Virgílio Guimarães defende reforma tributária para justiça
social
Ao falar sobre a reforma tributária encaminhada
pelo Governo Federal, através da Proposta de Emenda à Constituição
(PEC) 41/2003, ao Congresso Nacional, o deputado federal Virgílio
Guimarães (PT/MG) afirmou nesta terça-feira (17/6/2003) que o
objetivo é fazer justiça social e tributária, além de garantir
recursos para a implantação de políticas sociais. O deputado, que é
o relator da PEC, foi o primeiro expositor do segundo dia do
Seminário Legislativo "Minas na Reforma Tributária", realizado pela
Assembléia Legislativa de Minas Gerais.
Virgílio Guimarães disse que o envio da PEC 41 foi
o primeiro passo da reforma, o que altera a parte constitucional, e
que o resto virá ao longo do ano com as mudanças na legislação
infraconstitucional, por meio de leis complementares, leis
ordinárias, decretos e portarias. Mas garantiu que o principal está
sendo feito agora, que é garantir o apoio político para as mudanças,
viabilizado no acordo com os governadores e empresários.
Herança tributária indica sistema voraz
O deputado lembrou que o sistema tributário
brasileiro é baseado na voracidade da União, que concentra toda a
arrecadação dos tributos, sem redistribuí-los. Afirmando que nos
últimos 10 anos o governo federal fez uma contra-reforma para
centralizar cada vez mais a arrecadação, como contraponto à
Constituição da República de 1988, que repassou para Estados e
municípios parte dessa competência, Virgílio Guimarães disse que
houve um aumento da carga tributária do País, de 10% em relação ao
PIB.
A União retomou muitos dos impostos municipais e o
aumento da tributação teve como único objetivo cobrir os rombos do
déficit público, sem qualquer filosofia redistributiva, segundo
Virgílio Guimarães. Com este cenário, o atual governo pretende fazer
justiça social, bem como redividir a riqueza gerada no País,
proporcionando crescimento do setor produtivo, sem mais ônus. A
reforma pretende atacar de frente, ainda de acordo com o deputado, o
"atoleiro da economia brasileira", que é o custo financeiro da
produção.
Para que a reforma tenha sucesso, junto com a
reforma da Previdência, de acordo com Virgílio Guimarães, é preciso
dar condições de sustentabilidade das finanças públicas de estados e
municípios, possibilitando um novo modelo econômico. Ele rebateu as
críticas do presidente da Comissão Especial sobre o Sistema
Tributário, deputado federal Mussa Demes (PFL/PI), que em sua
apresentação na segunda-feira (16), no Seminário, classificou a
iniciativa do governo como "tímida". Segundo Virgílio, esta é a
reforma possível, porque "a pior reforma é reforma nenhuma". E
acrescentou: " No Brasil, quem paga imposto são os pobres".
Principais pontos do projeto do governo
Virgílio Guimarães discorreu rapidamente sobre as
principais alterações contidas na PEC 41:
- Uniformização das alíquotas e das normas do ICMS
(Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), com a
federalização da legislação;
- Tributação progressiva sobre o patrimônio
(Imposto sobre Grandes Fortunas);
- Substituição da CPMF (Contribuição Provisória
sobre Movimentação Financeira) por outro tributo que reduza
gradualmente a atual alíquota de 0,38%;
- Transferência do ITR (Imposto Territorial Rural)
da União para os Estados e Municípios;
- Mudanças em outros tributos como Cofins
(Contribuição para o Financiamento da Segurança Social), ITBI
(Imposto sobre Transmissão Inter Vivos de Bens Imóveis).
Reforma continua a receber críticas
O representante da Secretaria de Estado da Fazenda,
Antônio Eduardo Macedo Soares Leite Jr, responsável técnico pela
reforma tributária em Minas, também classificou a reforma federal de
"tímida", mas concordou que é a possível. Para ele, o problema está
nas mudanças propostas para o ICMS. "Minas tem 70% de sua receita
originada no ICMS. Com a uniformização e normatização das alíquotas,
haverá perda de receita num primeiro momento", avaliou.
Ele sugeriu que as Assembléias estaduais fiquem
responsáveis por alterar parte das leis, sobretudo na definição das
alíquotas, para que não haja perda de receita. Antônio Eduardo
afirmou, ainda, que a proposta do relator Virgílio Guimarães, de
cobrança do ICMS na origem ou destino, na base de dois por um, ou
seja, duas cotas para a origem e uma para o destino, é mais justa,
por equilibrar mais para Estados como Minas e São Paulo, grandes
produtores de bens primários e industrializados.
Federalização - Mesmo
admitindo que a reforma resultará em perda de competência e
autonomia para os Estados, com relação à federalização do ICMS, o
representante do governo estadual acredita que os grupos que estão
trabalhando na proposta vão acatar as sugestões que estão sendo
encaminhadas. Ele pediu ainda que a emenda contemple sanções para o
não-cumprimento das alíquotas uniformizadas.
O presidente da Federação da Agricultura do Estado
de Minas Gerais (Faemg), Gilman Viana Rodrigues, disse que a reforma
não esclarece aos empresários se é aumento da carga ou da base
tributária. E pediu aprimoramento da metodologia, para "que as
soluções mágicas que vão beneficiar os pobres não sejam só
marketing". Gilman Rodrigues disse que não é possível administrar o
País sem olhar para o mundo, numa referência à compatibilização
entre o que se está propondo e o que o mercado internacional está
praticando.
Para Fiemg, reforma vai aumentar carga
tributária
No segundo dia do Seminário "Minas na Reforma
Tributária", nesta terça-feira (17/6/2003), o representante da
Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), Edwaldo Almada
Abreu, tentou provar que a proposta do governo federal aumentará,
sim, a carga tributária no país, principalmente por causa das
mudanças previstas no ICMS. Edwaldo Almada alertou para um detalhe
que, segundo ele, está passando desapercebido: a inclusão da palavra
"bem" na base de tributação do imposto. O texto da reforma, contido
na PEC 41/2003, que tramita no Congresso, deixa claro que o ICMS
incidirá sobre "mercadorias, bens ou serviços".
Na opinião de Edwaldo Almada, que é presidente do
Conselho de Política Tributária da Fiemg, o sistema tributário
brasileiro é o mais complexo, burocrático e injusto que existe, e a
proposta do governo não muda muito esse quadro. Segundo ele, o novo
texto permite que o ICMS também seja cobrado do cidadão comum que
vender um carro ou geladeira usada, por exemplo. A cobrança em cima
de "bens" de toda espécie elevaria a arrecadação do imposto em 10%,
20%, 30% ou 40%, de acordo com o empresário.
Caviar - Outro problema
apontado pelo empresário na proposta do governo é a existência de
diferentes categorias de alíquotas para o imposto, sem regras claras
para a definição delas. "Quando se quiser beneficiar um ou outro
Estado, bastará promover um produto, bem, mercadoria ou serviço a
uma outra categoria de alíquota, e então o buraco orçamentário
daquele Estado será coberto", criticou. Segundo Almada, no governo
Fernando Henrique Cardoso a pasta de caviar teve sua alíquota
reduzida de cerca de 70% para 7%, como se fosse produto de consumo
básico, sem que ninguém soubesse o porquê da medida.
Tributarista critica efeitos da reforma
O membro da Academia Brasileira de Direito
Tributário e representante da Fecomércio-MG, José Eustáquio
Passarini de Resende, também criticou a proposta do governo, cujos
efeitos, na opinião dele, serão perversos para a sociedade. "Talvez
a idéia tenha até tido um cunho social, mas o resultado certamente
não terá", alertou. Segundo Passarini, a virtude da proposta é
unificar a legislação do ICMS, mas a desconstitucionalização de
alguns princípios básicos que norteiam a cobrança do imposto pode
colocar tudo a perder.
José Eustáquio Passarini afirma que não se pode
tirar da Constituição o princípio da não-cumulatividade do imposto e
jogar a questão para legislação complementar. "Assim, perdemos a
possibilidade de levar o assunto aos tribunais e a situação só vai
piorar", ponderou. O tributarista condena o texto da reforma, mas
diz que não basta deixar a Constituição como está. Na opinião dele,
é preciso escrever de forma clara e inequívoca que o princípio da
não-cumulatividade é "amplo, geral e irrestrito".
O número de alíquotas do ICMS limitado a cinco é
outro ponto negativo, na opinião dele. Segundo o representante da
Fecomércio, não se pode aplicar a seletividade de forma a gerar mais
produção e investimento com essa limitação. Ainda segundo José
Eustáquio Passarini, não há, no texto da reforma, nenhuma garantia
de que os produtos da cesta básica serão desonerados. De acordo com
ele, o momento político é ideal para se fazer uma reformulação
profunda do sistema tributário nacional, mas o governo estaria se
esquecendo de detalhes técnicos importantes, em virtude da urgência
de se aprovar o texto da reforma.
Municípios continuarão prejudicados com a reforma
tributária
O presidente da Federação Mineira das Associações
Microrregionais de Municípios (Femam), José Fernando Aparecido de
Oliveira, reconheceu, na manhã desta terça-feira (17/6/2003), que a
proposta de reforma tributária atende a algumas das reivindicações
dos prefeitos brasileiros, com as mudanças na cobrança do Imposto
sobre Transmissão de Bens Imóveis (ITBI) e a vedação de benefícios
fiscais via renúncia de receita do ICMS. Mas, na opinião dele, os
municípios continuam prejudicados. "É preciso aumentar a
participação dos municípios no bolo tributário", reclamou. Segundo
ele, o que existe hoje é um engessamento do orçamento municipal, o
que inviabiliza até investimentos em saúde e saneamento básico.
José Fernando Aparecido foi um dos palestrantes do
Seminário Legislativo "Minas na Reforma Tributária". Ele fez uma
análise da reforma sob a ótica dos municípios, listando pontos que
já foram acordados com o governo federal e outros onde o consenso
ainda não foi possível. Em documento da Confederação Nacional dos
Municípios (CNM), os prefeitos também reivindicam o poder de
legislar sobre o Imposto Territorial Rural (ITR) e sobre o Imposto
de Transmissão Causa Mortis e Doações (ITCD). "Temos condição
instrumental e capacidade de arrecadar tributos tanto urbanos quanto
rurais, isso não pode ser ignorado", afirmou.
Outras fontes de arrecadação - Os prefeitos também reivindicam uma reforma
tributária que aumente a participação dos municípios na arrecadação
do IPVA e possibilite a participação nas chamadas "contribuições
sociais", cuja incidência vem sendo ampliada pela União nos últimos
anos, como a Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido (CSLL) e
Cofins.
Pacto federativo também no momento de arrecadar
tributos
O presidente do Sindicato dos Fiscais e Agentes
Fiscais de Tributos de Minas Gerais (Sindifisco-MG), Antônio de
Pádua Silva, também defendeu a causa municipalista. Segundo ele, o
pacto federativo deve existir também no momento de arrecadar
tributos, e não apenas na hora de prestar o serviço à população. "O
atual sistema é imoral e não favorece o desenvolvimento da
cidadania", disparou. Na opinião de Antônio de Pádua, o fato de
pagar impostos de forma embutida nos produtos e serviços é nociva à
sociedade. "O cidadão paga os impostos sem saber o que está pagando,
e quando o governo faz uma obra, ele pensa que é um favor",
afirmou.
Baseado na proposta de reforma tributária, o
representante do Sindifisco diz não acreditar no compromisso do
governo com a produção e o desenvolvimento do País. Na opinião dele,
enquanto não se inverter radicalmente a forma de cobrança dos
impostos, nada vai mudar. Ele informou que 66% dos tributos incidem
sobre o consumo, penalizando a população de baixa renda. "Também
votei no Lula, acredito na boa intenção dele. Por isso, acho que ele
não pode apenas ficar remendando um sistema criado durante a
ditadura militar", concluiu.
Virgílio garante que não haverá aumento da carga
tributária
Na fase de debates do Seminário Legislativo "Minas
na Reforma Tributária", ao responder questionamento do prefeito de
Buritis, José Vicente Damasceno, o deputado federal Virgílio
Guimarães (PT) disse que a recuperação do ICMS também irá beneficiar
os municípios. Segundo ele, propostas práticas e concretas são
sempre bem-vindas e ainda poderão ser anexadas ao seu parecer sobre
a reforma tributária. "Estamos pensando na questão dos municípios,
sim, mas não poderíamos fazer nada muito brusco, que desequilibrasse
as finanças da União", lembrou.
Virgílio Guimarães afirmou que a reforma tributária
deve ser politicamente viável e explicou que ela incide,
principalmente, no tributo ao patrimônio de maneira progressiva.
Segundo ele, essa medida contribuirá para a redução dos impostos
indiretos. O deputado também citou pontos da reforma que serão
essenciais para a redução da carga tributária, como a correção do
ICMS e a unificação das alíquotas.
Respondendo a outros questionamentos, Virgílio
Guimarães disse que a reforma ideal seria aquela que instituísse um
imposto único, mas é preciso fazer a reforma possível, no momento,
para caminhar em direção ao que seria o ideal. Ele ressaltou, ainda,
a importância de se diminuir o custo jurídico do sistema tributário,
o que é um dos focos da proposta de reforma em discussão no
Congresso Nacional; além de se criar condições para melhorar o
combate à sonegação, evitando-se a concorrência desleal, "que é um
entrave para o desenvolvimento".
O deputado federal disse está disposto a
acrescentar ao relatório da PEC 41/2003 as diretrizes sobre fixação
das alíquotas, para garantir que não haja aumento na carga
tributária após a reforma. Segundo ele, tudo o que foi proposto até
agora está apenas no nível constitucional e nada foi dito sobre
aumento de alíquotas.
TV Assembléia - O
Seminário "Minas na Reforma Tributária" será retransmitido pela TV
Assembléia nos dias 19 de junho, às 14 horas; 20 de junho, às 14
horas; e no dia 21 de junho, às 12 horas.
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