Crise na cafeicultura afeta Minas, o maior produtor
brasileiro
Na primeira reunião aberta da Comissão Especial da
Cafeicultura Mineira, os cinco deputados titulares acertaram nesta
quinta-feira (18/9/2003) a programação de trabalhos e uma agenda de
audiências públicas nas cidades de Machado, Monte Carmelo, Capelinha
e Manhuaçu, escolhidas nas quatro principais regiões produtoras. O
presidente, deputado Paulo Piau (PP), definiu que a Emater, a Faemg,
a Fiemg, a Fetaemg, a Sociedade dos Agrônomos e a Secretaria de
Desenvolvimento Econômico terão assento permanente na Comissão. Os
convidados expositores traçaram um quadro sombrio da realidade do
setor e das perspectivas futuras no cenário internacional.
Célio Floriani, presidente da Companhia de Armazéns
e Silos (Casemg), informou que o Brasil lidera o ranking com 32% do
café produzido no mundo e a Colômbia ocupa o 2º lugar, com 11%.
Contudo, nosso país já foi responsável por 80% café consumido no
planeta, e conseguia preços acima de US$ 170 a saca. Hoje o preço
está em US$ 52 e o consumo mundial está em queda. Floriani disse
ainda que os Estados Unidos, a Alemanha e o Brasil juntos consomem
40% do café mundial, o que significa que o resto do mundo representa
um grande potencial de conquista de novos mercados.
Marcos Fabri Jr, da Emater de Lavras, falou sobre o
empobrecimento do setor, decorrente de uma crise que há dura quatro
anos. "Há excesso de estoque nos países importadores, e está
ocorrendo um massacre do setor produtivo". Para Fabri, o Brasil tem
a imagem de um velho produtor, com grandes volumes e baixa
qualidade, numa época em que o mundo quer comprar cafés de alta
qualidade e pagar altos preços. "Faltam terreiros, faltam lavadoras
e casas de máquinas para melhorarmos a qualidade", reclamou.
Produtor embolsa apenas 2%
Minas Gerais sozinha detém 52% da produção nacional
de café. Se fosse um país, seria o maior produtor mundial. O segundo
colocado é o Espírito Santo, seguido por São Paulo, Paraná e Bahia.
A produtividade em 2002 foi de 21 sacas por hectare, mas é possível
chegar a 40, segundo os técnicos. Os mineiros consomem o produto
quase que exclusivamente na forma de bebida, sendo que há mais de
400 produtos com base no café. Por isso, 91% da produção mineira é
exportada para outros Estados e países.
O professor da Universidade Federal de Viçosa,
Alberto Martins Rezende, lançou outro dado preocupante: apenas 2% do
preço de uma xícara de café vendida na Europa vai para o produtor. O
mercado mundial é controlado por poucos importadores que criaram um
cartel e impõem preços. Quando o preço cai, não cai para o
consumidor, num jogo especulativo que só interessa ao
intermediário.
Rodrigo Pontes, da Sociedade Mineira dos
Engenheiros Agrônomos, acrescentou a questão do crédito escasso, que
agrava o empobrecimento da classe produtora. "Antes de falarmos em
agregar valor, é preciso tratar de agregar renda ao produtor. Isso
vai exigir um posicionamento forte do governo do maior Estado
produtor nacional diante de quem decide as políticas públicas em
Brasília.
João Roberto Puliti, diretor da Faemg, bateu na
mesma tecla e assinalou que o Governo de Minas tem mostrado
interesse. Puliti propôs a mobilização de um número expressivo dos
cafeicultores nas audiências públicas marcadas pela comissão.
Marketing agressivo pode reavivar o interesse
mundial pelo café
Rubens Guimarães, da Universidade Federal de
Lavras, assegurou que as universidades estão em condições de
colaborar no desenvolvimento das potencialidades da cafeicultura,
levando tecnologia ao campo, ensino à distância e treinamentos para
diminuir o custo de produção. "Temos a melhor tecnologia em café do
mundo", afirmou, sugerindo ações agressivas de marketing em escala
mundial para reavivar o interesse pelo produto.
Deputados apóiam - O
deputado Dalmo Ribeiro Silva (PSDB) apoiou as reivindicações,
argumentando que 4 milhões de mineiros vivem da cadeia produtiva do
café, atividade que corresponde a 73% do agronegócio em Minas. Luiz
Humberto Carneiro (PSDB) afirmou que é preciso encontrar meios para
que a cafeicultura seja boa para o produtor, o consumidor e a
economia mineira. Laudelino Augusto (PT) destacou que 80% da
produção de café em Minas vem da agricultura familiar, e falou sobre
o alto preço dos cafés especiais, principalmente o café orgânico. O
deputado José Henrique (PMDB) lembrou que, na sua infância, todas as
crianças tinham o hábito de tomar café, mas nos anos que se seguiram
vários produtos o substituíram no lanche matinal.
Requerimento - Ao final da
reunião, os deputados aprovaram requerimento do deputado Domingos
Sávio (PSDB), solicitando ao secretário de Estado da Agricultura a
realização de convênio com o Ministério da Agricultura para o
cadastramento do agronegócio do café no Estado de Minas Gerais,
registrando área plantada, características das lavouras, dados dos
produtores, cooperativas, indústrias e outros aspectos necessários
ao planejamento e superação dos problemas que afetam o setor.
Presenças - Participaram
da reunião os deputados Paulo Piau (PT), presidente; Laudelino
Augusto (PT), vice; Dalmo Ribeiro Silva (PSDB), José Henrique
(PMDB), Luiz Humberto Carneiro (PSDB), Doutor Viana (PFL), Domingos
Sávio (PSDB).
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