A Comissão da Pessoa com Deficiência verificou a falta de piso tátil para pessoas cegas no estacionamento da rodoviária de BH
Foram cobradas intervenções emergenciais para garantir a segurança

Pessoas com deficiência enfrentam riscos na rodoviária de BH

Comissão constata vãos de até dois metros de altura em estacionamento onde passageiro cego teria caído, vindo a falecer.

23/04/2018 - 16:40

Intervenções emergenciais para garantir a segurança de pessoas com deficiência visual foram cobradas nesta segunda-feira (23/4/18) em visita feita ao Terminal Rodoviário Governador Israel Pinheiro, em Belo Horizonte, pela Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG).

O objetivo da visita ao local foi verificar as condições de mobilidade e acessibilidade oferecidas pela rodoviária da Capital, inaugurada em 1971 como o maior e mais moderno terminal da América Latina, mas que hoje necessita de melhorias dos mais diversos tipos, conforme admitiram representantes da gestão do terminal durante a visita.

O ponto crítico foi encontrado no estacionamento, que mereceu a maior atenção da comissão e de representantes de entidades que acompanharam o trajeto. Ali, o piso tátil que acompanha a faixa de pedestres na travessia de quem deixa o terminal acaba de repente, deixando perdidas pessoas com deficiência visual que transitam a pé em busca da saída para a rua.

O cenário piora nas laterais do estacionamento, que se encontra elevado em relação ao nível da rua e cujo ponto mais alto está a cerca de dois metros de altura da calçada. Não há o piso tátil apropriado, que poderia indicar o caminho mais seguro, nem barreiras físicas para impedir quedas.

Os perigos para sair da rodoviária em segurança foram demonstrados durante a visita pelo professor Ananias Moreira, do Instituto São Rafael, dedicado ao atendimento de pessoas com deficiência visual como ele.

Ananias contou que conhece bem o terminal, mas advertiu que essa não é a realidade de grande parte dos passageiros que chegam à Capital ou deixam a cidade sem conhecer previamente armadilhas que poderão encontrar pelo caminho. Segundo ele, pelo menos quatro pessoas com deficiência visual teriam sofrido quedas no local recentemente.

Relato de morte - Um dos casos que chegou ao conhecimento da comissão ocorreu na semana do Carnaval deste ano, quando um ex-aluno do São Rafael, Paulo Ribeiro, sofreu uma queda no estacionamento da rodoviária.

Segundo Ananias, as informações indicam que Paulo achou que estava chegando à rua, quando na realidade estava chegando ao fim abrupto dos limites do estacionamento, e caiu sobre a calçada.

Com a queda, ele teria quebrado a bacia, vindo a falecer dias depois em função de complicações em seu quadro de saúde.

"Nós nos orientamos muito pelos barulhos, e ele, ouvindo os barulhos de carros, deve ter achado que estava próximo à calçada e caiu", relatou Ananias.

Situações como essa levariam ao desequilíbrio quando a bengala não encontra o apoio num nível razoável, conforme observou ele.  

Precipícios, diz deputado sobre riscos de queda

"São mesmo precipícios o que vemos aqui, e isso num ponto de convergência da cidade como é a rodoviária, por onde passam pessoas de todos os lugares do Estado", constatou o presidente da comissão, deputado Duarte Bechir (PSD), que solicitou a visita.

A administração da rodoviária, contudo, garantiu que obras de melhoria estão sendo feitas no terminal há dois anos, como a implantação de banheiros e bebedouros dentro das normas de acessibilidade; sinalização de passeios; reforma do telhado, para por fim a goteiras e baldes espalhados em épocas de chuvas; e instalação de novas câmeras de monitoramento.

Está em andamento também a substituição das duas esteiras rolantes do terminal, que, paradas há 45 anos, funcionaram apenas nos dois primeiros anos de operação, conforme alguns dos dados repassados à comissão pela chefe de gabinete da Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemig), Denise Vieira.

Desde 2016 a companhia é a responsável pela gestão do terminal, que até então cabia à Prefeitura de Belo Horizonte. Passam em média pelo local 40 mil pessoas por dia e são transportados dez milhões de passageiros por ano.

"Nesses dois anos em que a Codemig está na gestão, foram investidos R$5 milhões em melhorias e modernização, mas o passivo é muito grande", relatou Denise, garantindo que a acessibilidade é um dos itens que vem merecendo atenção.

Orientação por funcionários - Sobre a instalação de grades nas laterais do estacionamento para reverter os riscos de acidentes, conforme sugerido durante a visita, ela explicou que intervenções dessa natureza demandam projetos e prazos maiores para análise, uma vez que a rodoviária é tombada pelo patrimônio histórico municipal.

Para o representante do Instituto São Rafael, a impossibilidade de obras de curto prazo não impede que a Codemig se preocupe com o atendimento humano aos passageiros com deficiência. Ananias sugeriu que fossem disponibilizados funcionários treinados para auxiliar os usuários em suas demandas específicas, o que a representante da Codemig acenou como possível em conjunto com o instituto.

O deputado Duarte Bechir apoiou as sugestões de ações emergenciais. Ele adiantou, por outro lado, que a comissão quer realizar uma audiência pública na ALMG sobre as condições do terminal e as possibilidades de intervenções concretas, tendo a Codemig como um dos órgãos convidados.

Consulte o resultado da visita.