Professor defende conjunto de referências simbólicas para movimentos sociais

As dimensões cultural e simbólica dos movimentos que se contrapõem ao discurso neoliberal, imposto aos países perifér...

30/08/2001 - 17:48


 Professor defende conjunto de referências simbólicas para movimentos sociais

 

As dimensões cultural e simbólica dos movimentos que se contrapõem ao discurso neoliberal, imposto aos países periféricos pelas nações desenvolvidas, foi o eixo principal da exposição do professor da Faculdade de Economia da UFMG, João Antônio de Paula, durante a segunda etapa da programação do "Fórum Minas por um Outro Mundo".

O professor argumentou que, em primeiro lugar, é fundamental que os participantes dos movimentos sociais entendam que não existe uma solução solitária, mas solidária. "Não vamos fazer nada sozinhos, temos de ter capacidade para construirmos uma solução coletiva e a consciência de que essa, como dizem as lideranças zapatistas (Movimento de Libertação da Província do Chiapas, no México), é uma luta da civilização contra a barbárie"- advertiu o professor.

Para a construção dessa consciência e internacionalização dos movimentos locais, tornando-os sólidos e consistentes, João Antônio de Paula propõe a construção de um conjunto de referências culturais e simbólicas que deverão iluminar essa caminhada. "E essas referências - disse ele - nascem da luta secular de libertação do continente latino americano, que agora deve ter sua história resgatada para referenciar os movimentos sociais".

O professor citou vários nomes da história dos países latinoamericanos que deveriam ser revisitados, como o peruano Tupakamaro, o venezuelano Bolívar e o cubano José Martin, além dos brasileiros, Zumbi, Tiradentes, Antônio Conselheiro e Chico Mendes, líderes de importantes movimentos sociais no continente.

Capitalismo está driblando uma nova crise

Mesmo que os números que dão dimensão à exclusão social no mundo globalizado não sejam indicadores de uma nova crise do capitalismo, que é determinada, sim, pela interrupção do processo de acumulação de capital, existem outros elementos estruturais que apontam para uma crise iminente do sistema. O economista César Benjamim, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), fez uma síntese sobre essas condições, a partir de uma análise da própria dinâmica de funcionamento do sistema capitalista.

"Existem três grandes anomalias dentro deste sistema que nos ajudam a compreender qual a força que hoje impede que essa crise iminente se transforme numa crise real" - observou o professor. A primeira anomalia está relacionada com a performance da economia norte-americana, que funciona de uma forma extremamente deficitária. Para se ter uma idéia, no período de 1998 a 1999, o Brasil, que está entre as 10 primeiras economias do mundo, registrou um déficit comercial em torno de US$ 8 bilhões. Os Estados Unidos vem contabilizando, nos últimos anos, um déficit anual de US$ 300 bilhões e, no ano passado, ele chegou a US$ 400 bilhões.

"Se houvesse uma lógica dentro deste sistema, o Fundo Monetário Internacional (FMI), criado para intervir nos países em momentos de desequilíbrio, deveria estar desembarcando em Washington e não em Brasília. Então, este é um enigma da modernidade. O que sustenta essa condição? Para entendermos esse quadro, temos de partir para a compreensão da segunda grande anomalia que caracteriza o sistema capitalista no mundo contemporâneo" - afirmou César Benjamin.

No final da Segunda Grande Guerra, durante as negociações para reorganização do sistema capitalista internacional, o chamado Acordo de Breton Woods, os Estados Unidos impôs o dólar como moeda base para as transações comerciais internacionais, passando, assim, a deter o direito de emissão de uma moeda extremamente forte. Nessas negociações, o governo americano concordou em manter uma paridade entre o volume de moeda em circulação e suas reservas de ouro. Mas, em 1972, o então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, rompeu esse acordo, desvalorizou a moeda, passando a deter o direito absoluto de emissão do dólar, que é um padrão monetário de referência para todos os demais países.

"E essa é uma anomalia inaceitável, mas que se preserva, garantindo aos Estados Unidos uma hegemonia absoluta no mundo contemporâneo" - afirmou o economista. E, segundo o professor, essa condição se prolonga exatamente porquê é difícil transitar de um padrão monetário para outro e, por outro lado, o novo polo ascendente de produção industrial, os países asiáticos, são supreendentemente superavitários no mercado norte-americano e, portanto, altamente dependentes dessa economia.

Existe, então, um quadro de conflito, que é a performance da economia norte-americana e seu esforço para manter-se no centro do poder mundial, e um cenário de cooperação, que é essa dependência dos países da economia e da moeda dos Estados Unidos, impedindo um desenlace mais rápido dessa crise e de uma transição para um novo modelo de desenvolvimento, multipolarizado e não centrado numa única nação, como é hoje. César Benjamin chama atenção que, neste processo, os Estados Unidos não abre mão de duas áreas territoriais estratégicas para a sua liderança: a América Latina e o Oriente Médio. A primeira pela sua posição geográfica e, a segunda, pela suas reservas energéticas.

Para manter esse domínio, os Estados Unidos tem se utilizado de quatro principais instrumentos de controle: a dolarização das economias dos países que compõem essas duas áreas; a desnacionalização de suas empresas; a implantação da Alca como órgão centralizador das economias do continente americano e, uma nova forma, de intervenção, direta e física, na região da Amazônia. "O destino do Brasil, portanto - frisou César Benjamin - está fortemente ligado ao destino do continente. Temos, no entanto, de estar cientes de que, apesar de sermos um país periférico, detemos uma grande massa demográfica, uma capacidade técnica avançada e uma base física bem montada que nos torna capaz de liderar um movimento que, mesmo sendo o elo fraco dessa corrente, poderá dar uma nova condução ao desenvolvimento das nações".

Os trabalhos desta quinta-feira foram coordenados pelo deputado Luiz Tadeu Leite (PMDB) e Maria José Haueisen (PT). O Fórum Minas por um Outro Mundo" continua nessa sexta-feira, às 8h30, com o painel "As dívidas e os orçamentos públicos", que terá como expositores Marcos Arruda, Misabel Derzi, Reinaldo Gonçalves, Fernando Pimentel e Dalmo Dalari. Às 11h30 está prevista a Plenária do Comitê Mineiro do Fórum, para debater a ampliação e organização dos comitês no interior de Minas Gerais e, às 17h30, a Marcha Cívica contra a Corrupção, que seguirá até as escadarias da Igreja São José, onde ocorrerá o Tribunal das Dívidas.

 

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