Ambientalista denuncia suposta perseguição de grileiros
Defensor de trecho da Estada Real que corta região de Rio Acima afirma ter tido sua propriedade roubada e queimada.
27/04/2016 - 12:32 - Atualizado em 27/04/2016 - 15:40O sítio do ambientalista Jurandir Persichinni Cunha, localizado em Rio Acima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), foi, nos últimos meses, roubado e incendiado. Os dois atos criminosos podem estar ligados ao fato de ele fazer a defesa do meio ambiente local, assim como de um trecho da Estrada Real que atravessa a região e que estaria na mira de especuladores imobiliários e empresas mineradoras. A denúncia foi tema de audiência pública, realizada nesta quarta-feira (27/4/16), pela Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), a pedido do deputado Iran Barbosa (PMDB).
Persichinni explica que vive há mais de 40 anos na área e sempre atuou em defesa do meio ambiente, o que pode ter despertado a ira de grileiros e mineradores. Segundo ele, há cerca de um ano e meio, tem enviado, ao Ministério Público, à Ouvidoria da Polícia Militar, à Secretaria de Estado de Defesa Social e às delegacias de Polícia locais, pedidos de investigação quanto às invasões, registrados em dezenas de boletins de ocorrência.
“Tenho sido vítima de delitos por marginais e grileiros. Possuo uma pequena propriedade que foi arrombada, que teve todos os móveis e utensílios roubados e depois incendiada”, relatou. Mesmo com a quadrilha presa, ele não conseguiu recuperar tudo. O ambientalista acusa o poder público de inércia e abandono. “Temo que tenha que dispor do meu sonho e sair dali em busca de Justiça porque estou sendo ameaçado de morte”, lamentou.
Solidariedade - A representante do Movimento de Preservação da Serra do Gandarela, Maria Tereza Viana de Freitas Corujo, prestou solidariedade a Persichinni e avaliou que a violência cometida contra ele vai além de uma simples ocorrência policial. Para ela, trata-se da perseguição de empresas mineradoras. Ela relatou que vem acompanhando o caso desde o início e que as ações criminosas soam como tentativas de ameaça e intimidação, ligadas diretamente a luta pela preservação da Estrada Real.
“O local sofre com a especulação imobiliária e a exploração minerária. Há ambientalistas que já foram assaltados mais de sete vezes. O setor minerário quer legalizar como locais de lavra todo o território de Rio Acima”, denunciou. De acordo com a ambientalista, a empresa Vale quer fazer uma barragem de rejeitos muito maior, por exemplo, que a de Fundão, que rompeu em Mariana, em novembro do ano passado. “Há um esquema que envolve órgãos do poder público e as grandes mineradoras”, acusou.
O professor de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e criador do Projeto Manuelzão, Apolo Heringer Lisboa, pede que o caso seja elucidado com urgência, pois pode ser o início de um problema ainda maior. Na opinião dele, as polícias estão se omitindo, já que a violência é crescente na cidade e no campo e a impunidade impera. “Não concordo que o problema seja só o mal aparelhamento das forças de segurança, porque quando uma autoridade sofre violência, o poder público age rápido”, ponderou.
Apolo cobrou ainda efetividade das investigações e respostas rápidas à comissão. “A questão não é mais pessoal de Jurandir Persechinni, mas é o fato de criminosos serem presos, depois soltos e continuarem roubando e ameaçando as pessoas”, completou.
Polícia Civil diz que caso é prioridade
O delegado de Polícia Civil de Nova Lima, Fernando Pinheiro, que responde por Rio Acima, entende que as denúncias são graves e devem ser apuradas com rigor porque apontam para crimes contra a vida, a propriedade e o meio ambiente. À comissão, reconheceu a existência de quadrilhas que vem invadindo propriedades na região e ameaçando as pessoas, mas garantiu que o caso é prioridade e vem sendo combatido, com prisões já efetuadas em locais como o bairro Jardim Canadá, em Nova Lima (RMBH), por exemplo.
“Há uma linha de investigação em curso. A violência é um problema estrutural de todo País, e o Estado precisa dar uma atenção especial ao problema, incrementar os investimentos e promover mais segurança”, analisou. O delegado comprometeu-se a intensificar os esforços para que a investigação avance, assim como a de outras ocorrências semelhantes na região.
Providências – Ao final da reunião, o presidente da comissão, deputado Cristiano Silveira (PT), disse que a violência sofrida por Jurandir Persechinni pode ter relação com sua atividade como ambientalista e, diante disso, apresentou requerimentos com pedidos de providência sobre o caso, que serão aprovados nas próximas reuniões.
O parlamentar afirmou que vai enviar as notas taquigráficas da reunião à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), ao Conselho de Política Ambiental (Copam); à Delegacia Regional de Nova Lima; à chefia de Polícia Civil, ao Ministério Público e ao Comando-Geral da Polícia Militar, com pedido de providências e célere investigação sobre as denúncias. O deputado pediu, também, a realização de uma nova audiência para verificar se as solicitações avançaram.