Hospital São José acumula déficit de R$ 16 milhões

Atraso no pagamento a fornecedores, residentes sem salários há três meses, professores em greve, estudantes sem pagar...

28/10/2003 - 00:00
 

Hospital São José acumula déficit de R$ 16 milhões

Atraso no pagamento a fornecedores, residentes sem salários há três meses, professores em greve, estudantes sem pagar mensalidades. Essa é apenas uma amostra do caos que se instalou no Hospital Universitário São José, em Belo Horizonte, que culminou com o fechamento do pronto-socorro da instituição no início deste mês, quando deixaram de ser atendidas cerca de 400 pessoas por dia. A crise no hospital foi discutida pela Comissão de Saúde da Assembléia de Minas nesta terça-feira (28/10/2003).

A redução do atendimento de urgência é reflexo da crise financeira vivida pelo hospital, que foi explicada pelos representantes da Fundação Educacional Lucas Machado (Feluma), mantenedora da instituição e da Faculdade de Ciências Médicas. A defasagem da tabela SUS foi apontada como uma das principais causas do déficit do hospital, já acumulado em R$ 16 milhões. Uma cirurgia ortopédica de joelho, por exemplo, custa R$ 2.976, mas o SUS repassa apenas R$ 1.120 pelo procedimento. "Todos os procedimentos feitos pelo SUS dão prejuízo, à exceção dos transplantes. Como conviver com essa tabela, que gerou um déficit de R$ 6 milhões só com fornecedores?", questionou o diretor-geral do hospital, Fábio Botelho de Carvalho. Cerca de 90% dos atendimentos do hospital são feitos pelo SUS.

Mas a baixa remuneração do SUS não é a única dificuldade enfrentada pelo hospital. O governo do Estado deixou de repassar à instituição cerca de R$ 800 mil de um convênio firmado no ano passado. E, neste ano, outro convênio, que determinava o repasse de R$ 100 mil por mês, foi descumprido. Até julho, o hospital havia recebido da Secretaria de Estado da Saúde apenas R$ 200 mil. "Essa situação é insustentável e virou uma bola de neve. O hospital corre o sério risco de fechar as portas", alertou o diretor financeiro da Feluma, Sérgio Bruno Zech Coelho.

Para complicar a situação, o volume de recursos recebidos da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) foi reduzido desde o lançamento do Pró-Hosp, programa de fortalecimento dos hospitais lançado recentemente pelo governador Aécio Neves. "Tive o desprazer de entrar num salão para aplaudir, com toda pompa e circunstância, um projeto anunciado como a salvação dos hospitais, mas que reduziu os recursos repassados via SMS de R$ 250 mil para R$ 130 mil mensais", desabafou o presidente da Feluma, Lucas Viana Machado.

Atualmente, os repasses da SMS para o hospital somam R$ 290 mil por mês, sendo que R$ 130 mil vêm do Pró-Hosp e outros R$ 160 mil do Fideps, fundo do governo federal para auxiliar instituições universitárias. "Essa soma (R$ 290 mil) não é reajustada há quatro anos. Será que o Estado e a PBH sobreviveriam hoje com o mesmo orçamento de quatro anos atrás?", alfinetou o diretor clínico do hospital, Estêvão Urbano Silva.

Estado e prefeitura pressionam hospital

Os representantes do hospital reclamaram da pressão que vêm sofrendo das secretarias de Estado e municipal da Saúde para mudar a gestão administrativa da instituição. Um plano de reestruturação e introdução de novos serviços foi elaborado, mas com essa reforma, segundo Sérgio Coelho, as verbas do hospital seriam reduzidas. "Não existe condição de implementar esse projeto pela total indisponibilidade de recursos", acrescentou. Já a SMS, segundo Fábio Carvalho, insiste que a rede municipal é capaz de absorver a demanda dos serviços de urgência que fecharam nos últimos meses, e acusa os hospitais de má gestão dos recursos. "Fazemos mágica de gestão e, mesmo assim, conseguimos prestar atendimento de qualidade para a população mais pobre", rebateu.

Os deputados se comprometeram a ajudar os hospitais na luta por mais recursos. "Temos a responsabilidade de cobrar dos gestores solução para esses problemas. Não podemos assistir de braços cruzados ao fechamento dos hospitais", disse o deputado Carlos Pimenta (PDT). Já o deputado Fahim Sawan (PSDB), que pediu a realização da reunião, disse estar indignado com a situação relatada pelos convidados. "Não acredito quando se diz que não tem importância um hospital do porte do São José fechar as portas", afirmou. E o presidente da comissão, deputado Ricardo Duarte (PT), disse que as dificuldades financeiras do SUS não são motivo para deixar de buscar uma solução para o sistema. Ele adiantou que a bancada federal de Minas vai incluir nas emendas ao orçamento da União para o ano que vem R$ 30 milhões que serão destinados aos hospitais universitários.

Requerimentos - Foram aprovados cinco requerimentos, de autoria dos três deputados presentes, para que a comissão continue discutindo soluções para os problemas dos hospitais da capital. Um deles pede a realização de audiência pública para discutir a gestão dos hospitais com representantes das secretarias estadual e municipal de saúde, dos principais hospitais que prestam atendimento pelo SUS e de entidades de classe representativas dos médicos e hospitais. Outros dois requerimentos pedem o envio de correspondência à Secretaria de Estado da Saúde pedindo o pagamento dos valores acertados nos convênios firmados com o Hospital São José. E outros dois vão pedir à SMS que aumente os repasses de recursos para o hospital.

Também foi aprovado requerimento da deputada Vanessa Lucas (PSDB).

Raio-x do Hospital São José

136 leitos de atendimento geral

nove leitos de CTI

5 mil internações/ano

3,6 mil cirurgias/ano

120 mil consultas ambulatoriais/ano

102 exames laboratoriais/ano

sete residências médicas

primeiro serviço especial de atendimento ao idoso em Belo Horizonte, instalado em junho de 2000

cerca de 500 funcionários

40 residentes

Presenças - Participaram da reunião os deputados Ricardo Duarte (PT), presidente; Fahim Sawan (PSDB), vice; e Carlos Pimenta (PDT). Também estiveram presentes o coordenador do serviço de anestesiologia do Hospital São José, Paulo César Abreu Sales; a representante dos funcionários da instituição, Maria da Conceição de Oliveira; o representante dos residentes, Thiago Henrique Diniz Gonçalves; e o vice-presidente da Associação dos Hospitais de Minas Gerais, Francisco de Souza Lima.

 

 

 

 

 

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