em geral, demandas dos municípios.

A partir de 2015, o Iphan em Minas realizou estudo de toda a rede para mudar a dinâmica das avaliações, que não se pautam mais, predominantemente, no interesse eventual de gestores municipais.

Após o levantamento, foram identificados 1.580 bens imóveis em território mineiro, dentre eles as estações ferroviárias. De acordo com Célia, desse total, até o momento, cerca de 10% estão protegidos.

Sobre o percentual, aparentemente baixo, ela pondera que deve ser objeto de proteção “o que é representativo, significativo e singular do ponto de vista histórico e cultural, que se constitui como testemunho da importância do transporte ferroviário para Minas". "Nesse sentido, não fazemos valoração no atacado”, ressalta. 

Os critérios para atribuir valor cultural aos bens são determinados pela Lei Federal 11.483, de 2007. O procedimento de valoração aplica-se, exclusivamente, aos bens da extinta RFFSA. Os bens que não pertenciam à Rede, quando de sua extinção, ou que ainda são utilizados em operações do modal ferroviário não se enquadram nessa legislação. No entanto, nesses casos, podem ser objetos de tombamento (Decreto Lei 25, de 1937, aplicado a bens móveis e imóveis).

Dimensão social – Hoje o entendimento sobre os usos do patrimônio cultural foi alargado, ganhando também uma dimensão social. O imóvel pode abrigar uma biblioteca, uma escola de artífices, projetos comunitários, dentre outros, comenta Célia Corsino.

Para ela, essa nova dinâmica de trabalho permite a proteção de bens relevantes do ponto de vista histórico, mas que não possuem, às vezes, valor artístico ou não foram objeto do interesse de gestores municipais.

Ela ainda enfatiza que a destinação dos bens não precisa se restringir à criação de espaços como museus e que sua melhor chance de sobrevivência é serem abraçados por sua comunidade.

Estação abriga atividades sociais

A Estação de Lobo Leite, distrito do município de Congonhas (Central), inaugurada em 1886, abriga hoje atividades diversas da comunidade.

Os usos dados à edificação exemplificam aquele entendimento mais abrangente do Iphan do que vem a se constituir como patrimônio cultural, ganhando contornos também sociais.

Moradora do distrito há 32 anos, Sônia de Jesus Moreira lembra que, quando chegou a Lobo Leite, a estação se encontrava em situação de extrema precariedade: as telhas quebradas, cercada de mato, em estado de pleno abandono.

A recuperação da edificação foi feita em 2012 pela Prefeitura de Congonhas. A partir de então, o prédio tem sido utilizado pela associação de artesãs Pata da Loba, que vem resgatando a tradição do bordado em bainha aberta.

Há também instalada, no local, uma biblioteca. São realizadas, ainda, reuniões comunitárias e eventos culturais, como o projeto Estação da Leitura.

Sônia se reúne, diariamente, na estação, com as demais bordadeiras do distrito para produzir almofadas, forros de mesa, toalhas, dentre outros produtos, e, lá mesmo, elas expõem e comercializam os trabalhos. Para ela, as tardes no local lembram a própria infância, quando “vivia enfiada nos vagões, brincando de casinha”.

Bens ferroviários podem ser utilizados em formação de estudantes

Em julho de 2018, a cidade de Santos Dumont (Zona da Mata) agregou à sua história o feito de receber o segundo curso de Engenharia Ferroviária e Metroviária do País. Hoje, apenas o Centro Tecnológico de Joinville, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), forma engenheiros ferroviários no Brasil.

O Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sudeste de Minas Gerais – Campus Santos Dumont já contava com o curso técnico em Manutenção de Sistemas Metroferroviários.

A unidade de ensino se encontra em espaço adjacente a terreno do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (Dnit), onde estão dezenas de vagões, locomotivas, além de outros bens ferroviários, que foram alocados ali pelo próprio órgão.

Valério Lima Guedes, servidor do Dnit, disse que os equipamentos são oriundos da extinta Rede Ferroviária Federal. Ele explica que, a partir da privatização, ocorrida no final da década de 1990, os trens de passageiros foram sendo desativados. No processo, peças e componentes dos vagões e máquinas foram reaproveitados.

Daqueles que permaneceram no local, segundo Valério, alguns itens já foram cedidos para Organizações não Governamentais (ONGs), como a Amigos do Trem.

Outros estão à disposição do instituto federal, mas parcela do patrimônio ferroviário existente ali ainda não encontrou destinação definitiva.

Embora o próprio instituto reconheça que o aproveitamento desses equipamentos nas aulas ainda hoje seja limitado (de caráter apenas ilustrativo), a iniciativa de utilizar esses bens ao longo da formação de profissionais do setor reforça a ideia de que o patrimônio ferroviário pode ter usos mais diversificados.

Laboratórios – A utilização de locomotivas, carros de passageiros e das peças do maquinário será expandida. Célia Corsino, superintendente do Iphan, afirmou que cerca de 20 vagões vão ser disponibilizados aos cursos do instituto para que se tornem uma espécie de “laboratório”, permitindo o uso mais efetivo dos componentes e das estruturas.

A instituição de ensino confirma que está em negociação, com mediação do Ministério Público, a expansão do uso didático do acervo.

Trens ainda ampliam horizontes

Para Rosana Paula Martins, 18 anos, aluna do Instituto Federal de Santos Dumont, o curso técnico superou suas expectativas. Ela conta que, quando ingressou, aos 15 anos, o avô, que trabalhou na Rede Ferroviária Federal, não aprovou a opção da neta.

O universo que ele havia conhecido nas ferrovias era predominantemente masculino, e ele então pensou que o curso oferecido fosse “feito só para meninos”. Mas, ao perceber o conhecimento adquirido por ela e o seu amadurecimento, passou a apoiá-la.

A estudante, que já se prepara para apresentar o seu projeto de conclusão de curso, disse que os anos no campus exigiram muita dedicação (ela cursou o chamado integrado, que agrega ao curso técnico disciplinas do ensino médio).

Contudo, ela fala do funcionamento de motores com um largo sorriso no rosto: “É incrível entender como um motor funciona, saber desmontá-lo e montá-lo de novo, isso é mágico!”

Esta é a segunda matéria de uma série especial sobre as ferrovias mineiras. A próxima matéria será publicada no dia 16 de outubro.


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