Na reunião, a escritora moçambicana Paulina Chiziane autografou os seus livros para as participantes do evento.
Paulina abordou a origem do desequilíbrio entre os gêneros
Marília Campos disse que seu pedido para ser tratada como vice-presidenta de comissão na ALMG causou estranhamento

Literatura é apontada como lugar de resistência

Em audiência nesta quarta (11), participantes falaram da escrita literária como enfrentamento ao sexismo.

11/07/2018 - 22:10

“É longo o caminho para a liberdade, é um caminho de gerações. Às vezes perdemos, às vezes, ganhamos, mas não se pode deixar de lutar”. As palavras foram anunciadas pela escritora Paulina Chiziane, para quem, a Literatura pode ser também esse lugar de resistência. Ela participou, na tarde desta quarta-feira (11/7/18), de audiência pública da Comissão Extraordinária das Mulheres da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG).

A autora pontuou sua fala com o questionamento acerca da origem do desequilíbrio entre os gêneros. Ela explica que encontramos nas escrituras religiosas referências pejorativas à mulher. Paulina lembra que, no Antigo Testamento, Eva é retratada como uma “mulher pecadora”, a responsável pelo revés da humanidade. “Onde estavam as mulheres quando esse capítulo foi escrito? Lavando roupa ou cozinhando? Elas permitiriam essa escrita?”, se pergunta.

“Ligamos a TV e a mulher erotizada e pecadora ainda está lá”, afirma a autora, que defendeu o resgate de referências positivas da mulher não só nos textos religiosos, mas em todo e qualquer discurso. Ela ressaltou a urgência de recuperar outras imagens do feminismo e construir um contraponto a esse imaginário já arraigado culturalmente.

Para as participantes da audiência, uma dessas referências é a própria Paulina Chiziane. Além de escritora, ela atuou como ativista política. Nascida em Manjacaze (Moçambique), no ano de 1955, é reconhecida como a primeira mulher, no país, a escrever um romance: Balada de Amor ao Vento, de 1990. Sua escrita, que versa sobre liberdade e igualdade, foi reverenciada e considerada uma inspiração.

Poema de Paulina Chiziane

Tenta

Não é possível percorrer o perímetro do mundo... mas tenta!

Não é possível comer todos os frutos do planeta... mas tenta!

Não é possível beijar todas as mulheres do mundo... mas tenta!

 

Tenta segurar moedas na mão fechada por uma hora, consegues?

Tenta abraçar a pessoa amada por uma simples hora, consegues?

Tenta guardar o terreno do teu quintal dentro da gaveta, consegues?

 

Ou tenta colocar a lua no bolso para que ninguém mais veja

Coloca o rio dentro de casa para que ninguém mais beba

Segura o vento com as mãos ou tapa o sol com a peneira

 

Não consegues?

Então o mundo nunca pode ser teu!

Para Ayana Omi Amorim de Oliveira, pedagoga e militante da Juventude Negra, os contos africanos, como os de Paulina, a auxiliaram na construção de sua identidade. Ela se referiu a si mesma como “uma mulher negra, nascida da diáspora africana”.

Ela também destacou o papel de escritas literárias como as das escritoras Conceição Evaristo ou Carolina de Jesus. Para ela, os livros a aproximaram da África, que “não é apenas um território físico”, citando a própria Paulina. Ayana disse ainda que o encontro de hoje é um “sinal de resistência”.

O uso da linguagem pode provocar apagamentos

A reunião, realizada na Academia Mineira de Letras, tratou ainda do apagamento que o uso convencional da linguagem exerce em relação às mulheres. De acordo com a presidenta da comissão, deputada Marília Campos (PT), “somos invisibilizadas e submetidas na linguagem”.

Ela afirmou que a terminologia institucionalizada foi pensada e criada para discriminar. "Em nome da convenção se justifica uma gramática que foi feita para assegurar e reforçar a existência apenas do masculino”, critica a parlamentar.

A deputada contou que, ao se tornar membro da Comissão Extraordinária Pró-Ferrovias Mineiras da ALMG, solicitou que fosse tratada como vice-presidenta, o que, segundo ela, teria causado estranhamento e até mesmo questionamentos. Para ela, esse incômodo ou a tentativa de manter a terminologia protocolar é uma forma de apagar, inclusive, a representação simbólica do feminino. 

A professora da Universidade Federal Fluminense e diretora da Nandyala Editora, Iris Maria da Costa Amâncio Kamwa, falou que as tensões na língua, abarcadas aí aquelas referentes ao gênero, se dão em função do descompasso existente entre a linguagem, que é viva e dinâmica, e a gramática, um código que ainda guarda muito da visão eurocêntrica e masculina, com a qual foi concebida.

Ela conta que sua experiência com a edição de textos literários, escritos por mulheres negras, tem apontado o potencial da Literatura de provocar deslocamentos. “Há formas diferenciadas de se expressar”, essa é a lição que a escrita de mulheres tem assegurado.

Constância Duarte, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), afirmou que o termo presidenta está no dicionário e que o “estranhamento” causado pela palavra se dá exclusivamente porque os homens não estão acostumados a dividir as instâncias de poder com mulheres.

Conceição Evaristo – A candidatura da escritora Conceição Evaristo à Academia Brasileira de Letras (ABL) foi defendida pelas participantes do evento. Ela é uma das mais importantes e reconhecidas autoras do Brasil. Nasceu na Favela do Pindura Saia, região que fica na parte alta da Avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte. Em 2017, recebeu o Prêmio Governo de Minas Gerais, pelo conjunto da obra. Foi agraciada com o Prêmio Jabuti, em 2015, com 'Olhos d'água'.

Marília Campos se comprometeu a apresentar requerimento a fim de enviar à ABL manifestação de apoio à escritora. A reunião foi encerrada com apresentação do músico Sérgio Pererê.

Consulte o resultado da reunião.