Sobre a proposta de alteração do nome de PE da Serra do Brigadeiro para PE da Serra dos Puri, venho propor algumas reflexões. Primeiro o parque foi legalmente instituído 4 anos antes da instituição da Lei do SNUC. Apesar de não retroagir, essa lei diz que o nome da Unidade de Conservação deverá basear-se, preferencialmente, na sua característica natural mais significativa, ou na sua denominação mais antiga, dando-se prioridade, neste último caso, às designações indígenas ancestrais.
O nome da serra do brigadeiro faz referência a Fazenda do Brigadeiro, uma das maiores propriedades, cuja sede histórica ainda está de pé. Permanece problemas fundiários que dificultam os investimentos de restauração. Na época da criação não havia estrutura de sede na estrada de Araponga-Fervedouro, a sede conhecida era a da fazenda do Brigadeiro, por isso a referência do nome, não se trata de homenagear o Brigadeiro, que ninguém sabe quem é direito. Não havia uma aldeia indígena como referência, aliás se houvesse haveria problema em dar destinação de área para unidade de conservação, como parques.
Segundo a justificativa do nobre Deputado, “...O território em questão é fortemente marcado pela presença do povo indígena "Puri"...“. Se isso for verdade então deveria propor uma Terra Indígena. Ainda, segundo o deputado, a primeira denominação da serra é “Serra dos Arrepiados”, nome que faz referência pejorativa aos Puri que habitavam a região. Portanto não havia denominação antiga e popular de Serra dos Puri, até porque haviam outros grupos como os Coroados. E, por justiça não se deve usar o nome pejorativo.
Passados 29 anos de criação, mudar o nome, pragmaticamente falando, provocaria quais consequências, entre positivas e negativas? As pessoas que ainda teimam em provocar queimadas criminosas no entorno e no parque respeitariam mais a natureza se o nome fosse Serra dos Puri?
Porque não se pode cogitar na mudança então para Serra dos Muriquis, o maior macaco das américas, certamente presente antes dos indígenas. Ou mesmo Serra das Arapongas. E por que as referências a cultura afrodescendente não pode fazer parte dessa discussão? Há lugares da serra que também tem essa referência.
O turismo ecológico seria afetado de quais formas? Quantas marcas de café de produção artesanal e largamente premiadas, um dos melhores cafés do mundo, como seriam impactadas? Quem faz essa proposta tem estudos sobre esses impactos?
Na intenção de criar maior sentimento de pertencimento, pode também a reboque trazer o viés de apropriação cultural. Não raro nas questões atuais de identidade, auto declaratória, vemos pessoas brancas, barbudas e brinco de pena dizendo-se indígenas. Já vi isso na Zona da Mata. Na busca por uma suposta justiça, essa foi a única alternativa que o nobre deputado encontrou? Não tem receio de prejudicar a preservação ambiental?
Um símbolo, como o nome de um parque natural, não é dado somente por sua referência original, mas pelo seu uso preponderante ao longo do tempo.
Será que o próximo passo de quem quer a mudança de nome não vai ser questionar a categoria de proteção integral? Assim provocando uma discussão que leve a menor proteção da Serra, abrindo espaço para apropriadores culturais afim de invadir terras, provocando queimadas, desmatamento, conflitos?
As pessoas que se incomodam com o nome Brigadeiro (um brigadeiro sem nome), supostamente genocida, não se incomodam com inúmeras referências católicas na região? A evangelização de indígenas também não foi igualmente responsável por destruir a cultura indígena? Quantas cruzes existem no topos das montanhas? Vão criticar o monte do Cruzeiro, o nome da cidade Rosário da Limeira, Dom Viçoso, Monte Alverne, Bom Jesus do Madeira? Vão criminalizar o cultivo do café, tão importante para a economia local e nacional? Pensem, há alternativas para essas comunidades descendentes de povos originários se valorizarem, se assim o querem.