Delegado afirma ter sido transferido por influência política

O ex-delegado regional de Montes Claros, Aloisio Couto, afirmou, nesta terça-feira (11/04/2000) à CPI do Narcotráfico...

18/04/2000 - 23:47

Delegado afirma ter sido transferido por influência política

O ex-delegado regional de Montes Claros, Aloisio Couto, afirmou, nesta terça-feira (11/04/2000) à CPI do Narcotráfico, que desde 1985 "pipocavam" informações e denúncias sobre o envolvimento do empresário Paulo César Santiago com o tráfico de drogas no município. Da mesma forma que aconteceu com os delegados José Luiz Ribeiro, Castelar de Carvalho Leite, Otacílio Teotônio de Lima e Saulo Gomes, Aloisio Couto foi transferido do município, em 1987. Segundo ele, sua mudança também foi uma decisão do secretário de Segurança Pública da época, Sidney Safe.

De acordo com o delegado, a imprensa de Montes Claros é usada, na maioria das vezes para atacar outras pessoas ou instituições. Segundo ele, em 1986, o "Jornal de Montes Claros", do jornalista Oswaldo Antunes, vinha publicando constantemente denúncias sobre o tráfico de drogas, o envolvimento de Paulo César Santiago e também afirmando que a polícia local estava sendo conivente com a situação. Couto disse que ficou preocupado com as notícias, pois na mesma época uma senhora que não se identificou ligava para ele também denunciando o empresário, mas a polícia não tinha condições para investigar. "Tínhamos quatro Fiats 147 em péssimo estado, enquanto Paulo César tinha caminhonetes e aviões", afirmou.

Segundo Couto, os boatos estavam se transformando em indícios contra o empresário. No final de 1986, de acordo com o delegado, um cidadão foi internado por overdose de cocaína e disse, em depoimento, que a droga era contrabandeada por Paulo César Santiago. Nesta época foi instaurado o inquérito para apurar o tráfico na região. Aloisio Couto disse ter conhecimento de que a família Santiago, proprietária de outro jornal, "O Diário de Montes Claros", veio à Belo Horizonte se encontrar com o secretário de Segurança Pública, Sidney Safe, que seria nomeado pelo governador Newton Cardoso.

Depois da visita, segundo Couto, "O Diário de Montes Claros" publicou na primeira página a manchete: "Sidney Safe promete limpar a Polícia Civil de Montes Claros". Na avaliação do presidente da CPI, deputado Marcelo Gonçalves (PDT), o ato do secretário foi de caráter político, irresponsável e corporativista.

Respondendo ao relator da Comissão, deputado Rogério Correia (PT), o delegado esclareceu que nunca foi publicado nada contra o deputado Arlen Satinago (PTB), que na época ainda não era político. O deputado Sargento Rodrigues (PL) perguntou sobre a situação financeira de Paulo César Santiago. Couto contou que na cidade comentam que o empresário "transforma da noite para o dia milhão para bilhão e bilhão para trilhão". Quanto à interferência política nas transferências o delegado disse que "está mais na cara do que nariz". "Agíamos com rigor. Na polícia quando se age com rigor, incomoda-se muita gente", disse.

Durante seu depoimento, o delegado cobrou mais apoio do governo e garantias aos policiais. Segundo ele, quando o delegado trabalha em algum inquérito que envolve pessoas fortes do município, ele pode arrumar as malas que será transferido. "A polícia é forte com os fracos e fraca com os fortes", disse. A deputada Elaine Matozinhos (PSB) informou que está providenciando uma Proposta de Emenda Constituição (PEC) sobre a inamovibilidade do delegado.

O deputado Paulo Piau (PFL) leu uma denúncia que chegou à CPI por meio do Disque-denúncia. O denunciante disse que a testemunha da CPI Nacional, Laércio da Cunha, não mentiu em seu depoimento, que o deputado Arlen Santiago e seu irmão não se importavam de ser vistos com o traficante Fernando Beira-Mar e, ainda, que o traficante Pablo Escobar, três dias antes da sua morte estava hospedado no haras do empresário em Montes Claros.

O deputado Rogério Correia (PT) perguntou ao depoente como estava a situação do inspetor da Polícia Civil de Uberlândia, Cezarino Miguel de Andrade Ituassu, já que é delegado em Uberlândia. Ele defendeu o inspetor e disse que ele está afastado das suas funções trabalhando em um setor burocrático. Cesarino foi acusado por Emerson Vieira da Silva, o "formiga", que em entrevista ao jornal Estado de Minas fez revelações sobre o tráfico de drogas no Triângulo Mineiro.

REQUERIMENTOS
Durante a reunião foram aprovados os seguintes requerimentos:
· três, do deputado Rogério Correia (PT), que pede à Junta Comercial de Minas Gerais a composição societária e da diretoria do jornal "Diário de Montes Claros", desde a sua fundação; que intima o jornalista Oswaldo Antunes, para prestar depoimento; que seja oficiado ao presidente do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais, desembargador Rubens Xavier Ferreira, solicitando o envio à Comissão cópia da prestação de contas da campanha de Arlen Santiago nas eleições de 1998, quando foi eleito deputado;

· um, do deputado Sargento Rodrigues (PL), que solicita ao presidente da CPI do Narcotráfico Nacional, deputado Magno Malta, cópias dos depoimentos do deputado Arlen Santiago (PTB), de seu irmão Paulo César Santiago, e da testemunha Laércio da Cunha, e também de toda documentação referente ao caso.

PRESENÇAS
Participaram da reunião os deputados Marcelo Gonçalves (PDT) - presidente; Rogério Correia (PT) - relator; Carlos Pimenta (PSDB); Paulo Piau (PFL); Sargento Rodrigues (PL); Agostinho da Silveira (PL) e Elaine Matozinhos (PSB).


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