Índios dizem que não há o que comemorar nos 500 anos

Não há o que comemorar nesses 500 anos. Essa foi a tônica dos pronunciamentos feitos durante o Encontro dos Povos Ind...

18/04/2000 - 23:47

Índios dizem que não há o que comemorar nos 500 anos

Não há o que comemorar nesses 500 anos. Essa foi a tônica dos pronunciamentos feitos durante o Encontro dos Povos Indígenas de Minas Gerais, nesta quinta-feira (13/04/2000). O evento reuniu, no Plenário da Assembléia, representantes das tribos Xakriabá, Maxacali, Krenak, Pataxó, Aranã, Kaxixó, Xucuru-Kariri, Pankararu e Atikum. No pronunciamento de abertura, o presidente Anderson Adauto (PMDB) falou sobre o trabalho dos jesuítas no Brasil desde a época da colonização. Ele ressaltou que os povos indígenas continuam submetidos à mais pesada discriminação e acrescentou dizendo que "eventos como esse traduzem a preocupação do Legislativo de não se omitir quanto ao irmão índio".

O presidente Anderson Adauto prestou sua homenagem aos povos ressaltando a luta da Nação Xakriabá pela sobrevivência, ao longo dos anos, e para manter preservada sua cultura ao longo do Vale do São Francisco. Ele ressaltou os esforços dos Maxacali para manter suas terras no Nordeste mineiro, bem como o sofrimento do povo Krenak, que padece com a ocupação arbitrária e a exploração irracional de seus bens naturais. Falou também da luta do povo Pataxó, arrancado do habitat original e que, apesar disso, sobrevive graças à obstinação de seu povo. Anderson Adauto salientou a luta dos povos Aranã e Kaxixó, que buscam o reconhecimento de suas etnias. O presidente citou, ainda, as nações Xucuru-Kariri e Pankararu, que em comum têm o êxodo, fruto da dispersão e da carência material.

Escolas e pajelança - Curiosos em explorar a diferença cultural que conhecem através dos livros, alunos de nove escolas do interior e da capital lotaram as galerias do Plenário e o Hall das Bandeiras no Encontro dos Povos Indígenas. Os alunos participaram do debate e assistiram à pajelança - realizada no Hall após o evento no Plenário. Eles apresentaram rituais - com cantigas, danças e instrumentos - entre os quais a despedida do sol, para ajudar a chuva cair, silêncio em memória dos antepassados e distribuição de grãos para celebrar a integração entre os povos.

A deputada Maria Tereza Lara (PT) citou as marchas indígenas que sairão de várias regiões do País em direção a Porto Seguro (BA), onde irão protestar contra a comemoração dos 500 anos - que vem sendo, segundo os representantes indígenas, agendadas enfocando a história construída pelos portugueses e seus descendentes. De acordo com Maria Tereza Lara, as marchas irão se juntar à Grande Conferência Indígena, que acontecerá de 18 a 21 de abril, naquela região do extremo Sul da Bahia. Os povos farão a análise histórica dos cinco séculos de invasão de seus territórios - de suas culturas e suas comunidades.

CIMI DEFENDE DIREITOS DOS POVOS
O representante do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Luciano Marcos Pereira da Silva, discursou sobre a perseguição aos povos durante esses 500 anos. De acordo com ele, até hoje os índios não tiveram seus direitos defendidos por uma legislação séria e eficiente. Luciano Pereira denunciou um episódio de desrespeito aos Maxacali quando, na Semana dos Povos Indígenas, foram proibidos de entrar no Metrô, em Belo Horizonte, por estarem sem camisa.

Elvino Xakriabá disse que seu povo não necessita apenas de terras, mas de respeito por parte dos políticos estaduais e federais, de apoio à educação e de dignidade. A representante dos Maxacali, Maria Diva, falou sobre o massacre dos índios devido à luta pela terra, ao longo dos anos. Waldemar Krenak acrescentou que a presença de seu povo na Assembléia era uma demonstração da luta para que a cultura indígena não acabe. O cacique Bayara, do povo Pataxó, agradeceu a oportunidade de falar sobre a situação de seu povo e ressaltou que a história dos índios Pataxó se compõe de vitórias e perdas. Rosa-Índia Aranã, representando os Aranã, pediu o reconhecimento das autoridades para a questão indígena e um pedaço de terra para que seu povo não seja extinto. "Perdemos tudo que tínhamos, nossa terra e nossas raízes", falou emocionada.

INDÍGENAS CRITICAM GOVERNO FEDERAL
O representante dos Kaxixó, Jerry Adriani Kaxixó, criticou o governo federal, afirmando que este não se preocupa em defender as terras indígenas e dão, em contrapartida, apoio aos proprietários de fazendas que se apoderaram desses locais. O representante dos Pataxós também elogiou a atuação do Ministério Público na defesa dos direitos dos índios. Ele solicitou aos parlamentares que compuseram a Mesa dos trabalhos que reivindiquem ao Incra e à Funai terras para outros povos que vivem na região dos Pataxós.

O cacique José Sátiro Xucuru-Kariri lembrou que pediu a colaboração da Funai para resolver o problema referente às terras de seu povo e que o órgão solicitou um prazo de 90 dias para encaminhar uma solução. Segundo o cacique, um ano se passou e nada foi feito. O representante da tribo dos Pankararu, Ivan Pankararu, disse que não é possível comemorar os 500 anos "em cima da alma" de seu povo. Ele lembrou que o descobrimento do Brasil representou o massacre dos Pataxós, que têm sua origem na Bahia. "Os conflitos entre fazendeiros e as hidroelétricas fizeram meu povo sair de seu território", lamentou o índio, cuja origem é de Pernambuco. Já o cacique Francisco Atikun afirmou que a Funai não resolve o problema do índio, pois sempre o está tirando de seu território.

A importância do ensino bilíngüe, como forma de preservação da cultura indígena, foi destacado pelo secretário de Estado da Educação, Murílio Hingel, que lembrou a "invasão" que a língua portuguesa vem sofrendo pelo inglês. Segundo ele, as aldeias atendidas pelo Estado possuem escolas que foram planejadas para preservar os costumes. Primeiro é ensinada a língua nativa e depois o Português. O secretário informou que, dos nove povos indígenas do Estado, as tribos Xacriabá, Maxakali, Pataxó e Krenak já são atendidas pelo Governo. Os Kaxixó foram reconhecidos pelo Ministério Público, sendo solicitada a sua inclusão nos programas estaduais, que incluem saúde e educação. Murílio Hingel destacou, ainda, que os índios ocupam as terras brasileiras há 25 mil anos e que durante 500 anos foram perseguidos, escravizados e expulsos de suas terras. "Temos uma dívida que deve ser resgatada em nome da vida", declarou.

De acordo com a índia Dirlene Krenak, os povos indígenas devem comemorar os 500 anos, pois conseguiram resistir ao extermínio através de sua força. Ela afirmou que quem não tem o que comemorar são os brancos, que se desenvolveram às custas de seu povo


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