Envolvidos em apreensão de cocaína falam à CPI

A apreensão de 700 gramas de cocaína em Contagem, na tarde da última quarta-feira, dia 29 de março, foi o tema apurad...

04/04/2000 - 23:49

Envolvidos em apreensão de cocaína falam à CPI

A apreensão de 700 gramas de cocaína em Contagem, na tarde da última quarta-feira, dia 29 de março, foi o tema apurado na reunião da CPI do Narcotráfico desta sexta-feira (31/03/2000). Os deputados ouviram uma testemunha, que preferiu não se identificar, e também os envolvidos no episódio: o comerciante que foi preso traficando a droga, Sebastião Luiz Sobrinho; sua mulher, Juliana da Silveira, que o acompanhava; e o capitão da Polícia Militar Marcelo Pio, que dirigia o carro de Sobrinho, pois estaria interessado em comprá-lo. A droga foi apreendida pela Polícia Federal no estacionamento do Carrefour, em Contagem. A testemunha, que prestou depoimento encapuzada, viu quando Sebastião, Juliana e o capitão Marcelo chegaram ao estacionamento em um automóvel Palio de cor azul.

Juliana da Silveira, mulher do comerciante que levava a droga, confirmou a intenção de venda do veículo. De acordo com ela, o capitão gostaria de fazer um teste no carro. Juliana disse que pediu, então, ao militar que a levasse ao Carrefour, pois precisava comprar algumas coisas. Juliana informou que, ao chegar ao supermercado, desceu do carro, despediu-se de seu marido e entrou. Ao chegar em casa, depois de pegar um ônibus, Juliana recebeu um telefonema informando sobre a prisão do marido. Apesar de não convencer os deputados, que fizeram diversos questionamentos, Juliana garantiu estar falando a verdade. A depoente disse desconhecer o envolvimento de seu marido com o tráfico de drogas, mas sabia que ele ficou preso durante dois meses por falsificação de documento de carro. O deputado Sargento Rodrigues (PL) lhe informou que Sebastião Luiz Sobrinho já foi autuado por formação de quadrilha e receptação de carros roubados, além de porte de documentos falsos.

O comerciante Sebastião Luiz Sobrinho também disse que estava com o capitão para lhe vender o carro e, logo no início do depoimento, esclareceu que o policial não tinha culpa nenhuma. Caindo diversas vezes em contradição, o comerciante alegou ser "iniciante e inexperiente". Segundo ele, a droga lhe foi vendida por um desconhecido caminhoneiro por R$ 3 mil - quantia paga em dinheiro. Sobrinho informou, ainda, que o próprio caminhoneiro indicou-lhe um possível comprador da droga - alguém chamado João com quem se encontraria no supermercado Carrefour. "Estou falando a verdade, somente a verdade", garantiu o depoente, apesar de não convencer os deputados - que o alertaram, a todo momento, dos benefícios que a CPI poderia lhe oferecer, caso contribuísse com os trabalhos.

CAPITÃO TEM OUTRA VERSÃO
O último depoente foi o capitão Marcelo Antônio Pio, comandante da 7ª Companhia Tático-Móvel do 5o Batalhão. O capitão declarou que viu o Palio de Sebastião com um anúncio de "vende-se" contendo um número de celular. Na quarta-feira, dia 29, quando conseguiu falar com Sebastião - que se identificou como Luís -, perguntou se o carro continuava à venda e disse que se interessava em vê-lo. Os dois, então, marcaram um encontro para o mesmo dia, após as 14 horas, próximo ao 5o Batalhão, na avenida Amazonas.

Os dois se encontraram, e o capitão assumiu a direção do carro para, segundo ele, testá-lo. O policial afirmou que Sebastião estava ao seu lado e a mulher dele no banco traseiro, contradizendo as declarações de Sobrinho, que afirmou aos deputados estar no banco de trás. Sua intenção era fazer o teste na BR-381, porém Sebastião pediu para que ele fosse até o Carrefour para que ele e sua mulher fizessem uma compra rápida.

O capitão, já no estacionamento do supermercado, parou o carro, quando todos desceram, e entregou a chave a Sebastião - que teria entrado no Carrefour com a mulher. Nesse momento, o policial desconfiou de um Del Rey estacionado e comentou com um soldado, de nome Crispim, que estava no local. Os dois levaram 30 minutos observando e pedindo informações à Central sobre a placa do carro, quando o capitão Marcelo atentou para a demora do casal e decidiu procurá-los dentro do Carrefour. Ao voltar ficou sabendo que Sebastião e Juliana haviam sido presos pela Polícia Federal, por porte de drogas. Ele então explicou a um dos agentes federais que dirigia o Palio de Sebastião. Convidado a participar como policial da busca à casa do comerciante, onde encontraram uma balança e saquinhos plásticos, Marcelo depôs, ainda, como testemunha na Polícia Federal, afirmando só ter conhecido Sebastião Luís e sua mulher naquela quarta-feira, 29 de março.

Depois dos depoimentos em separado, houve uma acareação entre o capitão Marcelo e Sebastião Sobrinho, com novas contradições. Juliana da Silveira foi, depois, ouvida novamente pelos parlamentares, e as contradições permaneceram. A CPI, cujos trabalhos tiveram início à tarde, continuou a colher os depoimentos na noite de sexta-feira.

REQUERIMENTOS
Durante a reunião, foram aprovados os seguintes requerimentos:
· três, do deputado Rogério Correia (PT), para que sejam intimados a prestar depoimento à CPI do Narcotráfico os ex-delegados de Montes Claros José Luiz Ribeiro e Élber Machado; e o atual delegado de Uberlândia e ex-delegado de Montes Claros, Aloísio Couto; solicitando aos promotores púbicos de Montes Claros o envio para a Comissão de todos os processos envolvendo o empresário Paulo César Santiago; pedindo ao delegado regional de Montes Claros, Francisco Monteiro, a reabertura das investigações sobre o tráfico de drogas envolvendo o empresário Paulo César Santiago; e o envio de toda documentação existente na delegacia para a Comissão;

· um, do deputado Sargento Rodrigues (PL), pedindo a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico do capitão Marcelo Antônio Pio, Sebastião Luiz Sobrinho, e Juliana da Silveira.

Presenças - Participaram da reunião os deputados Marcelo Gonçalves (PDT), que a presidiu, Rogério Correia (PT), Sargento Rodrigues (PL), Marco Régis (PPS), José Henrique (PMDB), Paulo Piau (PFL) e Carlos Pimenta (PSDB).


Responsável pela informação: Carolina Braga - ACS - 31-2907715