Affonso Romano de Sant'Anna é um dos grandes nomes da literatura brasileira

Memória & Poder entrevista Affonso Romano de Sant’Anna

Programa com o escritor e poeta mineiro, que fez 80 anos em 2017, estreia neste sábado (4).

30/10/2017 - 18:59

Antes de chegarem aos livros, alguns dos principais poemas de Affonso Romano de Sant’Anna foram impressos nas capas de jornais. Não é uma coincidência. Poucos escritores possuem uma obra tão afinada com a realidade social e política brasileira. “Uma coisa é um país, / outra um ajuntamento./ Uma coisa é um país, / outra um regimento./ Uma coisa é um país, / outra o confinamento”.

Esses são os versos que abrem “Que país é este?”, talvez o poema mais conhecido do autor, publicado pela primeira vez em 6 de janeiro de 1980 no Jornal do Brasil. “Quando você fala uma coisa que interessa às pessoas – e fala direito –, elas entendem e dão suporte”, explica Sant’Anna, entrevistado do programa Memória & Poder, que estreia neste sábado (4/11/17), às 20h, na TV Assembleia.

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Apesar de ter nascido em Belo Horizonte, em 1937, Sant’Anna passou a infância e a juventude em Juiz de Fora, para que estudasse no Instituto Metodista Granbery. De família protestante, por pouco não se tornou pastor de igreja. “O dia em que comuniquei aos meus pais que não ia ser mais pastor foi uma tempestade na sala de visita. Fui para um bosque e fiquei conversando com as árvores para achar o meu caminho. Quando voltei, era um outro homem”, conta o escritor.

Retornou a Belo Horizonte no fim da década de 1950, quando se formou em Letras na UFMG e integrou a efervescente cena cultural da cidade. Fez parte do coral Madrigal Renascentista, do maestro Isaac Karabtchevsky, contribuiu com o Teatro Experimental e com o Centro de Estudos Cinematográficos. Com o golpe militar de 1964, tentou refúgio nos Estados Unidos. “O Dops de Belo Horizonte não deixou eu ir da primeira vez. Eles alegaram que eu era comunista sem qualificação. Quase fui preso por isso – comunista sem qualificação”, brinca.

Vanguarda - Nos Estados Unidos, foi professor na UCLA, em Los Angeles, e na Universidade do Texas. De volta ao Brasil, chefiou o departamento de literatura da PUC-Rio, onde organizou encontros com os principais escritores do país e apoiou o surgimento de movimentos de vanguarda na poesia brasileira. Casado com a escritora Marina Colasanti, colega de redação no Jornal do Brasil, afinou ainda mais o discurso contra o regime militar. É desta época outro texto famoso: “A implosão da Mentira”. “Mentiram-me./ Mentiram-me ontem / e hoje mentem novamente./ Mentem de corpo e alma,/ completamente./ E mentem de maneira tão pungente/ que acho que mentem sinceramente./”.

Na década de 1990, nos governos Collor e Fernando Henrique Cardoso, ficou à frente da Fundação Biblioteca Nacional. Desses tempos, lembra-se de maneira ambígua. Ao mesmo tempo em que ajudou a organizar o ProLer, programa nacional de incentivo à leitura, foi refém da burocracia do Estado. “No Brasil, na administração pública, a roda é quadrada e você precisa fazer a carruagem andar de qualquer maneira”, ironiza.

Com 80 anos completados em março, tem-se dedicado a organizar e reeditar sua obra que já ultrapassou os 60 livros. Sobre a situação do país, mantém a mesma postura crítica. “Estamos condenados a ser o país do futuro. Esse mito nos persegue. Todo país acha que vai ser o país do futuro. E não é assim. Vamos pagar pra ver”, provoca.

Reprises - O Memória & Podertem será reapresentado no domingo (5), às 15h30; segunda-feira (6), à meia-noite; e na terça-feira (7), às 21 horas.