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População quer condições de conviver no semiárido mineiro

Moradores e representantes de organizações onde esse clima predomina cobraram políticas públicas estruturantes e permanentes, de forma a garantir acesso à água de qualidade.

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Moradores das regiões Norte, Jequitinhonha e Mucuri precisam de acesso a tecnologias sociais que garantam água de qualidade e permitam a convivência no semiárido mineiro. Essa foi a síntese da audiência da Comissão de Participação Popular da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), que aconteceu nesta terça-feira (26), presidida pelo deputado Leleco Pimentel (PT). “A ideia é que as discussões desta audiência sirvam de base para requerimentos e pedidos de informações e soluções ao Governos do Estado”, disse.

Solicitada pela deputada Leninha (PT), 1ª vice-presidenta da Assembleia, e por 18 parlamentares do Bloco Democracia e Luta, de oposição ao Governo, a reunião debateu a soberania e a segurança alimentar, o acesso à água para consumo humano e para a produção de alimentos no semiárido mineiro. Durante a audiência, também foi relançada a Frente Parlamentar em Defesa da Convivência com o Semiárido Mineiro.

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Em relato emocionado, a agricultora familiar e líder da Associação Comunitária de Campo Buriti, Faustina da Silva, falou sobre a vida no semiárido. Moradora de Turmalina (Vale do Jequitinhonha), viajou oito horas para participar da audiência e descreveu como era a região até os anos 1970. “Nos dois lados da chapada, se coletavam jaca, pequi, jatobá, sapoti, além de plantas medicinais. Os pais colhiam para sustento e comércio e os filhos pegavam as frutas de que gostavam. A região era cheia de veredas, mananciais que despejavam suas águas nas nascentes das grotas (pequeno vale estreito entre elevações, localizada na região mais baixa)”, relatou.

De acordo com a moradora, tudo mudou com a chegada de empresas responsáveis pela monocultura de eucalipto prometendo empregos e prosperidade na região, mas acabaram levando a madeira e os animais nativos. “Em contrapartida, deixaram veneno nas plantações e, no lugar do desenvolvimento, um desastre ambiental para esta e as próximas gerações”, completou a agricultora.

A representante da Associação Comunidade Riacho de Novo Cruzeiro (médio Jequitinhonha), Maria Lúcia de Souza, que também é agricultora familiar, disse que viver sem água é uma grande dificuldade para os agricultores. Ela conta que atualmente a população entende ser preciso conviver com a seca e com o semiárido, porque não há como brigar com o clima e com a geografia.

“Na nossa comunidade, ações como a aquisição de caixas d’água de 16 mil litros garantem a água para consumo humano. As caixas de 52 mil litros, conhecidas como terreirão, mantêm os plantios, as lavouras e o cuidado com os animais. O acesso a nossa semente crioula, representa nossos ancestrais, patrimônio de resistência, garantindo a autonomia dos produtores, a segurança alimentar e a sobrevivência das lavouras em períodos de seca”, lembrou. 

A estudante Talita Magalhães, estudante de agronomia, demonstrou preocupação com o futuro e com as iniciativas conduzidas por jovens para mitigar os efeitos da seca. Vinda da Comunidade Quilombola de Sambaíba e filha de produtores rurais, conviveu desde cedo com a dificuldade de acesso à água.

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“A grande pergunta que nos fazemos é por que vou ficar na roça? O que vou fazer na zona rural? Muitos jovens têm interesse em continuar na região, mas não têm apoio para isso. Aí entra a importância da educação rural, das Escolas Famílias Agrícolas (EFAs)”, acredita.

A jovem defendeu a educação particularizada onde os estudantes passam 15 dias na escola e 15 dias em casa, aplicando os conhecimentos aprendidos no campo e trocando aprendizados que trazem de suas comunidades. Ela conta que os jovens trabalham com tecnologias voltadas para suas realidades e considerando seus contextos. A universitária considera o semiárido sua realidade, não um conceito técnico aprendido na universidade.

Também é da academia que surgem informações sobre o semiárido mineiro. Flávia Galizoni, professora do Instituto de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Minas Gerais, conta que a vida pulsa no semiárido por meio da agricultura familiar e das comunidades tradicionais. 

Algumas de suas pesquisas indicam que habitantes de Januária (Norte de Minas) vivem com cerca de 30 litros de água para as atividades diárias. Na região das Veredas, o volume sobe para 42 litros/dia. Já um morador de Belo Horizonte, por exemplo, utiliza 120 litros por dia, podendo chegar a 194,7 litros, de acordo com dados da Copasa.

“O acesso à água no semiárido é muito precário, e isso não é só por causa do clima, mas devido a práticas que sequestram as fontes de água naturais. O Rio dos Cóchos, de onde vem a Talita, foi soterrado em uma noite por causa da monocultura do eucalipto. A prática na região das veredas consome mais 31,8 bilhões de litros de água por ano”, exemplifica a pesquisadora.

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De acordo com Valmir Soares de Macedo, coordenador da Articulação Semiárido Brasileiro, afirmou que não existe combate à seca, mas um povo que convive de forma muito resiliente no ambiente, que não é uma região de pobreza, mas muito rica em recursos naturais, métodos de conservação ambiental e cultura.

Para Valmir, é preciso pensar em garantias de água para as moradias e para as escolas. “A Asa trabalha com uma série de tecnologias sociais que visam a democratizar o acesso à água e energia, voltada a produtores familiares. Infelizmente o Estado não têm interesse em multiplicar essas tecnologias sociais que estão transformando vidas no semiárido. Estão preferindo investir em tecnologias prontas. Sabemos que onde tem terra e água é possível sobreviver”, afirmou.

Alexandre Pires, diretor do Departamento de Combate à Desertificação da Secretaria de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, falou das contradições presentes no processo de desenvolvimento do País. Como medidas de mitigação, apresentou três ações do Governo Federal. A elaboração e publicação do Plano Brasileiro de Combate à Desertificação – Plab Brasil, lançado em dezembro de 2025; a parceria com a Sudene feita nos municípios do Semiárido, para apoiar o processo de desenvolvimento dos planos estaduais, conduzido por meio de seminário da Univasf; e o lançamento, em junho, pelo Ministério do Meio Ambiente, do Programa de recaatingamento, para investimentos em terras degradáveis desse bioma.

Para a deputada Leninha, o debate de convivência com o semiárido é muito importante, principalmente para aqueles que sabem o que é levar lata d'água na cabeça.

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Do mesmo modo, o deputado Jean Freire (PT), contou que, quando se chega a algum lugar, a primeira coisa que é oferecida é um copo d’água. Para ele, que é médico, muitas doenças estão diretamente relacionadas à falta de acesso à água de qualidade. “A água também está fortemente ligada à mulher. Nunca vi homem com lata d’água na cabeça. Andando pela região do Mucuri, lamentei a condição de nossos rios, com tantas impurezas sendo despejadas”, lembrou o parlamentar.

Igam e Idene apresentam ações no semiárido

Clara Moreira, chefe de Gabinete do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), e Henrique Carvalho, diretor-geral do Instituto de Desenvolvimento do Norte e Nordeste de Minas Gerais (Idene), destacaram as ações das autarquias, especialmente para a segurança hídrica na região.

O Instituto Mineiro de Gestão de Águas (Igam) atua na regularização do uso de recursos hídricos, por meio de outorgas, na normatização do reuso da água, como a captação por poços artesianos, e na apuração de redes de monitoramento, além da promoção de ações para prevenir ou minimizar impactos de eventos hidrológicos críticos.

Clara Moreira salientou a elaboração do Plano Mineiro de Segurança Hídrica, lançado em março, que traz como principal diferencial este ano um banco de projetos executivos para a ampliação da segurança hídrica.

O representante do Instituto de Desenvolvimento do Norte e Nordeste de Minas Gerais (Idene), por sua vez, abordou o papel da autarquia como articuladora de ações do setores público e privado, de associações e da comunidade para colocar em funcionamento políticas públicas no território.

O Idene distribuiu dezenas de milhares de kits focados no enfrentamento da escassez hídrica, com a doação de tubos e caixas d’água. A eletrificação de poços artesianos, com a instalação de kits de energia fotovoltaica, também foi destaca pelo diretor-geral.

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Comissão de Participação Popular - debate acesso sobre acesso a água e segurança alimentar.
Comissão de Participação Popular - debate acesso sobre acesso a água e segurança alimentar.
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“Há pouco tempo, a Assembleia fez um seminário para discutir os efeitos dos eventos climáticos no Estado e hoje estamos lançando o Projeto Barraginhas, que é uma das tecnologias que a Assembleia vai apoiar para facilitar o acesso à água. Esperamos que, em breve, essas tecnologias sociais cheguem a muitos moradores do Semiárido."
Leninha
Dep. Leninha
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Moradores do semiárido mineiro relataram os desafios enfrentados diante da escassez de água na região. TV Assembleia

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