A Mesa de Negociação contou com a participação de representantes dos moradores das localidades atingidas em todo o Vale do Rio Doce

Vítimas de rompimento de barragem temem nova tragédia

Deputados participaram, em Mariana, de Mesa de Negociação entre famílias lesadas e representantes da mineradora Samarco.

18/11/2015 - 18:30

Deputados da Comissão Extraordinária de Barragens da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) participaram, nesta quarta-feira (18/11/15), da reunião da Mesa de Negociação entre representantes da mineradora Samarco e as vítimas do rompimento da barragem do Fundão, em Mariana (Região Central). A reunião foi coordenada pelo presidente da Companhia de Habitação do Estado de Minas Gerais (Cohab), Claudius Vinícius Pereira, e contou com a participação de representantes dos moradores das localidades atingidas em todo o Vale do Rio Doce, do Movimento dos Atingidos pelas Barragens (MAB), da Prefeitura de Mariana, da Defensoria Pública e do Ministério Público, entre outros órgãos governamentais.

O medo de uma nova tragédia e o desconforto de estar reclusas há dias em quartos de hotéis foram as queixas mais repetidas pelas vítimas do desastre. Waldir Pollack, morador de Paracatu de Baixo, distrito de Mariana, disse estar aterrorizado. “Continuo em Paracatu, mas há uma outra barragem para romper. Posso ficar lá? Ou à noite vem uma outra enxurrada?”, questionou. O risco de rompimento das barragens de Santarém e Germano, também de propriedade da Samarco, foi admitido pela própria empresa, que estimou em três meses a duração das obras para evitar outro desastre. Por esse motivo, a Comissão Extraordinária da ALMG irá visitar essas barragens nesta quinta-feira (19), a fim de averiguar as providências que estão sendo tomadas.

Para os moradores de Bento Rodrigues, que foram abrigados em hotéis pela Samarco, a ansiedade maior é por recuperar suas casas, vidas e renda. Antônio Martins Quintão escapou da inundação apenas com o carro, que usou para retirar às pressas idosos que viviam na localidade. “Foram 47 anos de história que você constrói e, em oito minutos, vai tudo embora. O que é mais importante é tirar as pessoas que estão presas dentro de um hotel, como eu estou”, queixou-se.

Irmã de Antônio, Teresinha Quintão Silva não perdeu a casa, uma das poucas que permanece de pé. Ainda assim, não quer continuar no local. Quer apenas voltar lá para recolher pertences e documentos, mas se queixa que ainda não foi autorizada pela Samarco. “Preciso fazer uma cirurgia em Belo Horizonte e não tenho documentos”, afirmou. Outra queixa das famílias prejudicadas é que elas ainda não receberam qualquer pagamento da mineradora. Sandra, irmã de Teresinha, está pagando suas contas com os salgados que está fazendo na cozinha do hotel onde foi hospedada.

Samarco contabiliza mais de 1.200 desabrigados

O secretário de Desenvolvimento Social e Cidadania do município de Mariana, João Paulo Paranhos, afirmou que a prefeitura e a Samarco iniciaram na última terça (17) a transferência das famílias dos hotéis para casas e apartamentos alugados. “As primeiras cinco famílias foram transferidas ontem e outras nove estão sendo transferidas hoje”, afirmou. Segundo ele, a prefeitura já cadastrou 293 famílias atingidas pelo desastre, em um total de 954 pessoas. Dessas, 545 são de Bento Rodrigues, 334 de Paracatu de Baixo e as demais de diversas localidades menores. Os números, de acordo com o secretário, ainda estão aumentando. Dados da empresa Samarco, que abrangem um número maior de municípios, indicam que os desabrigados são 1.265.

O coordenador de Desenvolvimento Sócio-Institucional da Samarco, Estanislau Klein, afirmou que a empresa já realizou na última terça (17) uma reunião com os representantes das famílias atingidas e que, entre outras medidas, foi definido o pagamento de uma renda emergencial de um salário-mínimo por família, mais 20% do salário-minimo para cada dependente. O pagamento será feito por um cartão que será disponibilizado em 12 dias úteis, contados também a partir da terça (17), apenas para as famílias de Mariana. Questionado se esse valor não seria muito baixo, Klein disse que ele pode ser revisto, de acordo com o andamento das negociações com as famílias e o Ministério Público. Isso também deve ser estendido às famílias de outros municípios.

A prioridade hoje, segundo o representante da Samarco, é a transferência das famílias desabrigadas para casas e apartamentos alugados, a fim de que elas possam retomar a normalidade de suas vidas. Klein disse que a empresa disponibilizará a casa, com móveis e um enxoval. A partir daí, se iniciará a negociação para instalação definitiva dessas famílias.

Alguns dos integrantes das famílias lesadas, que participaram da reunião, se disseram surpresos com a ausência de outros moradores que eles mesmos elegeram para representá-los. Já os integrantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) se queixaram que estavam sendo impedidos de entrar nos hotéis alugados pela Samarco e conversar com as vítimas. Joceli Andrioli afirmou que há uma tentativa de se jogar as famílias atingidas contra o MAB. O movimento levou ao encontro desta quarta moradores de outros municípios do Rio Doce, que também foram prejudicados pelo desastre. Um exemplo é uma comunidade de pescadores do município de Periquito, que perderam sua fonte de renda. Estanislau Klein negou que a Samarco esteja impedindo a associação das vítimas ao MAB. "Não há nenhuma atuação da Samarco nesse sentido”, garantiu.

Deputado defende solução coletiva para Bento Rodrigues

O deputado Rogério Correia (PT), relator da Comissão Extraordinária das Barragens, ressaltou a necessidade de se reinstalar as famílias de Bento Rodrigues em uma localidade onde eles possam retomar suas atividades agrícolas e manter a convivência. “A empresa não pode fazer uma negociação individualizada. É preciso reunir todos e ter uma solução coletiva. Eles querem um local para ficar, outra terra, outra comunidade para eles viverem”, afirmou.

O deputado Celinho do Sinttrocel (PCdoB), que também integra a comissão, cobrou da Samarco um plano de saúde para as famílias atingidas pelo desastre, uma vez que várias delas enfrentam problemas, inclusive traumas psicológicos. Ele também cobrou que a Samarco garanta a seus trabalhadores efetivos e terceirizados a estabilidade de emprego, a fim de que eles não se tornem novas vítimas nesse episódio. O deputado também ressaltou a necessidade de se adotar novos métodos na indústria da mineração, abolindo o uso de barragens de rejeitos como as que ameaçam Mariana.

Rogério Correia afirmou ainda que, no relatório a ser produzido pela Assembleia, serão sugeridos valores adequados para que haja recuperação de todo o dano ambiental gerado pelo rompimento da Barragem do Fundão. Ele considerou insuficiente o fundo inicial de R$ 1 bilhão, que foi negociado entre o Ministério Público e a Samarco para essa finalidade, recurso que deverá permanecer em uma conta gerenciada pela própria empresa. “Isso não pode ficar em R$ 1 bilhão, nos cofres da própria Samarco. Isso vai ter que ser revisto. Só para recuperar as nascentes do Rio Doce, o cálculo é que sejam necessários R$ 5 bilhões”, declarou, referindo-se a projeto desenvolvido pelo fotógrafo Sebastião Salgado, nativo da região.