MARCOS HELÊNIO LEONI PENA, Superintendente Regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - INCRA.
Discurso
Comenta os temas: "Diagnóstico da Reforma Agrária no Brasil" e
"Reforma Agrária em Minas Gerais".
Reunião
35ª reunião ESPECIAL
Legislatura 15ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 06/12/2003
Página 44, Coluna 4
Evento Fórum Técnico: "Reforma Agrária em Minas: Impasses e Perspectivas."
Assunto REFORMA AGRÁRIA.
Observação Participantes dos debates: Clóvis dos Santos, Eduardo Marça Torres Ramos.
Legislatura 15ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 06/12/2003
Página 44, Coluna 4
Evento Fórum Técnico: "Reforma Agrária em Minas: Impasses e Perspectivas."
Assunto REFORMA AGRÁRIA.
Observação Participantes dos debates: Clóvis dos Santos, Eduardo Marça Torres Ramos.
35ª REUNIÃO ESPECIAL DA 1ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 15ª
LEGISLATURA, EM 24/11/2003
Palavras do Sr. Marcos Helênio Leoni Pena
Bom dia. É um grande prazer voltar a esta tribuna, onde, durante
oito anos defendi causas justas em nome do PT. Cumprimento o
Deputado Gil Pereira, com quem já tive a oportunidade de trabalhar
e que hoje está presidindo a Mesa; o Deputado Rogério Correia,
Líder da Bancada do PT e autor do requerimento que deu origem a
este fórum; os representantes da Confederação Nacional da
Agricultura, da FAEMG, da Secretaria Extraordinária de Reforma
Agrária, do INCRA nacional, do ITER e CPT que estão representados
aqui na Mesa; os Deputados Estaduais que aqui estiveram - notamos
a presença do Weliton Prado, do Adelmo Carneiro Leão e do André
Quintão -; o Procurador do Estado, Romeu Rossi, que também vai
fazer sua exposição neste seminário; e nossas bravas Promotoras do
Ministério Público, Dras. Maria Inês e Maria Elmira, que estão
desempenhando um excepcional trabalho no Ministério Público. Da
Coordenadoria de Conflitos Agrários, cumprimento nosso caríssimo
amigo, Dr. Cássio de Souza Salomé, MM. Juiz da Vara de Conflitos
Agrários, que promove, de maneira incansável, audiências públicas
com o objetivo de conciliar as questões de reintegração de terra;
o Dr. Wellington Militão dos Santos, MM. Juiz titular da Vara
Agrária Federal, que faz um esforço muito grande para desenrolar
os processos, que são muitos; os representantes dos movimentos
sociais de luta pela terra - MST, FETAEMG, MTL, Pastoral da Terra,
movimentos sindicais -; e os colegas do INCRA. Por uma questão de
justiça, quero dizer que, apesar de a iniciativa da realização
deste fórum ter sido do Líder da Bancada do PT, Deputado Rogério
Correia, sua realização se deve a uma solicitação do Fórum
Permanente de Assuntos Fundiários.
Talvez Minas seja o único Estado que discute a reforma agrária de
forma sistemática com os diversos órgãos que estão atuando nessa
questão difícil.
O Fórum Permanente de Reforma Agrária congrega o INCRA, a Vara de
Conflitos Agrários, a Polícia Militar, o Ministério Público, a
Procuradoria do Estado, o IEF, o IBAMA, o ITER, a Secretaria
Extraordinária de Reforma Agrária, a RURALMINAS e vários órgãos.
Temos contato permanente com todos os movimentos sociais. Esse
fórum ainda está em caráter institucional, mas, com certeza, terá
novos desdobramentos.
Esse fórum tem feito uma série de propostas para agilizar e
resolver os problemas da reforma agrária em Minas. Os impasses e
perspectivas aqui colocados serão debatidos durante este evento.
Temos a certeza de que os processos e procedimentos da reforma
agrária, a legislação ambiental, o papel do Poder Judiciário no
processo da reforma agrária e a ação dos movimentos sociais serão
amplamente debatidos nesses três dias de convívio. Com certeza, os
quatro grupos apresentados elaborarão as propostas, e Minas Gerais
terá um projeto bastante consistente, vinculado ao Programa
Nacional de Reforma Agrária, muitas vezes até ultrapassando
aquelas propostas para agilização de sua execução.
Trago um panorama da situação da reforma agrária em Minas Gerais:
quantas famílias acampadas e quantas famílias assentadas. Sobre o
que o Deputado Rogério Correia apresentou, a infra-estrutura dos
atuais assentamentos, como está a situação da eletrificação, da
água, da estrada; a relação com os parceiros, com o Estado e com
os municípios; o que está caminhando e o que está emperrando.
Peço para passar as transparências e mostraremos como está a
situação em Minas Gerais. As regiões onde estão famílias acampadas
são: região metropolitana, 656 famílias, há uma quantidade menor
de famílias acampadas; vale do Rio Doce, 557; no Norte, há uma
concentração maior, 4.542 famílias acampadas; no vale do
Jequitinhonha, 1.431; o Triângulo Mineiro, com 3.608 famílias
acampadas, constitui uma região preocupante; o Noroeste, com 1.532
famílias; e o Alto Paranaíba, com 791 famílias acampadas. Há 170
acampamentos distribuídos em 94 municípios. Há oscilação grande
nesse número, pois um acampamento pode ser desfeito, depois há
reintegração de posse, e constituem-se novos acampamentos. A
situação é realmente grave. Se não houver grande aporte de
recursos para o número de acampados no processo que se propõe,
levaremos mais de dez anos para assentar as atuais famílias que
estão acampadas.
Trouxe a relação dos projetos de assentados criados pela
Superintendência: em 1986, 3 projetos; 1987, 2; 1988, 3; 1989, 2;
1990, nenhum; 1991, 4; 1992, 7; 1993, nenhum; 1994, 2; 1995, 5;
1996, 21; 1997, 26; 1998, 25; 1999, 18, 2000, 11; 2001, 26; e no
ano passado, 8 projetos de assentamento, o que perfaz um total de
146 projetos de assentamento até 2002.
Abordaremos, a seguir, o que foi realizado e o que falta realizar
no tocante à infra-estrutura nos assentamentos. Três são os
fatores essenciais para a viabilização dos assentamentos: água,
luz e estradas.
Quanto à água, no Triângulo Mineiro, 30 assentamentos foram
atendidos, 58 ainda não; e, no Noroeste, 46 foram atendidos, 28
ainda não.
O Secretário Extraordinário da Reforma Agrária referiu-se ao
convênio de R$1.200.000,00 com a COPASA para a perfuração de 77
poços artesianos. Infelizmente, o processo está vagaroso ou quase
parado, por falta de contrapartida. Aproveito a oportunidade para
solicitar ao Governo do Estado que execute o convênio; caso
contrário, perderemos os recursos, que deverão ser devolvidos.
Quanto à eletrificação, há também algo realizado, algo a realizar
e algo em andamento. Da mesma forma, foi firmado um convênio com a
CEMIG. O Secretário disse que o ITER não teve recursos suficientes
para a contrapartida, e que a CEMIG deverá absorver a demanda e
fornecer a eletrificação esperada, embora, em projeto assinado, o
Ministério de Minas e Energia tenha-se incumbido de providenciar a
eletrificação de todos os assentamentos do País. Há grande
expectativa a respeito disso.
Quanto às estradas, há ainda muito o que fazer também. A
dificuldade de acesso aos assentamentos é enorme.
Esperamos implementar com o Estado e com as Prefeituras
municipais esses três itens mínimos de infra-estrutura: água, luz
e estradas.
O que foi possível fazer em 2003? Instalamos três projetos de
assentamentos, mas, evidentemente, falta a infra-estrutura. Os
estudos ambientais para a criação de outros sete projetos estão em
fase de conclusão. A legislação ambiental impede que se instale
qualquer projeto sem licença prévia, e isso leva meses e meses
para se conseguir.
Sete projetos de assentamentos estão para ser executados até
dezembro. O INCRA contratou estudos de viabilidade ambiental para
mais dez áreas, com conclusão prevista para até 120 dias. O
relatório de viabilidade ambiental é também necessário para a
implantação dos projetos.
Somam-se 1.312 famílias com acesso à terra. Além desse trabalho,
há outras sete fazendas com decreto de desapropriação do Governo.
Foram decretadas de interesse para a reforma agrária e estão
apenas aguardando os procedimentos processuais que já foram
ajuizados.
Em que pese à capacidade operacional do INCRA estar desfalcada,
em 2003, até agora já realizamos 44 vistorias em imóveis rurais.
Mais 5 estão programadas para serem feitas até dezembro; além de
mais 14 vistorias de avaliação - algumas feitas para analisar a
produtividade do imóvel, e outras para verificar o custo do
imóvel. Outras 3 serão realizadas, totalizando 66 trabalhos
realizados até dezembro.
No tocante ao problema da estrutura do INCRA, parece que parte da
situação será resolvida, porque haverá um concurso público.
Atualmente, são 134 servidores efetivos: 7 engenheiros
agrimensores, 16 peritos federais agrários, 3 engenheiros civis, 2
orientadores de projeto, 3 fiscais de cadastro, 14 procuradores e
87 servidores em cargos diversos, administrativos e médicos. Em
1990, o INCRA tinha em torno de 240 servidores e 10 projetos de
assentamento; hoje são quase 150 projetos de assentamento e metade
do quadro operacional. Há os trabalhadores terceirizados, que
desempenham funções de manutenção, limpeza, etc.
Os desafios maiores que enfrentamos são a morosidade do processo
judicial. Não queremos criticar o Poder Judiciário. O Sr.
Wellington é o Juiz titular; trabalha sozinho e tem outras funções
na Vara Federal. Sabemos de sua preocupação, porque muitos
proprietários conseguem liminares, às vezes até impedindo
vistorias; conseguem alterar laudos de perícias, de modo que a
propriedade que em um laudo foi considerada improdutiva, em outro
é considerada produtiva. Nossas equipes técnicas são reduzidas,
assim como a frota, cuja renovação aguardamos.
Além disso, há os entraves naturais da legislação agrária. Muitas
vezes, não se encontra o proprietário para notificar que sua
fazenda será vistoriada; terras devolutas em áreas desapropriadas
ocasionam demora no processo judicial; demora na concessão de
licenciamento ambiental de áreas já emitidas na posse. Houve a
emissão, mas, como falta o licenciamento, não se podem liberar os
recursos. Esses são os grandes desafios que enfrentaremos. Temos
de debatê-los e tentar agilizar o processo.
O orçamento federal para a reforma agrária foi muito reduzido,
está muito pequeno, e esperamos, para o ano que vem, muito mais.
Por mais boa-vontade que tenham o Luís Chaves e o Marcelo
Gonçalves, os convênios estão emperrados. As Prefeituras que
recebem o Imposto Territorial Rural precisam ter uma participação
maior. Os municípios precisam ajudar na infra-estrutura. São esses
os desafios, mas temos a esperança de que a reforma agrária irá
caminhar no Governo Lula com a participação efetiva, firme, dos
movimentos sociais de luta pela terra. Muito obrigado.