DEPUTADA MARIA JOSÉ HAUEISEN (PT), Presidente "ad hoc". Presidente da Comissão de Meio Ambiente.
Discurso
Discursa na reunião destinada a receber a Ministra do Meio Ambiente,
Marina Silva.
Reunião
17ª reunião ORDINÁRIA
Legislatura 15ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 05/04/2003
Página 45, Coluna 4
Assunto ADMINISTRAÇÃO FEDERAL. MEIO AMBIENTE.
Legislatura 15ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 05/04/2003
Página 45, Coluna 4
Assunto ADMINISTRAÇÃO FEDERAL. MEIO AMBIENTE.
17ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 1ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 15ª
LEGISLATURA, EM 1/4/2003
Palavras da Presidente Maria José Haueisen
Autoridades presentes, Sras. e Srs. Deputados, senhores e
senhoras, telespectadores da TV Assembléia, querida Ministra
Marina Silva, dizer da nossa alegria em tê-la conosco seria
repetir tudo o que já foi dito e de que realmente a senhora é
merecedora. A Comissão de Meio Ambiente sente-se honrada com a
presença da Ministra, com certeza, irá passar seus conhecimentos e
ouvir nossas demandas.
Primeiramente, falaremos das nossas dificuldades e problemas.
Posteriormente, teremos o prazer de ouvi-la, com sua admirável
experiência e competência.
Entre os diversos assuntos abrangidos pela temática ambiental, a
questão da águas em Minas Gerais reveste-se de uma importância
extraordinária. A responsabilidade que temos quanto à utilização
adequada desse bem precioso e indispensável à vida é enorme, pois
a gênese dos principais cursos de água do País, à exceção dos rios
das bacias amazônicas, ocorre em território mineiro. Rios como o
São Francisco, o Grande e o Paranaíba, formadores do Paraná, o
Doce, o Jequitinhonha, o Pardo, o Mucuri, todos de extrema
relevância cultural, socioeconômica e ambiental para as regiões
banhadas por suas águas, têm suas nascentes nas terras altas de
Minas, o que confere ao Estado o apelido de “caixa-d´água” do
Brasil. Assim, a qualidade de vida de grande parcela da população
brasileira depende da maneira como gerenciarmos esses recursos.
A Assembléia Legislativa de Minas, consciente dessa
responsabilidade, vem demonstrando, de forma inequívoca, sua
preocupação com a questão. São diversas as ações empreendidas, na
última década, em prol da recuperação de nossas bacias
hidrográficas. São exemplos dessas ações os Seminários
Legislativos Águas de Minas I e II, realizados em 1993 e 2002,
sendo que o primeiro subsidiou a elaboração das leis que tratam
das políticas nacional e estadual de recursos hídricos; e o
segundo serviu para avaliar a efetividade dessas políticas. Da
mesma forma, as Comissões Interestaduais Parlamentares de Estudos
das Bacias Hidrográficas dos Rios São Francisco e Doce - CIPEs São
Francisco e Rio Doce -, que congregam Deputados das Assembléias
Legislativas dos Estados que compartilham essas bacias com Minas,
têm o objetivo de buscar soluções para o desenvolvimento
sustentável dessas regiões. Em 2001, esta Casa liderou um grande
esforço, do qual participaram diversos segmentos da sociedade
civil, no que se denominou Movimento Minas em Defesa das Águas,
com uma série de atividades contra a privatização de Furnas, a
desverticalização da CEMIG e a transposição das águas do São
Francisco sem os estudos ambientais adequados, entre outras ações.
Uma das conseqüências dessas ações, como se detectou no Seminário
Águas de Minas II - que reuniu cerca de 1.400 pessoas na plenária
final, nesta Casa, e que contou com reuniões preparatórias em 17
cidades selecionadas em todas as regiões do Estado -, é que a
política de gerenciamento de recursos hídricos é a mais adequada,
notadamente no que tange à gestão por bacia hidrográfica, de
maneira democrática e participativa, mediante a criação dos
comitês de bacia. Contudo, notou-se um problema grave no
funcionamento desses comitês, que estão sendo criados e não contam
com o suporte governamental mínimo necessário para seu
funcionamento.
Ministra, sabemos do interesse de V. Exa. pela questão e
registramos com satisfação a indicação do Dr. João Bosco Senra
para a Secretaria de Recursos Hídricos do Ministério, cientes de
que se trata de pessoa plenamente comprometida com o tema das
águas, como demonstrou quando esteve à frente do IGAM. Como V.
Exa. pretende encaminhar essa demanda em sua gestão?
Parques nacionais no vale do Jequitinhonha: criado por decreto em
13/12/2002, o Parque Nacional das Sempre-Vivas possui área de
124.000ha e abrange os municípios mineiros de Diamantina,
Buenópolis, Bocaiúva e Olhos-d´Água. Segundo declaração do ex-
Ministro José Carlos Carvalho, nosso atual Secretário de Estado,
os recursos para regularização fundiária já estavam garantidos. Só
do Sistema Nacional de Unidades de Conservação - SNUC -, seriam
repassados R$160.000.000,00 para o Governo atual. Foi divulgada,
ainda, a criação do Parque Nacional da Mata Escura. Com esses,
Minas Gerais passa a ser a unidade da Federação com maior número
de parques nacionais, sete ao todo. Sabe-se que a situação
fundiária dessas áreas, mesmo nos parques mais antigos, é
indefinida, como no Parque Nacional da Serra da Canastra, onde
ocorrem conflitos com os proprietários das terras. De que maneira
V. Exa. pretende encaminhar essa questão?
Ministra, companheira e amiga Marina Silva, os nossos problemas
são vários. Felizmente acabamos de relatar alguma coisa que já foi
feita. Entretanto, quando viajamos por várias regiões de Minas,
sentimos o clamor do povo por melhores condições ambientais. Há um
movimento ecológico e uma preocupação maior com o meio ambiente, e
já não estamos aceitando somente as poesias e músicas bonitas nem
a defesa do mico-leão-dourado ou da ararinha azul. As pessoas se
preocupam também com o desenvolvimento econômico sustentável, que
garanta às gerações futuras tudo o que precisam. O que temos visto
é grande degradação do meio ambiente.
Há o problema da devastação do nosso solo com a mineração ao
redor de Belo Horizonte. Itabira, como disse Carlos Drummond de
Andrade, é um quadro na parede. Há pouco tempo houve, em Nova
Lima, um terrível desastre ecológico, quando uma barragem que
recolhia os rejeitos de uma mineração rompeu, causando prejuízos
sociais e ambientais, assoreamento de um rio, transposição de
matas, além de cinco mortes.
Nas regiões dos rios Mucuri e Jequitinhonha, a degradação é
grande. Ouvimos, nesta semana, reclamações de pessoas preocupadas
com o meio ambiente quanto à existência de um movimento,
patrocinado e defendido até por agentes políticos, para que sejam
formados latifúndios pertencentes a empresas que tentam continuar
a plantação de eucalipto como monocultura nessa região.
Sabemos do prejuízo quando há plantações de eucalipto nas
nascentes dos rios. Outra preocupação, principalmente das pessoas
que vivem na região do Jequitinhonha, é a exploração do granito.
Constantemente, encontramos, na Rio-Bahia, carretas com blocos de
granito, que são levados para o Espírito Santo, cortados, fatiados
e, depois, transportados para a Europa, onde recebem valor
agregado e, de fato, são valorizados. No vale do Jequitinhonha
fica o empobrecimento, a destruição da mata e da vegetação e o
prejuízo para a população que cuida da lavoura, tão prejudicada
pela maneira predatória como o granito é retirado.
Minas Gerais é a “caixa-d´água” do Brasil. Entretanto, moradores
da região do São Francisco, do Mucuri, do Jequitinhonha e do rio
Pardo passam necessidade, premente dificuldade, para ter direito
ao uso da água. Isso é um problema grave.
Alguns fatos impressionam. Testemunhei em uma escola rural do
Município de Berilo, no Distrito de Lelivéldia, crianças com
recipientes de plástico de 2 litros, levando água para casa para
beber e cozinhar os alimentos. Não existe na região sequer
cisterna ou poço artesiano. Acredito que a situação pode ter se
agravado por causa da construção da barragem no local.
Queríamos, prezada companheira Ministra Marina Silva, sua atenção
para esses problemas do meio ambiente - graves em nosso País. Não
podemos nos queixar, temos um meio ambiente rico, uma grande
biodiversidade, água em abundância, minerais diversos, clima
tropical e temperado, tudo que é importante para garantir um
desenvolvimento econômico e sustentável. Infelizmente, se não
houver providências sérias, essa riqueza servirá a poucas pessoas
dessa geração e, no futuro, não haverá desenvolvimento econômico
para os filhos daqueles que hoje exploram e se enriquecem.
Lembro-me de sua exposição, pela manhã, no Palácio da Liberdade,
da narração da parábola bíblica do cordeiro e do lobo, que
precisam se entender, porque ambos precisam de comida, água e
vida. Na nossa região, sobretudo nas mais pobres, é preciso que
haja entendimento de que aqueles que se enriquecem com as nossas
reservas florestais, com as nossas águas abundantes, não
prejudiquem os que precisam do meio ambiente, agora e nas gerações
futuras.
Certamente, Deus fez a sua parte com muita generosidade.
Portanto, cabe a cada um contribuir, a fim de que esses recursos
sejam para o bem de ricos ou pobres e dos que moram no campo ou na
cidade. Para garantir isso e ajudar-nos nas nossas dificuldades,
contamos com o seu apoio no cargo que ocupa com muita competência
e dedicação. Muito obrigada.