A iniciativa é boa e deveria, inclusive, servir de inspiração para um plano nacional de preservação e digitalização desse tipo de documento. Dito isso, há pontos que, na minha opinião, precisam entrar no texto para que a proposta funcione de verdade. Primeiro: existe o Decreto Federal nº 7.107/2010, que promulgou o Acordo Brasil–Santa Sé, pelo qual a Igreja Católica se compromete a facilitar o acesso aos seus documentos. Na prática, sobretudo em Minas Gerais, o que se vê é o oposto disso: ocultação de acervos e uma clara busca pela “exclusividade da informação”, mesmo quando se trata de documento de interesse público e fora do alcance da LGPD. Confiar que paróquias e arquivos eclesiásticos vão “ceder por impulso próprio” é, com todo respeito, bobagem. Não é o interesse deles. O projeto precisa prever algum mecanismo que estimule o alcance efetivo desse material pelo Estado. Sem isso, ficamos reféns de boa vontade e nada anda. Antes da digitalização em si, a SECULT deveria fazer ações educativas com as secretarias paroquiais e arquivos eclesiásticos, explicando a política. Em seguida, fazer inventário prévio: é comum padres esconderem livros, emprestar para consulentes que nunca devolvem e depois vir a desculpa de que “o tempo levou”. Muitas vezes, não é verdade. Tem de haver algums dispositivo claro de repatriação de documentos desviados: procedimento, prazos e responsabilização Também seria importante ampliar o escopo. Arquivo eclesiástico não é só batismo, casamento e óbito. Sob o padroado, a Igreja produziu habilitações matrimoniais, róis de confessados, justificações, registros e demarcações de terras, plantas e mapas, entre outros. Tudo isso está trancado, com acesso raríssimo.