Especialistas divergem sobre aceitação de transgênicos

O secretário de Estado da Agricultura do Rio Grande do Sul, José Hermeto Hoffman, foi o primeiro expositor do Ciclo d...

29/05/2000 - 19:29

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Especialistas divergem sobre aceitação de transgênicos

O secretário de Estado da Agricultura do Rio Grande do Sul, José Hermeto Hoffman, foi o primeiro expositor do Ciclo de Debates "Minas Gerais e os Transgênicos", na manhã desta segunda-feira (29/05/00). Ele abordou o tema "Transgênicos: uma Questão Estratégica?", posicionando-se inteiramente contrário à política brasileira de adoção dos alimentos transgênicos. Para Hoffman, os brasileiros nada têm a comemorar com o aniversário da assinatura, pelo Brasil, do acordo firmado com a Organização Mundial de Comércio (OMC), em 1996, abrindo a possibilidade de as empresas multinacionais explorarem a comercialização de sementes e de produtos transgênicos em território nacional, obtendo "lucros fantásticos" ao longo desses anos.

O secretário gaúcho entende que, ao renunciar à soberania na produção de sementes e de alimentos, o Brasil vai pagar um preço altíssimo, como vem ocorrendo com os medicamentos produzidos pelos laboratórios multinacionais. Sobre a questão de os transgênicos reduzirem a fome no mundo, Hoffman acha que tudo não passa de pretexto usado pelas empresas estrangeiras. "Aquelas mesmas empresas nos impingiram o programa ‘produção verde’, abarrotando o País de agrotóxicos, quando muitos agricultores morreram envenenados, crianças nasceram deformadas e o meio ambiente foi degradado. E não acabaram com a fome" - acentuou o secretário.

Outro aspecto abordado pelo expositor gaúcho foi a questão estratégica dos transgênicos para os agricultores. Ele considera que os transgênicos poderão tornar os agricultores prisioneiros das multinacionais para compra de sementes com "preços salgados".

RISCOS DO DESCONHECIDO

Hoffman acredita, também, que para o consumidor a questão dos transgênicos não é de interesse estratégico, porque estarão em jogo a qualidade dos alimentos, os riscos e os efeitos que os produtos poderão causar no futuro ao organismo humano e ao meio ambiente. "Não podemos achar que seja racional jogar veneno sobre plantas, matando tudo e preservando apenas aquele produto transgênico", frisou. "Por isso, - alertou - os consumidores esclarecidos não aceitam os transgênicos."

Ao concluir sua exposição, o secretário defendeu programas baseados na tecnologia de que o País dispõe, fazendo-a chegar ao produtor de forma mais acessível. "Temos que buscar uma agricultura que respeite as condições econômicas favoráveis ao agricultor, que respeite a saúde da gente do campo e a preservação do meio ambiente. Não somos contra os avanços da ciência. Somos a favor desse avanço em um projeto genuinamente nacional, feito por brasileiros da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que fortaleça a renda e a qualidade de vida de quem produz e de quem consome os produtos agrícolas e agropecuários", declarou.

PRODUTOS MAIS PUROS E LIMPOS

Outro expositor, o assessor econômico da Federação da Agricultura do Estado de Minas Gerais (Faemg), Márcio Carvalho Rodrigues, defendeu a introdução dos transgênicos como solução para alimentar os seis bilhões de habitantes existentes no mundo; e disse que a realidade futura será o sistema global de padronização agrícola. Ele citou dados estatísticos em níveis internacional, brasileiro e mineiro, comparando taxas de crescimento dos transgênicos com aplicações de incentivos aos produtores dos 56 produtos transgênicos já existentes. De acordo com ele, os Estados Unidos são o maior produtor mundial, com 75% da produção, seguidos pela Argentina, com 55%. Márcio Rodrigues mostrou estatísticas de aceitação dos transgênicos, com a China em primeiro lugar, com 79%; seguida pelos Estados Unidos, com 78%, Índia (76%), Alemanha (53%), Espanha (53%) e Reino Unido (45%). Segundo ele, a previsão de produção de transgênicos para o ano de 2010 é de US$ 25 bilhões.

Rodrigues relacionou vantagens dos transgênicos para o agricultor, como redução dos custos, melhoria na qualidade dos produtos, que ficam "mais puros e mais limpos", redução das pragas e aumento na quantidade de proteínas. Ao concluir, Márcio Rodrigues afirmou que "as críticas originárias do oportunismo político e o anti-americanismo são fatores que estão retardando a difusão dos transgênicos no Brasil".

MESA

O Ciclo de Debates foi aberto pelo deputado Sargento Rodrigues (PL), que compôs a Mesa com o secretário da Agricultura do Rio Grande do Sul, José Hermeto Hoffman; o assessor econômico da Faemg, Márcio Carvalho Rodrigues; a diretora da Sociedade Brasileira de Bioética, Fátima Oliveira; o economista e consultor em Agroecologia, David Hathaway; o presidente da Sociedade Mineira de Engenheiros Agrônomos (SMEA), Marcelo Pinto; o chefe-geral da Embrapa Meio Ambiente, Bernardo Van Reij; e o deputado Edson Rezende ( PSB), coordenador dos debates.

FISCALIZAÇÃO SANITÁRIA

Durante a fase de debates, o secretário de Agricultura gaúcho, José Hermeto Hoffman, falou ainda da dificuldade de se fiscalizar a entrada e o plantio dos transgênicos. Hoffman disse que, apesar da proibição dos alimentos modificados no Brasil, alguns produtos importados e até mesmo contrabandeados da Argentina, país onde os transgênicos são liberados, acabam entrando no sul do País, o que dificulta a fiscalização. Outro problema, segundo ele, são os produtores agrícolas que cultivam as sementes modificadas clandestinamente e oferecem resistência ao trabalho dos fiscais.

O deputado Edson Rezende (PSB), coordenador dos debates, disse que a fiscalização sanitária é uma questão preocupante em Minas Gerais e está prevista no Código de Saúde do Estado. Ele falou, também, da importância de incentivo à carreira de vigilante sanitário.

BENEFÍCIO AO PEQUENO PRODUTOR

Uma das questões abordadas por um dos participantes do Ciclo de Debates foi a possibilidade de algum benefício da tecnologia dos transgênicos para os pequenos produtores. José Hermeto Hoffman afirmou que não vê essa possibilidade no Brasil, uma vez que no País não existe ainda uma política de biotecnologia que preze o bem-estar nacional, e não o mercado. Ele criticou as pesquisas daqueles que apóiam os transgênicos, dizendo que esses estudos não possuem rigor científico. Hoffman atacou também a imposição de tecnologias por parte dos países dominantes às nações em desenvolvimento. O secretário de Agricultura diz que essas tecnologias muitas vezes beneficiam as grandes corporações. Ele defendeu, também, o apoio, por parte do governo, à agricultura orgânica.

BIOÉTICA E MANIPULAÇÃO GENÉTICA

Compondo a mesa do segundo painel de debates, "Bioética e Manipulação Genética", a diretora do Sociedade Brasileira de Bioética, Fátima Oliveira, colocou em questão o novo papel do pesquisador científico nos dias atuais. Ela disse que os cientistas de hoje não detêm aquela imagem romantizada de alguém preocupado só com o bem-estar da população, sem nenhum interesse pessoal; e criticou os cientistas que usam o seu poder criativo para atender os interesses de grandes corporações.

Fátima Oliveira falou do significado da bioética, que, segundo ela, é basicamente um movimento social que busca o que há de melhor para a humanidade. Ela enumerou também as principais preocupações da bioética, como a saúde e os direitos reprodutivos, a saúde e os direitos sexuais, a saúde pública, os transplantes e a genética. A diretora da Sociedade Brasileira de Bioética criticou a "cultura do silêncio" dos governos em relação aos transgênicos. Ela lembrou que na questão dos elementos geneticamente modificados a comunidade científica encontra-se nitidamente dividida, o que deveria remeter a uma maior reflexão sobre o assunto. Fátima Oliveira também cobrou um posicionamento sobre a questão por parte do Governo Itamar Franco e criticou aqueles técnicos que, segundo ela, acham que "detêm a linguagem da vida e a chave da criação".

Outra questão tratada por Fátima Oliveira foi a falta incentivo por parte do Governo Federal à pesquisa científica. Ela disse que, ao destinar poucos recursos para a pesquisa cientifica, o governo brasileiro acaba jogando os melhores profissionais do País nas mãos das empresas privadas.

GENÉTICA

A diretora da Sociedade Brasileira de Bioética destacou a necessidade de uma reflexão sobre os limites da ciência. Ela disse que a área da genética, historicamente, possibilita os abusos; e criticou os fatos científicos divulgados pela imprensa que, conforme Fátima, dizem respeito a hipóteses, mas são colocados como verdades.

Responsável pela informação: Eustáquio Marques - ACS - 31-2907715