Alunos e professores da Fundação Helena Antipoff apresentaram parte de espetáculo que será mostrado ao público em 15 de setembro, na Praça da Assembleia
O deputado Cristiano Silveira (centro) relatou que a política é a foma de mudar o mundo

Jovens devem perceber que a política está no cotidiano

Essa foi a tônica de audiência pública da Comissão de Direitos Humanos da ALMG, realizada em Ibirité.

30/08/2016 - 15:41

Denúncias de corrupção e processos como o de impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff, sob os holofotes da mídia, não resumem a política. Ela deve fazer parte do dia a dia e precisa ser despertada na juventude por meio de participação em associações de bairros, grêmios, movimentos estudantis, sociais e culturais e mesmo na internet.

Essa foi a tônica das discussões realizadas nesta terça-feira (30/8/16), durante audiência pública realizada em Ibirité (Região Metropolitana de Belo Horizonte) pela Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG).

O presidente da comissão e autor do requerimento para a atividade, deputado Cristiano Silveira (PT), afirmou que discutir o envolvimento dos jovens na política, tema da reunião, é despertar para a compreensão de que a política está relacionada a questões cotidianas, como o custo de vida, o acesso à educação e à saúde de qualidade, a compra de um sapato ou de um remédio.

“Ainda assim, o analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política”, disse o deputado, citando o texto “O analfabeto político”, atribuído ao pensador alemão Bertolt Brecht.

Falando a uma plateia de estudantes de 15 a 16 anos da Escola Sandoval Soares de Azevedo, da Fundação Helena Antipoff, local da audiência, o parlamentar afirmou se tratar de um texto que para ele “expressa muito do que é a nossa ignorância ou o desinteresse pela política”.

“Poderíamos falar aqui de assuntos como pokémon, futebol e seriados, que poderiam ser até mais divertidos, mas é desde novo que se começa a pensar e a construir o futuro”, aconselhou o deputado, para quem o jovem não só deve buscar espaços de maior participação, como também deve ter em mente que pode vir a se tornar um futuro candidato.

“Ainda que com decepções, a política é a foma de mudar o mundo. E ser candidato não pode ser privilégio dos mais ricos, de jogadores e artistas”, estimulou ele, ao relatar episódios de como entrou na vida política.

O deputado defendeu, ainda, que mais jovens conheçam os sites e páginas de candidatos e órgãos públicos, como prefeituras, câmaras e o Congresso Nacional, na internet e nas redes sociais, bem como iniciativas como o Parlamento Jovem, projeto da ALMG de educação política.

“No Parlamento Jovem, os jovens discutem e votam propostas que podem ser encaminhadas pelos deputados”, frisou ele, sobre a importância do PJ de Minas como oportunidade de debate e apresentação de sugestões para estudantes do ensino médio.

Cultura – Na abertura da reunião, alunos e professores da fundação apresentaram parte do espetáculo “Auto do Bumba meu Boi e outros folguedos”, montado em comemoração ao mês do folclore, celebrado em agosto, e que será mostrado ao público na íntegra em 15 de setembro, na Praça da Assembleia.

“A educação, assim como a arte e a cultura, é um direito humano e a cidadania se constrói entendendo que direitos têm que ser conquistados e mantidos no dia a dia”, afirmou a professora de teatro e cultura popular da escola, Carlandreia Ribeiro, ao destacar a importância também da consciência política.

Ações passam por mais grêmios e menos pessimismo

A superintendente da subsecretaria de Estado da Juventude, Bárbara Ravena, 26 anos, relatou ter iniciado sua trajetória no movimento social e estudantil e defendeu a organização dos estudantes, lembrando que a formação de grêmios estudantis, com a livre organização na escola, é assegurada em lei federal que, na sua avaliação, deveria ser aplicada por mais estudantes.

Também com mensagens de incentivo à participação política, ela manifestou a importância de os jovens não se deixarem levar apenas pelo pessimismo, que no seu entendimento tem sido apregoado pela  mídia. “A mídia do País é dividida em poucas famílias e seu poder está demonizando o tempo todo a política e um determinado partido”, criticou.

Para Bárbara, os jovens devem ainda se unir para cobrar melhorias dos políticos, vigiando os candidatos e as políticas voltadas para a juventude. Ela frisou que os movimentos como as manifestações de rua realizadas em 2013 por todo o País serviram para mostrar a importância dessa cobrança e avaliou, ainda, que a ocupação recente de escolas em São Paulo e Belo Horizonte por estudantes espelham a força da união e da cobrança da juventude.

Por sua vez, a diretora de comunicação da União Estadual dos Estudantes (UEE-MG), Scarllety Alves, acrescentou que esses são exemplos de que é preciso mudar a visão que ainda se tem do jovem. “A juventude costuma ser vista como a juventude coca-cola, que não tem interesse em nada, só em festa e rolezinho, mas queremos mais do que isso, temos nossos sonhos”, aponta.

Nesse sentido, ela defendeu a importância da juventude prestar atenção ao que está acontecendo no País e de defender a manutenção de conquistas sociais. “Sabemos que há um golpe em curso”, opinou ela quanto ao processo de impeachement da presidente Dilma.

Mordaça –  Entre algumas das participação da plateia, o estudante Henrique Oliveiras , 16 anos, se referiu ao apelido crítico de lei da mordaça dado à chamada escola sem partido, questionando se a escola não deveria ser mesmo um espaço apartidário.

Participantes como o diretor da Escola Estadual dos Palmares, Eduardo Santos Araújo, ponderaram que o movimento escola sem partido, tema de projeto que tramita no Congresso, pode vir a ser prejudicial se vier a tirar a possibilidade de se discutir política na escola. “O ser humano já nasce político, o bebê chora para convencer a mãe a dar comida, e isso é política”, comparou.

Defendendo que, por questão ética, o professor não incorra no partidarismo em sala de aula, Eduardo disse, contudo, que vê riscos com a escola sem partido da forma como vem sendo desenhada no País. “Será uma lei destinada a calar uma voz específica, que é a voz das minorias, dos pobres, dos negros e das mulheres, porque da voz da maioria a mídia já cuida”, criticou.